Na ONU, Lula sobe o tom contra o imperialismo:“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a tribuna das Nações Unidas nesta terça-feira (22) para rechaçar qualquer tipo de tutela sobre o Brasil e a ingerência externa no processo eleitoral brasileiro.

Na abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral, em Nova York, Lula expôs as contradições vigentes nas relações internacionais e tratou de todos os temas que afligem a humanidade.“Somos chamados a optar entre: multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação”, declarou.

O presidente tratou o momento atual como o período mais severo da diplomacia internacional nas últimas duas décadas e cobrou assertividade do organismo multilateral. “Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. (…) Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, afirmou.

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Soberania e integração regional

Sem mencionar explicitamente a política expansionista norte-americana, Lula criticou a postura hegemônica dos EUA: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento”. Ele vinculou as recentes tentativas de interferência política no entorno regional aos interesses geopolíticos sobre recursos estratégicos, a que se referiu como posturas anacrônicas na América Latina. “Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.

A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, disse.

Ele aproveitou para defender a autodeterminação dos países e destacou o que o povo venezuelano merece definir seu destino, classificou e o bloqueio norte-americano a Cuba como punição coletiva.

Combate ao crime e segurança das fronteiras

O chefe de Estado brasileiro também destacou o combate às facções criminosas e rejeitou a militarização externa ou a ingerência de potências estrangeiras na defesa do território sob a alegação de combate ao terrorismo. “O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados. Mães perdem seus filhos. Policiais não voltam para suas casas. As pessoas estão cansadas da violência”, pontuou. “Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, acrescentou, deixando claro que a proposta de cooperação e de combate conjunto à lavagem de dinheiro foi entregue ao governo norte-americano.

​Defesa do processo eleitoral

​Lula aproveitou a proximidade das eleições no país, e mandou um recado contra a ameaça sobre a autonomia das instituições e a lisura da disputa democrática no Brasil.“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”, enfatizou, garantindo que “ninguém…!!! Ninguém nos afastará desse caminho”.

​A paz e a crítica ao genocídio

​O presidente foi interrompido por aplausos várias vezes. Ele enfatizou a busca por soluções pacíficas e o repúdio ao uso da força militar no cenário internacional. “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política. Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade”, ressaltou.

Lula recebeu uma salva de palmas ao condenar a tragédia no Oriente Médio, afirmando que gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma do “genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”.

Neoliberalismo digital e regulação

​Na agenda econômica e tecnológica, o presidente criticou a desregulamentação das grandes corporações do setor e defendeu a soberania nacional sobre ativos digitais. “Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades. Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência. Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos”, denunciou.

O presidente também refutou qualquer ameaça contra a plataforma de pagamentos do Brasil. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagawmentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros.

E por fim criticou a indústria bilionária das BETs que “transforma o vício em lucro”(…)e “está endividando e destruindo lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio”, finalizou

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