Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Escritor, jornalista, professor e integrante da Academia Brasileira de Letras, ele construiu ao longo de mais de seis décadas uma obra dedicada a observar o Brasil por meio de seus personagens, conflitos políticos, transformações culturais e desigualdades sociais. A causa da morte não foi divulgada pela família e pela ABL (Academia Brasileira de Letras) nas primeiras informações sobre o falecimento.
Nascido em Além Paraíba (MG), em 1º de junho de 1931, Zuenir ingressou no jornalismo em 1956, como arquivista. Passou pelo Correio da Manhã e por revistas como Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão, Veja e IstoÉ. Também foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj.
Sua trajetória não se limitou à cobertura factual. Ao longo dos anos, desenvolveu uma escrita que combinava reportagem, pesquisa documental, entrevista, crônica e interpretação dos acontecimentos. Ventura foi a ponte entre o rigor da reportagem e a sensibilidade da literatura, deixando um legado que atravessa a resistência à ditadura, a gestão pública e a crônica do cotidiano.
A morte de Zuenir encerra uma longa presença pública, mas deixa uma obra construída justamente contra o esquecimento. Seu método combinava testemunho e investigação: ouvir personagens, consultar documentos, reconstruir ambientes e transformar acontecimentos dispersos em narrativa.
É nesse ponto que sua trajetória jornalística e literária se encontram. Zuenir Ventura foi personagem de parte da história que contou, testemunha de outra parte e narrador de quase todas elas.
“1968” e a memória da ditadura
Foi em 1988 que Zuenir publicou a obra que se tornaria sua referência mais conhecida: 1968: o ano que não terminou. O livro recuperou personagens, acontecimentos e ambientes políticos e culturais de um dos períodos mais intensos da ditadura militar. Diferente de historiadores acadêmicos, ele utilizou a técnica da reportagem literária, entrevistando protagonistas de todos os lados do espectro político.
Sua capacidade de ouvir e conectar os fatos transformou o livro em um documento nacional, demonstrando sua convicção de que a democracia só se fortalece quando a memória é preservada com honestidade intelectual. O próprio Zuenir relatou que, durante a preparação do livro, mergulhou nos acontecimentos de 1968 a ponto de perguntar sistematicamente às pessoas onde estavam e o que faziam naquele ano.
O jornalista também era parte daquela história. Durante a ditadura, foi preso e permaneceu cerca de três meses encarcerado, embora tenha relatado que não sofreu tortura física. Décadas depois, continuou tratando a experiência da repressão como uma questão de memória e de informação pública.
Em texto publicado pela ABL sobre o AI-5, Zuenir classificou o ato de 1968 como um marco da radicalização da ditadura e destacou seus efeitos sobre a liberdade de expressão, a produção cultural e a vida política brasileira.
Para ele, o problema da censura ultrapassava o próprio jornalismo. Como afirmou em entrevistas, a restrição à imprensa impedia que a sociedade soubesse o que acontecia.
A preocupação com a memória também o levou a defender a Comissão Nacional da Verdade. Ao falar sobre os trabalhos do órgão, Zuenir sustentava que conhecer o passado era necessário para compreender o presente e evitar a repetição das violações cometidas durante a ditadura.
O jornalismo como observação do país
A obra de Zuenir não ficou restrita aos anos de chumbo. Em 1989, publicou no Jornal do Brasil a série de reportagens O Acre de Chico Mendes, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog. Em 1994, lançou Cidade partida, livro-reportagem sobre a violência no Rio de Janeiro, vencedor do Jabuti de Reportagem.
Em Chico Mendes: crime e castigo, de 2003, voltou ao universo amazônico. Também publicou O Rio de J. Carlos, Inveja – Mal Secreto, Crônicas de um fim de século, 70/80 Cultura em trânsito – da repressão à abertura, este em parceria com Heloisa Buarque e Elio Gaspari, além de Minhas histórias dos outros, 1968 – O que fizemos de nós, Conversa sobre o tempo, com Luis Fernando Verissimo, e o romance Sagrada Família.
A amplitude de sua produção ajudou a aproximar diferentes campos. Zuenir escreveu sobre política, violência, literatura, comportamento, cultura popular e personagens brasileiros, mantendo a reportagem como uma de suas principais ferramentas.
Em 2026, a própria ABL destacou, ao apresentar o documentário Mestre Zu, sua contribuição para o jornalismo cultural. Em 1985, ao reformular o caderno de cultura do Jornal do Brasil, Zuenir passou a ser reconhecido também pela capacidade de tratar a cultura como espaço de observação das mudanças sociais.
Um intelectual diante da política
A relação de Zuenir com a política não se expressava apenas na cobertura de governos e crises. Sua obra acompanhou diferentes momentos da vida democrática brasileira e frequentemente discutiu os efeitos da política sobre a sociedade.
Em 2011, ao escrever sobre a posse de Dilma Rousseff, chamou atenção para o simbolismo de uma ex-guerrilheira chegar à Presidência e passar a faixa presidencial diante das Forças Armadas. No texto, relacionou a cena à trajetória brasileira entre ditadura e democracia e à discussão sobre memória, responsabilização e direitos humanos.
Em outros momentos, também analisou a participação política da juventude. Em 2012, afirmou que as novas gerações tinham nas redes sociais uma ferramenta potencial de mobilização, embora identificasse diferenças entre a juventude fragmentada de seu tempo e a geração que havia ocupado as ruas contra a ditadura, pelas Diretas Já e em outras mobilizações políticas.
Até 2022, a coluna de Zuenir Ventura em O Globo, manteve-se como um farol de racionalidade em um país cada vez mais polarizado. Ele foi um crítico severo da ascensão da extrema-direita, dos ataques às instituições democráticas e da desinformação, mas manteve sua independência intelectual até o fim. Sua defesa intransigente da Constituição de 1988 e do Estado Democrático de Direito refletia a lição que aprendeu ao viver sob a ditadura: a de que a liberdade é um bem frágil que exige vigilância constante.
A cultura como forma de entender o Brasil
Uma das contribuições de Zuenir foi justamente tratar cultura e política como dimensões que não podiam ser completamente separadas. Sua passagem pelo jornalismo cultural ampliou a pauta para além da produção artística, incorporando comportamento, costumes e transformações geracionais.
No cinema, codirigiu o documentário Um Dia Qualquer e foi roteirista de Paulinho da Viola: Meu Tempo é Hoje, dirigido por Izabel Jaguaribe. Na literatura, transitou entre o livro-reportagem, a crônica, o ensaio e o romance.
Essa diversidade ajuda a explicar a permanência de sua obra. 1968 tornou-se referência para gerações que não haviam vivido a ditadura; Cidade partida tornou-se uma das obras associadas à discussão sobre violência e desigualdade no Rio; e suas reportagens sobre Chico Mendes aproximaram jornalismo, defesa de direitos humanos e questão amazônica.
Em 2008, recebeu um troféu especial da Organização das Nações Unidas por sua contribuição à defesa dos direitos humanos. Dois anos depois, foi escolhido Jornalista do Ano pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros. A The Economist o classificou entre os jornalistas que melhor observavam o Brasil.
Da reportagem à Academia Brasileira de Letras
Em 30 de outubro de 2014, Zuenir foi eleito para a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Ariano Suassuna. Tomou posse em março de 2015.
A entrada na ABL representou o reconhecimento de uma trajetória em que a atividade jornalística havia adquirido dimensão literária sem abandonar a investigação da realidade. Ele pertenceu à geração que acreditava que o texto jornalístico poderia ser, ao mesmo tempo, informativo e belo; crítico e empático.
Até os últimos anos, Zuenir permaneceu ligado à reflexão sobre o Brasil. Em junho de 2026, ao completar 95 anos, a ABL o apresentou como um dos principais renovadores do jornalismo brasileiro e exibiu o documentário Mestre Zu, dedicado à sua trajetória. O filme recupera sua passagem pela imprensa, pelo jornalismo cultural e por episódios decisivos da história política e social brasileira.