
Depois de Lauro Jardim colocar em dúvida a credibilidade de Walfrido Warde, Míriam Leitão voltou ao episódio nesta quinta-feira (24), em O Globo, e foi ainda mais direta: a história do suposto uísque enviado por Daniel Vorcaro a Lula é “pura fumaça”. A mensagem de Warde veio à tona na coluna de Malu Gaspar, que revelou a conversa entre o advogado e o então dono do Banco Master.
Em sua coluna, intitulada “Uma eleição bem diferente”, Míriam Leitão afirma que a disputa eleitoral está sendo soterrada por uma avalanche de notícias sobre escândalos, algumas sérias e outras utilizadas para confundir.
“A eleição deste ano não tem qualquer discussão de política pública, e o processo está sendo soterrado por um tsunami de notícias sobre escândalos. Algumas sérias, outras usadas para confundir”, escreve.
Para a jornalista, o ambiente exige uma separação entre aquilo que é fato e aquilo que funciona como distração. “Em ambiente assim, é melhor separar o fato da fumaça feita para esconder a realidade”, afirma.
“O candidato Flávio Bolsonaro entrar com uma notícia-crime contra o presidente Lula por suposta relação com Daniel Vorcaro, e por, talvez, ter recebido um whisky, é pura fumaça”.
A colunista então propõe que a discussão seja devolvida aos fatos concretos do caso Master.
O Banco Central não autorizou a compra do Banco Master pelo BRB, liquidou a instituição e comunicou indícios de crimes. A Polícia Federal investigou o caso e prendeu Daniel Vorcaro, além de integrantes de sua família, segundo o texto de Míriam.
A pergunta feita pela jornalista é direta: “Em que o governo beneficiou o ex-banqueiro?”
A coluna contrapõe essa narrativa às informações envolvendo Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Míriam lembra que o senador pediu dinheiro ao banqueiro e recebeu, insistiu em novas parcelas e chegou a visitá-lo depois de sua prisão para cobrar mais recursos.
Ela também questiona o destino do dinheiro relacionado ao filme “Dark Horse” e afirma que não está esclarecido o montante envolvido nem o caminho percorrido pelos recursos.
Míriam destaca ainda que Flávio Bolsonaro é, segundo o material que cita em sua coluna, o único candidato à Presidência investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva e organização criminosa no caso Master.
Flávio Bolsonaro sustenta, em sua notícia-crime, que o advogado teria relatado a Vorcaro ações destinadas a aproximá-lo de Lula e de autoridades do governo federal. A coluna registra a reunião entre Lula e Vorcaro no Palácio do Planalto e a mensagem posterior na qual Warde afirmou ao banqueiro que o presidente teria agradecido pelo uísque.
Mas Míriam não trata a mensagem como comprovação de que Lula tenha recebido o presente. Ao contrário, coloca o episódio dentro daquilo que chama de “fumaça” produzida pela disputa eleitoral.
A colunista também desloca o foco para outro conjunto de fatos envolvendo Vorcaro: as relações com diferentes setores do Judiciário e as comunicações do banqueiro com autoridades.
Míriam menciona, por exemplo, as comunicações de Alexandre de Moraes com Vorcaro, que era cliente do escritório de sua mulher, e afirma que existem diferentes posições dentro do Supremo sobre a extensão das investigações. “Que todas as dúvidas sejam esclarecidas”, escreve.
O mesmo critério, portanto, deveria valer para todos os personagens que aparecem nos arquivos extraídos dos celulares de Vorcaro: investigar, esclarecer e separar evidências de versões.
A crítica central da coluna, porém, vai além do caso Master. Míriam Leitão afirma que a sucessão de vazamentos e acusações está ocupando o espaço que deveria ser destinado à discussão dos programas dos candidatos.
“O ambiente no país está beligerante, com trocas de acusações, algumas reais, outras resultantes de manipulação”, diz. “Nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto nesta eleição”.
A conclusão é um alerta sobre o efeito político da enxurrada de vazamentos: o eleitor corre o risco de chegar ao momento da escolha sem discutir aquilo que os candidatos efetivamente pretendem fazer caso sejam eleitos.