Mendonça imita Bolsonaro para evitar que PF investigue seus crimes

A Polícia Federal voltou ao centro da disputa institucional de poder. Na terça-feira (8), o ministro André Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência Leandro Almada. A decisão, referendada por maioria na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) e revertida por Flávio Dino, ocorreu após relatórios internos da corporação apresentados ao ministro Alexandre de Moraes apontarem interferência direta de Mendonça nas investigações do Banco Master e de fraudes no INSS.

A movimentação reflete, no âmbito da Corte, o mesmo padrão de pressão e de instrumentalização exercido por Jair Bolsonaro sobre a corporação durante o seu mandato presidencial. Embora exercida a partir de uma cadeira no STF, a iniciativa adota dinâmica similar à empregada por Bolsonaro em 2020 para controlar os rumos das apurações policiais.

O episódio mais emblemático consta do registro em áudio da reunião ministerial de 22 de abril de 2020. Na ocasião, Bolsonaro cobrou a troca de membros da estrutura policial no Rio de Janeiro e amarrou a exigência diretamente à proteção do seu entorno familiar e de aliados políticos:“Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família de sacanagem (Sic), ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira.”Dois dias após a reunião ministerial, Maurício Valeixo deixou a Diretoria-Geral da instituição. O então ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu demissão do cargo e acusou o presidente da República de tentar interferir na Polícia Federal para obter relatórios sigilosos e influenciar inquéritos direcionados a familiares e interlocutores.

Em depoimento prestado à própria corporação, Moro relatou mensagem na qual Bolsonaro sintetizou o objetivo da ingerência ao afirmar: “Você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro.”As 27 unidades correspondem às estruturas regionais instaladas nos 26 estados e no Distrito Federal.

Bolsonaro fez cerca de 20 substituições em postos de chefia ao longo do mandato, ocorridas no transcorrer de apurações que atingiam o seu entorno.

A sequência de intervenções registrou a saída de Ricardo Saadi no Rio de Janeiro, o impasse na troca de Valeixo, a indicação de Alexandre Ramagem para a Diretoria-Geral, que foi sustada por decisão do STF, e a posse de Rolando de Souza, que posteriormente alterou o comando no estado fluminense.

O Inquérito 4831, instaurado no STF para apurar a suposta interferência, teve relatório inicial sem apontamento de provas conclusivas de ilícito penal, levando a Procuradoria-Geral da República (PGR) sob Augusto Aras a solicitar o arquivamento. Em 2025, a PGR sob a gestão de Paulo Gonet requereu a reabertura do procedimento, e o ministro Alexandre de Moraes deferiu o pedido para investigar se houve utilização da estrutura pública para obtenção de dados sigilosos ou interferência em inquéritos. Os registros em áudio, os depoimentos prestados e os atos formais de exoneração integram os autos sob análise Judicial.

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Mendonça foi chefe da AGU e ministro de Bolsonaro

André Mendonça exerceu o cargo de advogado-geral da União e assumiu o Ministério da Justiça em abril de 2020, sucedendo Sergio Moro durante a crise institucional na segurança pública. Em 2021, foi indicado por Bolsonaro para ocupar vaga no STF.

Atualmente, o ministro detém a relatoria de inquéritos referentes ao Banco Master e a fraudes no INSS. Em 2022, Mendonça indeferiu pedido do então senador Randolfe Rodrigues para investigar aquisições imobiliárias da família Bolsonaro com utilização de dinheiro em espécie, classificando as apurações jornalísticas apresentadas como conjunto de ilações e sustentando que o Judiciário não deve atuar em disputas político-partidárias.

O ministro também responde pela relatoria de procedimentos relativos a citações ao senador Flávio Bolsonaro no financiamento da produção cinematográfica Dark Horse, com recursos associados a Daniel Vorcaro. As decisões proferidas na relatoria definem o andamento e o escopo das diligências sob sua jurisdição.

Antes de determinar o afastamento do diretor-geral, Mendonça havia estabelecido restrições ao fluxo de trabalho interno das investigações. O relator determinou que delegados não integrantes das equipes específicas não tivessem acesso aos autos, medida que alcançou os quadros da direção da corporação, ordenou a anexação de material bruto sem a prévia análise técnica dos peritos e vedou o compartilhamento de dados com superiores hierárquicos. A justificativa apresentada baseou-se em sua atuação prévia no Ministério da Justiça e na Advocacia-Geral da União.

Relatórios de inteligência da Polícia Federal tornados públicos por Alexandre de Moraes em 3 de setembro contestaram a condução dos inquéritos. Os documentos internos apontaram que o relator extrapolava atribuições judiciais, direcionava linhas de investigação e dispensava tratamento desigual a investigados em situações análogas. Moraes destacou a presença de indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. Um dos relatórios mencionou ainda a hipótese de que a reordenação dos atos processuais poderia influenciar discussões sobre anistia a condenados pelos atos de 8 de janeiro.

Na decisão proferida desta terça-feira (8), e já revertida por Flávio Dino, Mendonça alegou ter sido submetido a monitoramento ilegal por mais de 30 dias, classificou os procedimentos como arapongagem institucional e ordenou o afastamento cautelar de Andrei Rodrigues e Leandro Almada, determinando a abertura de procedimentos penal e administrativo pela Corregedoria da PF.

Em agosto, os 27 superintendentes regionais da Polícia Federal assinaram nota pública em defesa da autonomia técnica e da direção da corporação, rejeitando a submissão das apurações a interesses políticos ou pessoais. Nesta semana assinaram nota em defesa de Andrei Rodrigues. Os desdobramentos estão na mesa de Edson Fachin, presidente do STF.

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