A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já foram os principais símbolos da aproximação entre a extrema direita europeia e o movimento trumpista.
A relação, porém, foi abalada pelas repetidas provocações de Trump e por divergências políticas que abriram uma fissura entre os antigos aliados. Em entrevista ao New York Times publicada nesta sexta-feira (21), Meloni abriu o jogo sobre o desgaste e revelou que os dois não conversam há várias semanas.
“É evidente que eu pensei que as coisas seriam mais fáceis com Donald Trump, dada a nossa convergência em relação à imigração e à cultura woke. As coisas acabaram sendo diferentes”, afirmou Meloni.
A aliança entre os dois projetava uma articulação internacional da extrema direita com consequências diretas para a classe trabalhadora no mundo inteiro. Meloni foi a única chefe de governo da União Europeia convidada para a posse de Trump, em janeiro de 2025, e buscava se colocar como ponte entre Washington e os governos europeus.
Desde que voltou à Casa Branca, Trump acumulou ataques à União Europeia e aos próprios aliados dos Estados Unidos no continente. Ameaçou tomar a Groenlândia, afirmou que a UE havia sido criada para “prejudicar” os Estados Unidos e criticou a participação dos países europeus da Otan na guerra do Afeganistão.
Trump chegou a dizer que os aliados europeus haviam ficado “um pouco para trás” na guerra do Afeganistão. Na Itália, onde 53 militares morreram no conflito, a declaração foi recebida com indignação.
Fabio Rampelli, vice-presidente da Câmara dos Deputados e aliado de longa data de Meloni, classificou a declaração como uma “afronta brutal”.
Em abril, a guerra contra o Irã colocou Roma e Washington em lados diferentes sobre o uso de instalações militares na Itália. O governo Meloni negou aos Estados Unidos o uso de uma base na Sicília para operações contra o país.
Na mesma época, Trump atacou o papa Leão XIV e o chamou de “fraco”. Meloni respondeu que as declarações contra o pontífice eram “inaceitáveis”. O norte-americano voltou à carga contra a antiga aliada e disse que ela também era “inaceitável”.
Em junho, os dois voltaram a se encontrar durante a cúpula do G7, na França. Dias depois, Trump afirmou que Meloni havia “implorado” para tirar uma fotografia com ele. A primeira-ministra negou a versão: “A Itália e eu nunca imploramos”.
Racha chega a outros aliados europeus
Meloni não foi a única liderança da extrema direita europeia a entrar em choque com Trump. Na Alemanha, a guerra contra o Irã provocou divergências dentro da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido que mantém relações estreitas com integrantes do movimento MAGA.
Parte da AfD passou a questionar o apoio a Trump diante da guerra no Oriente Médio. O partido também enfrenta as consequências das tarifas impostas pelos Estados Unidos, especialmente sensíveis para uma economia fortemente dependente das exportações industriais.
As ameaças contra a Groenlândia provocaram reações em outros aliados do republicano. Lideranças nacionalistas europeias que celebraram sua volta à Casa Branca rejeitaram a possibilidade de Washington assumir o controle do território ligado à Dinamarca.
As divergências, até agora, não romperam os vínculos políticos construídos nos últimos anos. Meloni continua citando imigração e “cultura woke” como pontos de convergência com Trump, enquanto integrantes da AfD mantêm relações com o movimento MAGA.
“Não gosto da ideia de uma Itália submissa, uma Itália que se vê como inferior aos outros”, afirmou Meloni ao New York Times. A premiê disse que seu objetivo é colocar o país “à mesa daqueles que definem a direção” da política internacional.
Meloni também afirmou que pretende preservar a aliança entre os países ocidentais. “Continuo acreditando que a unidade do Ocidente é algo muito importante. Não decido a estratégia italiana com base nas minhas relações pessoais”, disse.
Questionada se voltará a conversar com Trump depois das férias de verão na Europa, respondeu apenas: “Bem, vamos ver”.