Marina Sena no Rock In Rio: tudo que uma mulher faz é sobre um homem?

Juliano Floss e Marina Sena. Foto: Reprodução

Uma artista faz uma performance no palco de um dos maiores festivais de música do mundo e tudo que a grande mídia e o público – sobretudo o público – têm a dizer é que se trata de uma indireta pro ex.

Marina Sena rasgou um boneco e arrancou-lhe as “tripas” no palco, durante uma música que muitos acreditam ter sido inspirada no ex, Juliano Floss.

A conta não bate: o álbum foi lançado antes do término, e provavelmente produzido muito antes disso.

Dos dois, um: ou o público não sabe contar ou realmente considera que tudo o que uma mulher faz, inclusive artisticamente, tem a ver com seus relacionamentos românticos.

É simplório pensar que cada música fala a verdade sobre a vida de seu compositor: é como se um artista não pudesse criar nada além do que diz respeito a si mesma e a sua vida íntima.

Marina, aliás, já apareceu em muitas manchetes sendo elogiada por “provar que é artista.”

E artista por acaso precisa provar que é artista?

Em se tratando de uma mulher jovem, de origem pobre lá de Taiobeiras – e com muito orgulho, como ela mesma já disse em um single homômimo feito para sua terra de origem – parece que sim.

Eu ousaria dizer, inclusive enquanto crítica cultural, que Marina Sena será lembrada pelos artistas das próximas gerações como um nome importante da nova MPB.

Mas o público prefere aprisioná-la na caixinha das polêmicas.

Mulheres são frequentemente reduzidas aos seus relacionamentos românticos, e no caso dela há um agravante: a cantora, que já afirmou não querer casar e ter filhos (e isso é crime?), performa desde sempre uma persona livre, uma mulher que assume o próprio lugar e sempre volta pra si mesma.

Não se pode admitir que uma mulher seja livre sem enquadrá-la no lugar da mulher abandonada e sofrida, que manda indireta pro ex no palco.

Ela pode ter querido dizer muito mais ao estraçalhar o tal boneco, mas quem se importa?

Ninguém está prestando atenção porque é mais fácil achar que tudo que uma mulher faz é pra chamar a atenção de um homem.

Essa premissa não é apenas estúpida: é machista.

Uma mulher não precisa estar sempre se referindo a um homem, nem na sua arte, nem na sua vida, e supor isso é presumir que mulheres não têm um discurso independente dos homens, sobretudo daqueles com quem se relacionam.

Você provavelmente já ouviu falar sobre o teste de Bechdel, uma ferramenta criada pela cartunista americana Alison Bechdel, a partir de uma tirinha de 1985, para observar a presença e a autonomia de personagens femininas sobretudo no cinema.

Ela propõe três perguntas simples: há pelo menos duas mulheres identificáveis pelo nome? Elas conversam entre si? A conversa tem outro tema que não seja um homem?

Você deve imaginar o resultado: pouquíssimas produções de Hollywood passam no teste, e mesmo fora dela mulheres são retratadas sem autonomia, sempre ligadas a um homem.

Talvez ainda seja cedo para que alguns já tenham percebido, mas Marina Sena é mais do que isso, assim como outras artistas que ocupam espaço na cena nacional.

Na ficção, não estamos acostumados a ver mulheres como Marina, que compõem para além de si mesmas e não usam o próprio trabalho pra darem a conhecer ao público sobre suas vidas íntimas.

Não é de se espantar que uma mulher como Marina Sena não seja compreendida.

As letras, a estética, a música, a performance, o boneco: nada disso reduz uma mulher a uma polêmica com um ex qualquer.

Mas é mais fácil reduzí-las do que admitir que estão simplesmente fazendo um trabalho foda.

Artigo Anterior

Internações por emergências oncológicas crescem no SUS e expõem desigualdades no acesso ao tratamento

Próximo Artigo

A Lava Jato foi feita para desarticular o Brasil, afirma Robson Farinazzo

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!