Márcio Canella, aliado de Flávio Bolsonaro, foi preso nesta quinta-feira, 15, pela Polícia Federal, que o aponta como “patrono político e articulador de alto escalão” de uma organização criminosa investigada por lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis. Segundo a PF, Canella atuaria como elo entre o poder público, interesses econômicos e grupos armados, com conexões com milícias e traficantes. A investigação também cita um suposto acordo com integrantes do Comando Vermelho para a retirada de barricadas em áreas de Belford Roxo.
A prisão ocorreu na oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma organização criminosa que teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.
O ex-prefeito de Belford Roxo já havia sido preso este ano. Em 7 de julho, durante a sexta fase da mesma Operação Unha e Carne, Canella era alvo de um mandado de busca e apreensão, mas acabou preso em flagrante depois que a PF encontrou um fuzil de calibre restrito em seu carro. Ele negou ser o dono da arma e foi solto três dias depois.
Aliança com Flávio Bolsonaro
Em fevereiro de 2026, reunidos em Brasília, na sede do PL, aliados definiram a chapa bolsonarista para o Rio de Janeiro. Márcio Canella, do União Brasil, e o então governador Cláudio Castro, do PL, seriam as apostas do grupo e de Flávio Bolsonaro para as duas vagas ao Senado no Rio de Janeiro. Para o governo estadual, o nome definido foi Douglas Ruas, do PL.
Em 3 de abril, Flávio gravou um vídeo de apoio à candidatura do aliado: “Estou aqui para reafirmar nosso apoio integral, 100%, ao meu amigo Márcio Canella”. Flávio também disse que Canella era “uma pessoa competente”, que “sabe trabalhar” e que estaria com seu grupo na missão de “resgatar o nosso Brasil”.
Em 9 de maio, Flávio participou de um evento do PL em Florianópolis, Santa Catarina. Ele foi questionado pela CNN sobre o futuro político da mãe, que era cogitada como possível candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro, já que Flávio concorreria à Presidência. A resposta foi: “Minha mãe é candidata a primeira suplente do Márcio Canella (União-RJ), que é nosso pré-candidato ao Senado no Rio de Janeiro. Mãe, te amo”, disse à CNN, na véspera do Dia das Mães.
Rogéria Bolsonaro é ex-mulher de Jair Messias Bolsonaro e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro. Após a crise envolvendo Canella, deixou a suplência e concorreu a deputada federal pelo Rio de Janeiro. Recebeu 65.496 votos e ficou na suplência do PL.
A saída da disputa pelo Senado
Após a prisão de julho, a candidatura de Canella ao Senado perdeu sustentação política. O PL retirou Rogéria Bolsonaro da suplência e, posteriormente, Canella desistiu da disputa.
Para concorrer ao Senado, Canella havia renunciado à Prefeitura de Belford Roxo em abril. Sem a candidatura ao Senado, voltou a disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Mesmo depois da prisão e das investigações, foi eleito deputado estadual com 197.178 votos, a segunda maior votação do estado.
A relação política com o Bolsonarismo, porém, é anterior à eleição de 2026.
Em 2022, Waguinho, prefeito de Belford Roxo apoiou Lula no segundo turno da eleição presidencial. Sua esposa, Daniela Carneiro, também aderiu a Lula e, após a eleição, foi nomeada ministra do Turismo, cargo que ocupou durante os primeiros meses do terceiro governo Lula.
Canella, na ocasião como vice-prefeito eleito na cahap de Waguinho seguiu pelo caminho contrário. No segundo turno, declarou apoio a Jair Bolsonaro e fez campanha para a reeleição do então presidente. Em Belford Roxo, chegou a organizar uma carreata pró-Bolsonaro.
A divergência presidencial marcou o início do rompimento entre os antigos aliados. Em 2024, já como adversários políticos, Canella disputou a Prefeitura de Belford Roxo contra Matheus Carneiro, o Matheus do Waguinho, sobrinho do ex-prefeito e candidato apoiado por seu grupo. Canella venceu no primeiro turno, com 62,88% dos votos válidos, contra 35,20% do adversário.
Os elos de Canella com investigados e condenados por milícia
Canella acumula relações políticas com personagens apontados ou condenados por envolvimento com milícias na Baixada Fluminense.
Em sua campanha para deputado estadual em 2018, Canella teve ao seu lado o ex-PM Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, condenado por homicídio e associação criminosa e apontado como chefe de uma milícia na Baixada Fluminense. No ano seguinte, Giane Prudêncio, mulher de Jura, foi nomeada assessora no gabinete de Canella na Alerj.
Já como prefeito de Belford Roxo, Canella nomeou para o primeiro escalão municipal dois políticos que haviam sido barrados pelo Tribunal Superior Eleitoral por envolvimento com milícias armadas.
Um deles foi Eduardo Araújo, nomeado secretário municipal de Indústria e Comércio. Policial militar, Araújo havia sido condenado em primeira instância, em 2023, sob acusação de integrar uma milícia que atuava na Baixada Fluminense.
O outro foi Fábio Augusto de Oliveira Brasil, o Fabinho Varandão, nomeado secretário municipal de Esporte e Lazer. Ele também teve a candidatura barrada pelo TSE por envolvimento com milícia e foi posteriormente condenado em processo por extorsão e porte ilegal de armas.
As duas nomeações chegaram a ser usadas pela Procuradoria Regional Eleitoral, em 2026, em uma tentativa de barrar a candidatura de Canella a deputado estadual. O TRE-RJ, porém, permitiu que ele disputasse a eleição.
Na investigação que levou à prisão de Canella nesta quinta-feira, a Polícia Federal avançou ainda mais. A PF descreve o político como “patrono político e articulador de alto escalão” da organização investigada e afirma que o grupo mantinha conexões tanto com milícias quanto com o tráfico de drogas.
A investigação também aponta um suposto acordo com integrantes do Comando Vermelho para a retirada temporária de barricadas em regiões de Belford Roxo onde a prefeitura faria obras. Segundo a PF, haveria recuo das ações policiais durante os trabalhos e, depois da conclusão das obras, os criminosos retomariam o controle das áreas. As suspeitas ainda estão em investigação.
A defesa de Canella nega envolvimento com organizações criminosas e, após a prisão desta quinta-feira, informou que ainda buscava acesso aos autos.
Flávio Bolsonaro e as milícias
A relação de Flávio Bolsonaro com o tema das milícias no Rio de Janeiro também é antiga.
Em discurso na Alerj, em fevereiro de 2007, quando era deputado estadual, Flávio afirmou que não se deveria “simplesmente estigmatizar as milícias” e argumentou que havia benefícios na atuação de grupos formados por policiais em comunidades.
Flávio também homenageou Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão da Polícia Militar e ex-integrante do Bope que anos mais tarde seria apontado pelo Ministério Público como chefe do grupo de milicianos conhecido como Escritório do Crime.
Em 2003, Flávio apresentou uma moção de louvor a Adriano. Em 2005, foi autor do projeto que concedeu ao policial a Medalha Tiradentes, principal condecoração da Alerj. Quando a homenagem foi aprovada, Adriano estava preso preventivamente sob acusação de homicídio.
Além das homenagens, familiares de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio na Alerj. Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, então mulher de Adriano, foi assessora do gabinete entre 2007 e 2018. Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, trabalhou no gabinete entre 2016 e 2018.
As duas apareceram posteriormente na investigação sobre o esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio.
As baixas da chapa de Flávio no Rio
As operações policiais e decisões judiciais provocaram outras baixas entre os nomes que chegaram a ser projetados para o palanque de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro.
Antes do anúncio de Douglas Ruas como candidato ao governo, o nome mais forte era o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, do União Brasil.
Bacellar foi preso pela Polícia Federal em dezembro de 2025 na Operação Unha e Carne. A PF o acusou de vazar informações sigilosas e tentar obstruir a Operação Zargun, que havia levado à prisão do então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, acusado de atuar em favor do Comando Vermelho.
Segundo a investigação, Bacellar teria alertado TH Joias sobre a operação e o orientado a destruir provas.
Cláudio Castro seria o outro candidato ao Senado ao lado de Canella na composição anunciada em fevereiro. No entanto, sua candidatura também ruiu.
Castro renunciou ao governo do Rio em 23 de março de 2026 para se desincompatibilizar e tentar concorrer ao Senado. No dia seguinte, o TSE o declarou inelegível por oito anos, contados a partir da eleição de 2022, por abuso de poder político e econômico, condutas vedadas e captação ilícita de recursos.
Nos meses seguintes, o ex-governador também passou a ser alvo de investigações da Polícia Federal. Em maio, foi alvo da Operação Sem Refino, que investiga suspeitas de irregularidades envolvendo o grupo Refit, do setor de combustíveis.
Onze dias depois, Castro voltou a ser alvo da PF, desta vez na oitava fase da Operação Compliance Zero, que investiga aplicações bilionárias do Rioprevidência no Banco Master, de Daniel Vorcaro. A investigação apura cerca de R$ 3,6 bilhões em aportes do fundo previdenciário dos servidores fluminenses em ativos relacionados ao banco. Segundo decisão judicial que autorizou as buscas, há indícios de que Castro teve atuação politicamente relevante para viabilizar os investimentos.