Em sabatina da rádio Itatiaia de Montes Claros (MG) nesta quinta-feira (17), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou um tom firme de defesa da soberania nacional ao tratar das relações com os Estados Unidos e da exploração de recursos estratégicos. O mandatário classificou como “inaceitável” e “ultrapassado” um suposto documento norte-americano divulgado hoje que continha exigências para a negociação tarifária, incluindo prioridade de compra de minerais raros por empresas dos EUA e restrições a investimentos chineses.
Para Lula, a publicação do texto, datado do ano passado, visa prejudicar sua campanha eleitoral através de um vazamento coordenado. Lula afirmou que o documento divulgado havia sido recebido anteriormente pelo governo e não chegou a ser negociado. A questão serviu de ponto de partida para uma defesa mais ampla de uma política industrial associada à exploração dos recursos minerais brasileiros.
Lula afirmou que o objetivo não é simplesmente extrair minério e exportar matéria-prima, mas desenvolver no país as etapas seguintes da cadeia produtiva: transformação mineral, fabricação de baterias, celulares e chips.
O tema ganha relevância adicional porque Lula visitou em Montes Claros uma unidade da indústria farmacêutica e associou o investimento ao objetivo de reduzir a dependência brasileira da importação de medicamentos. Segundo ele, a presença do SUS como grande comprador ajuda a criar escala para a indústria nacional. A entrevista ocorreu durante agenda do presidente no Norte de Minas, onde também estava prevista caminhada com o candidato ao governo mineiro Patrus Ananias, ao lado de candidatos ao Senado de sua aliança.
Soberania mineral e industrialização local
O ponto alto da pauta econômica foi a sanção da Política Nacional de Minerais Críticos. Lula detalhou uma mudança de paradigma histórico: diferentemente do ciclo do ouro, onde o Brasil fornecia matéria-prima bruta enquanto potências europeias ficavam com o valor agregado, o novo marco regulatório condiciona a participação estrangeira à transformação industrial no território nacional.
“Nós agora queremos explorar aqui e vender o produto acabado aqui”, afirmou o presidente, destacando a criação de conselhos técnicos para mapear as reservas — atualmente conhecidas em apenas 30% do território. A estratégia visa gerar empregos de qualidade e formar profissionais especializados em baterias, chips e tecnologia verde, posicionando o país como líder na transição energética global.
Reação à “arrogância” norte-americana e relação com Trump
Questionado sobre a retórica diplomática, Lula endureceu o discurso contra Washington. “O Brasil não se curvará à arrogância de nenhum presidente de nenhum país do mundo”, declarou, reforçando que a democracia brasileira é intocável. Apesar das críticas públicas às interferências externas, o presidente manteve uma distinção pessoal entre Donald Trump e o establishment político americano.
Lula revelou ter oferecido expertise da Polícia Federal brasileira no combate ao crime organizado (facções como Comando Vermelho e PCC) diretamente a Trump, mas não obteve resposta. Ele atribuiu o esfriamento das iniciativas bilaterais à atuação do Secretário de Estado, Marco Rubio, a quem acusou de ser hostil à América Latina e de sabotar acordos alinhados pelo próprio ex-presidente republicano. O candidato também relembrou a recusa americana ao acordo nuclear iraniano mediado pelo Brasil e Turquia, sugerindo que o atual cenário internacional tornou-se mais perigoso pela ausência dessa diplomacia multilateral.
Ao falar sobre a Assembleia Geral da ONU, prevista para a semana seguinte, antecipou um discurso concentrado em guerras, economia internacional, reforma do Conselho de Segurança e falta de mecanismos de coordenação global.
Defesa institucional do STF e Reforma Judiciária
No campo institucional, Lula voltou a defender a integridade do Supremo Tribunal Federal (STF), embora tenha admitido a necessidade de reformas estruturais. Ao comentar o pedido de vista de Flávio Dino que suspendeu o julgamento sobre condutas de ministros da Corte, o presidente expressou confiança de que a verdade virá à tona.
Ele reiterou suas propostas para o Judiciário: mandato fixo para ministros (evitando permanências de décadas) e a incompatibilidade entre a função de magistrado supremo e o enriquecimento patrimonial. “Quem quiser ser rico não pode ser ministro da Suprema Corte. Aquilo é um sacerdócio”, disse. Além disso, cobrou transparência total nas investigações envolvendo autoridades, questionando quem tem medo de divulgar provas relacionadas ao escândalo do Banco Master e às conexões com a família Bolsonaro.
O presidente descartou a tese de que o caso Master esteja estabilizado, afirmando que “falta apurar quem está envolvido nisso”. Ele conectou indiretamente o adversário ao esquema financeiro, mencionando ligações antigas com o banqueiro Daniel Vorcaro e o financiamento de filmes familiares.
Um quarto mandato centrado em educação, tecnologia e transição energética
Ao final da entrevista, quando questionado sobre o que faria em um eventual novo mandato, Lula não apresentou uma medida única como prioridade. Depois da resposta bem-humorada de que o primeiro ato seria “tomar posse”, detalhou áreas que pretende colocar no centro de uma próxima etapa de governo.
A educação apareceu como prioridade declarada. Lula falou em novos cursos universitários e formação especializada em áreas relacionadas à indústria química, minerais críticos e terras raras.
Também destacou a indústria digital, a inteligência artificial em língua portuguesa e a transição energética.
A produção de energia renovável foi apresentada como vantagem para atrair investimentos, especialmente em setores como data centers. A perspectiva defendida por Lula é combinar energia, tecnologia, indústria e formação profissional para criar novas cadeias produtivas no país.
Minas Gerais: dívida, estradas e reparação de Mariana
A situação de Minas Gerais ocupou parcela expressiva da entrevista.
Sobre a dívida estadual, Lula defendeu o acordo firmado com o governo federal e destacou o prazo de 30 anos para pagamento e a redução dos juros. Segundo os números apresentados por ele, a economia decorrente da redução dos juros deverá permitir investimentos em educação, transporte e segurança.
O presidente também cobrou do governo estadual o cumprimento das condições estabelecidas no acordo.
Na infraestrutura, respondeu às cobranças sobre a BR-381 e afirmou que os contratos deverão ser cumpridos, reconhecendo que dificuldades relacionadas a projetos e desapropriações atrasaram etapas das obras. Lula apresentou ainda a recuperação das rodovias federais em Minas como um dos indicadores da atuação de seu governo no Estado.
Sobre o acordo de Mariana, destacou o valor global de R$ 170 bilhões e a participação federal de R$ 49 bilhões, administrada pelo BNDES. Segundo Lula, os pagamentos começaram priorizando grupos de menor renda e incluem ações de recuperação ambiental do Rio Doce.