Em visita ao Rio Grande do Sul nesta sexta-feira (12), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de uma cerimônia de liberação de novos lotes de obras de proteção contra cheias na Região Metropolitana de Porto Alegre, mas transformou o evento em um momento de cobrança severa pela celeridade na execução dos recursos federais.
O encontro, que contou com a presença do governador Eduardo Leite, prefeitos de cidades atingidas pelas enchentes de 2024 e ministros de Estado, marcou a autorização para licitação de sistemas de drenagem e diques essenciais, mas foi pautado pela inquietação do chefe do Executivo com os prazos burocráticos.
A angústia presidencial: dinheiro parado é vida em risco
Lula questionou a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, sobre a demora na utilização dos R$ 6,5 bilhões depositados em dezembro de 2024 no Fundo de Investimentos para Recuperação e Construção de Estruturas (Firece). “Por que só agora a gente está liberando o equivalente a R$ 1,5 bilhão? Qual é a demora?”, indagou o presidente, destacando que a população não compreende a lentidão diante da urgência climática.
Lula enfatizou que a inércia na aplicação dos recursos gera um “empate” financeiro que prejudica outras demandas. “Às vezes a gente coloca um dinheiro três anos na conta e não é usado. Então você usa ele para outras coisas… Não adianta você empatar o dinheiro numa coisa”, afirmou. O presidente deixou claro que sua preocupação não é buscar culpados individuais, mas entender os gargalos — sejam eles projetos deficientes, morosidade da Caixa Econômica Federal ou indecisão política — para evitar que tragédias como a de 2024 se repitam devido à falta de prevenção.
A preocupação é que recursos destinados à prevenção percam eficácia quando permanecem parados enquanto comunidades continuam vulneráveis. Para Lula, a administração pública precisa conciliar os mecanismos de controle com a urgência imposta pela realidade climática.
Respostas técnicas e a complexidade das obras
Em resposta à cobrança presidencial, o governador Eduardo Leite explicou que a revisão dos anteprojetos foi inevitável após as enchentes de 2024 terem superado as dimensões previstas nas obras originais. No caso de Eldorado do Sul, por exemplo, um dique planejado para 6 metros precisou ser redesenhado para 7,30 metros, exigindo novas contratações e estudos técnicos. “São obras monumentais”, comparou Leite, citando a Transposição do São Francisco como exemplo de projetos de longa duração, embora Lula tenha rebatido a comparação lembrando a expansão significativa daquela obra ao longo dos anos.
Carlos Vieira, presidente da Caixa Econômica Federal, garantiu que, uma vez recebidos os projetos completos, o trâmite interno de análise leva em média de 60 a 90 dias. A ministra Miriam Belchior reforçou que, no caso de Eldorado, o projeto já foi analisado e a assinatura do termo permite a imediata abertura de licitação, enquanto outros municípios ainda estão finalizando suas concepções.
“Nós somos passageiros, o povo é eterno”
A fala do presidente Lula ganhou contornos filosóficos e políticos ao abordar a descontinuidade administrativa que assola o Brasil. “Quem é eterno na cidade e na vila é o povo. Nós somos passageiros”, declarou, alertando para o risco de obras iniciadas serem paralisadas por futuras gestões municipais, estaduais ou federais. Ele lembrou sua própria experiência de ter vivido enchentes e perdido bens, conectando-se emocionalmente com as vítimas gaúchas.
Lula destacou que o atendimento dado ao Rio Grande do Sul estabeleceu um novo padrão federal para calamidades em todo o país, mas insistiu na necessidade de romper com a cultura de “culpar o outro”. “Sozinho não faz o Governo Federal, sozinho não faz o prefeito e sozinho não faz o governador”, resumiu, defendendo um pacto federativo onde a responsabilidade pela vida da população prevaleça sobre interesses partidários ou vaidades políticas.
Da reconstrução à prevenção
A experiência gaúcha também levou Lula a defender uma mudança no padrão de resposta do poder público às calamidades. Segundo o presidente, o atendimento realizado no estado criou um “padrão gaúcho” que poderá orientar a atuação federal diante de futuras emergências.
A diferença está em não esperar a tragédia acontecer para começar a agir.
As enchentes de 2024 mostraram o custo humano e econômico de sistemas de proteção insuficientes. Por isso, a reconstrução não pode se limitar à reposição de pontes, estradas, casas, escolas e equipamentos destruídos. Ela precisa incorporar uma infraestrutura capaz de reduzir os efeitos de eventos climáticos extremos.
Nesse ponto, a cobrança de Lula e as justificativas dos governos locais convergem em uma questão central: o dinheiro precisa chegar à obra no tempo necessário para proteger a população.
Os gestores estaduais e municipais lembram que projetos de grande porte exigem revisão técnica, análise, licitação e coordenação entre diferentes órgãos. Lula, por sua vez, sustenta que essas etapas não podem se transformar em uma demora indefinida, sobretudo quando os recursos já estão assegurados.
Avanços concretos e desafios futuros
Apesar das críticas à burocracia, o governo federal anunciou avanços significativos. Além da liberação para licitação das obras em Porto Alegre (Polder 10) e Eldorado do Sul (sistema de proteção de R$ 1 bilhão), foram detalhados investimentos massivos já realizados ou em andamento: quase R$ 90 bilhões em recursos totais para o estado desde maio de 2024, reconstrução de 730 pontes, 570 estradas e a entrega de milhares de unidades habitacionais. Prefeitos como Sebastião Melo (Porto Alegre), Jairo Jorge (Canoas) e Juliana Carvalho (Eldorado do Sul) agradeceram o apoio, mas também endossaram a necessidade de agilidade, relatando o sofrimento prolongado de suas comunidades.
Ao encerrar o evento, Lula reafirmou o compromisso de acompanhar pessoalmente a aceleração dos processos restantes, garantindo que os recursos ainda não liberados sejam aplicados antes do fim de seu mandato. “Vamos resolver o problema do Rio Grande do Sul”, prometeu, deixando claro que a reconstrução do estado é uma prioridade inegociável de seu governo, independentemente dos ruídos políticos ou das limitações da máquina pública.
A maior ajuda já recebida
A cobrança de Lula ganha peso diante da dimensão dos recursos mobilizados pela União. Segundo dados apresentados pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, foram R$ 89,6 bilhões do Orçamento federal e de financiamentos destinados ao Rio Grande do Sul, com 94% desse montante já executado.
A esse esforço somam-se quase R$ 28 bilhões decorrentes da suspensão dos juros da dívida estadual e outros R$ 15,1 bilhões depositados no Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs).
Na emergência, o Auxílio Reconstrução de R$ 5,1 mil chegou a 430 mil famílias, com R$ 2,2 bilhões destinados a recuperar condições básicas de vida. Na habitação, 13,9 mil famílias foram atendidas pela compra assistida, com R$ 2,7 bilhões, enquanto quase 10 mil novas unidades estão em construção, com investimento de R$ 1,7 bilhão.
O apoio também alcançou empresas e produtores rurais. Foram R$ 22 bilhões em financiamentos para 55 mil empresas gaúchas e R$ 12 bilhões em crédito e rebates para 151 mil produtores. Saúde, educação, assistência social, Defesa Civil e infraestrutura receberam recursos para enfrentar os efeitos da maior tragédia climática da história recente do estado.
O desafio agora é transformar recursos em proteção
O Rio Grande do Sul recebeu um volume extraordinário de recursos federais após a tragédia. A União financiou auxílio direto às famílias, habitação, crédito para empresas e produtores, recuperação de serviços públicos e grandes obras de infraestrutura.
Ao mesmo tempo, a experiência mostrou que garantir o dinheiro é apenas a primeira parte da reconstrução.
É essa tensão entre recursos federais em escala inédita, complexidade administrativa e urgência climática que define a próxima fase da reconstrução gaúcha.
O recado de Lula foi direto: depois de mobilizar bilhões de reais para o estado, é preciso garantir que o investimento se transforme, o mais rapidamente possível, em diques, bombas, drenagem, moradias, hospitais, escolas e infraestrutura capaz de proteger os gaúchos.