Lula leva soberania e multilateralismo à ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa nesta terça-feira (22), em Nova York, na abertura do Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Por tradição mantida desde 1955, o Brasil é o primeiro país a falar na tribuna, seguido pelo presidente do país anfitrião, Estados Unidos, Donald Trump.

A fala do chefe dew Estado brasileiro ocorre duas semanas antes do primeiro turno das eleições presidenciais e no momento em que o governo denuncia tentativas de ingerência externa nos assuntos internos do país.

Parte do recado que Lula discursará em Nova York foi antecipado no domingo (20), em publicação no seu perfil oficial. “A caminho de Nova York. Lá, mais uma vez, terei a honra e a responsabilidade de representar o Brasil e o povo brasileiro na Assembleia Geral da ONU. Somos um país soberano, de economia forte e que cuida da sua população e das suas riquezas. Que respeita todo mundo e exige respeito. E que defende a paz e o diálogo entre as nações. É este o Brasil que estará presente, terça-feira, na abertura na ONU”, escreveu o presidente.

​A declaração resume a linha que o Itamaraty e atribue ao discurso: soberania, não interferência, defesa da paz e fortalecimento do multilateralismo. Auxiliares apontam que o presidente deve enviar recados diretos de Estado em tom polido, mas firme, sem citar pontualmente nomes de líderes estrangeiros ou disputas jurídicas internas.

Manifesto internacional antecipa debate

​A articulação diplomática prévia ganhou corpo com a publicação de um artigo conjunto no jornal britânico Financial Times, assinado por Lula ao lado do presidente do Conselho Europeu, António Costa, do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e do presidente do Quênia, William Ruto. Intitulado “O multilateralismo não é idealismo, é uma necessidade”, o texto formaliza a iniciativa Parceiros pelo Multilateralismo (P4M).

​Os quatro líderes descrevem um paradoxo em que o mundo nunca esteve tão interligado, registrando um comércio global de US$ 35 trilhões no último ano e quase 6 bilhões de pessoas conectadas à internet, ao mesmo tempo em que se encontra profundamente fragmentado. O documento lembra que, em 2025, foram contabilizados 65 conflitos armados entre Estados em 35 países, atingindo o maior patamar desde 1946, enquanto as despesas militares no planeta alcançaram o recorde de US$ 2,9 trilhões.

​“O direito internacional está sob pressão. A linguagem das esferas de influência e da política de poder está de volta. Os laços econômicos são cada vez mais utilizados como instrumentos de pressão e coerção, enquanto a desigualdade aumenta, tanto dentro como entre países”, alertam os signatários.

​A proposta da P4M não prevê a criação de um bloco exclusivo ou de novas estruturas burocráticas, mas estabelece um quadro flexível e aberto a governos de diferentes regiões e trajetórias políticas. A premissa central exige o respeito aos princípios da Carta da ONU, incluindo a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias e o direito internacional humanitário.

​Entre as prioridades defendidas pelo grupo estão a paz e segurança internacional, governança econômica, inteligência artificial, combate às mudanças climáticas e a urgente reforma do Conselho de Segurança da ONU, cujo formato com cinco membros permanentes e poder de veto permanece inalterado desde 1945.

​“A P4M buscará renovar e fortalecer o sistema multilateral, e não substituí-lo; construir pontes e reunir países que possam discordar sobre muitas questões, mas compartilhem um compromisso com os princípios básicos consagrados na Carta da ONU”, enfatiza o manifesto.

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A passagem do presidente por Nova York inclui encontros bilaterais com o prefeito Zohran Mamdani e com o secretário-geral da ONU, António Guterres, acompanhado pelo chanceler Mauro Vieira em agendas do Brics, G77 e da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Diante de pressões comerciais e tentativas de ingerência externa às vésperas do pleito nacional, o pronunciamento brasileiro ratificará o documento assinado com lideranças internacionais em defesa do direito internacional e da soberania, rejeitando a substituição do multilateralismo por hegemonias ou esferas de coerção política.

A intervenção de Lula na tribuna nesta terça-feira (22) será a sua 11ª abertura da Assembleia Geral da ONU como chefe de Estado.

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