Lula, Flávio e a disputa pelo senso comum, por Edgar dos Anjos

Lula, Flávio e a disputa pelo senso comum

por Edgar Silva dos Anjos

O primeiro turno revelou um conflito direto: de um lado, Lula apresentou um projeto político; de outro, Flávio Bolsonaro ofereceu uma senha de circulação popular. Lula falou de democracia, soberania, saúde, educação, custo de vida, reconstrução e futuro. Flávio condensou problemas reais em uma explicação simples: o país está caro, inseguro e ameaçado porque Lula, o PT e o sistema estão contra você.

Flávio saiu na frente com 56.104.503 votos, 47,03% dos válidos, contra 53.879.538 votos de Lula, 45,16%. A diferença foi de 2.224.965 votos. Em 2022, no primeiro turno contra Jair Bolsonaro, Lula havia feito 57.259.504 votos, 48,43%. Ou seja: perdeu cerca de 3,38 milhões de votos e chegou ao segundo turno em condição mais difícil do que a campanha parecia esperar.

A geografia também ajuda a entender o problema. Lula manteve vantagem forte no Nordeste, mas Flávio dominou Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Minas Gerais, estado decisivo, virou para Flávio. Nos recortes sociais, Lula ainda preservou força entre os mais pobres e beneficiários do Bolsa Família, mas Flávio avançou entre faixas intermediárias de renda e abriu vantagem pesada entre evangélicos. Isso não aponta apenas uma disputa eleitoral apertada. Aponta uma disputa de explicação da vida cotidiana.

Lula tinha governo, história, entrega concreta, políticas públicas e uma biografia que ainda fala fundo com parte do povo brasileiro. Flávio tinha menos densidade, menos história própria e muitas contradições. Mesmo assim, conseguiu transformar frustrações dispersas em uma narrativa fácil de repetir.

Essa é a questão central: projeto político precisa virar linguagem popular. E, na campanha, senha circula mais rápido que projeto.

A campanha de Lula falou de democracia, soberania, saúde, educação, custo de vida, bets, Bolsa Família, reconstrução e futuro. A de Flávio falou de Deus, família, liberdade, imposto, crime, supermercado, dívida e medo. Lula apresentava um projeto. Flávio entregava uma senha.

Segundo levantamento do Poder360, Lula criticou Flávio, a família Bolsonaro ou o governo anterior nas 15 propagandas do horário eleitoral. Flávio atacou Lula ou o governo em 9 das 14 peças. Mas a diferença não está apenas na quantidade. Em 8 das 9 peças críticas de Flávio, o próprio candidato citou Lula nominalmente. Já em 8 das 15 peças críticas de Lula, o presidente não citou Flávio diretamente.

Esse detalhe parece pequeno, mas não é. Campanha eleitoral não é só informar. É ensinar o eleitor a falar.

Flávio deu frases curtas para seu eleitor defender o voto: “Deus, pátria, família e liberdade”; “tirar o Brasil do vermelho”; “tesouraço nos impostos”; “sem ordem não há progresso”; “o dinheiro do seu trabalho volta para o seu bolso, não para a máquina”. São frases pobres como programa de governo, mas fortes como material de circulação. Cabem no culto, no grupo de família, na conversa da padaria, no vídeo curto, no comentário de internet.

Lula, muitas vezes, exigia uma elaboração maior. Para defendê-lo, o eleitor precisava explicar reconstrução, democracia, ameaça autoritária, soberania, política social, juros, Congresso, Banco Central, bets, orçamento, extrema direita e desinformação. Tudo isso tem fundamento. Mas verdade sem síntese perde força na disputa popular.

O gasto de campanha reforça essa diferença de ambiente. Lula e Flávio tiveram volumes gerais próximos de contratação, mas Flávio investiu muito mais em comunicação e serviços digitais. Lula gastou mais com material impresso e comunicação tradicional. Isso não explica o resultado sozinho, mas combina com a forma da disputa. Flávio apostou mais no espaço onde frase curta, inimigo claro e repetição emocional circulam com mais velocidade.

No digital, a indignação vira entretenimento. O algoritmo premia conflito, atrito, deboche, xingamento, pertencimento e repetição. A pessoa assiste ao vídeo, sente raiva, comenta, compartilha, briga no grupo da família e reforça a própria identidade. Em muitos casos, a tecla de confirma da urna passa a funcionar como extensão do like. O voto confirma a posição que a pessoa já performou na rede.

A direita entendeu isso antes. Transformou política em sensação de desabafo. O sujeito não recebe só uma proposta. Recebe uma autorização para xingar, culpar, rir do inimigo e se sentir parte de um grupo. A esquerda erra quando responde devolvendo desprezo ao eleitor que cogita votar em Flávio. Chamar esse eleitor de burro, fascista, ingrato ou fanático pode aliviar a bolha, mas confirma a narrativa adversária: eles desprezam você.

O conflito não pode ser esquerda contra povo cansado. Precisa ser povo que sofre contra quem lucra com o sofrimento do povo.

Gramsci ajuda a entender o problema. A política também se decide na disputa pelo senso comum, na forma como uma parte da sociedade passa a explicar a própria vida. Paulo Freire ajuda pelo outro lado: a palavra política precisa nascer da experiência concreta. Antes de falar em grandes conceitos, é preciso passar pela geladeira, pelo ônibus, pelo cartão, pelo culto, pelo posto de saúde, pela fila, pelo medo e pelo salário que não fecha o mês.

Nesse ponto, Flávio foi mais eficiente. Ligou imposto, crime, STF, PT, religião, inflação e liberdade em uma cadeia simples. Lula tinha elementos melhores, mas dispersos. Tinha políticas públicas, defesa da vida, denúncia contra as bets, crítica ao Banco Master, memória do desastre bolsonarista e reconstrução do Estado. Faltou juntar tudo numa frase-mãe.

A campanha avançou quando entrou no custo de vida e nas bets. Esse era um caminho forte. As bets permitiam falar de dívida, vício, juventude, mulher periférica, salário que some e indústria que lucra com a destruição da casa. Era um tema moral e material ao mesmo tempo. Podia ser tratado como símbolo da turma do atraso.

A frase poderia ser simples: o povo trabalha, a família segura as pontas, e tem gente ganhando dinheiro com a destruição da vida do povo.

Lula não deveria começar dizendo: “eu sei que está ruim”. Essa frase absorve culpa e coloca o governo na posição de quem pede desculpa antes de acusar. O caminho mais forte seria outro: o povo fez sua parte. Trabalhou, votou, acreditou, segurou o país. Mas há uma turma que pesa nas suas costas: quem lucra com juros altos, comida cara, aposta online, desinformação, violência, precarização e medo.

A culpa não é do povo nem pode cair genericamente no “momento difícil”. Tem que haver sujeito político, rosto e conflito.

Flávio se apresentou como defensor da família. Lula precisava responder que a família que ele diz defender é a mesma que sua política abandona: a mãe endividada, o jovem explorado na escala 6×1, o trabalhador que paga juros no cartão, a avó que depende do SUS, o menino perdido nas bets, a mulher que pega ônibus com medo e o pai que chega em casa sem saber se o salário fecha o mês.

Essa resposta é narrativa. E narrativa não é enfeite. É o modo como uma proposta entra na cabeça e na vida das pessoas.

O caso dos evangélicos mostra isso com força. Lula não esteve ausente do campo religioso. Houve comitê “Evangélicos com Lula”, reunião com pastores, defesa da liberdade religiosa, crítica ao uso eleitoral das igrejas e convocação de um “relógio de oração” na reta final. Mas, pelo que apareceu publicamente, isso pareceu mais gesto simbólico, institucional e reativo do que campanha organizada de ponta, com material simples, lideranças locais, panfletagem constante, grupos de WhatsApp, linguagem própria e argumentos fáceis de repetir.

A Folha registrou uma fala significativa do bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra. Segundo ele, Lula não perseguiu os evangélicos, mas também não criou pontes. Flávio, por outro lado, procurou lideranças religiosas, discutiu ato unificado e construiu rede de informação para divulgar suas propostas.

Essa diferença pesa. Não hostilizar é pouco. É preciso disputar.

Entre evangélicos, segundo Datafolha, Flávio tinha 52% e Lula 26% no primeiro turno. No segundo turno simulado, Flávio chegava a 62%, contra 32% de Lula. O UOL também mostrou que municípios com concentração evangélica acima da média deram 52% dos votos válidos a Flávio. Isso não pode ser lido apenas como conservadorismo religioso automático. É também resultado de trabalho político e comunicacional.

A direita deu ao eleitor evangélico um arcabouço simples: eles ameaçam sua fé, sua família, sua liberdade e sua igreja; Flávio defende Deus, a família e a ordem.

Lula respondia com respeito à fé, liberdade religiosa e políticas públicas. É correto. Mas, para circular na ponta, faltava uma frase mais simples: cristão vota pela vida. E vida é comida na mesa, remédio, trabalho digno, escola, proteção contra aposta, paz no bairro e cuidado com quem mais precisa.

A disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida revelou essa tensão. O tema entrou na campanha, foi incorporado por Lula nas agendas finais e produziu efeito sobretudo no eleitorado católico. Mas esse repertório não necessariamente abria caminho entre evangélicos. Para parte desse público, símbolos católicos não funcionam como ponte direta e podem reforçar uma distância religiosa já explorada pela direita.

A campanha precisava falar com o evangélico sem tentar fantasiar Lula de pastor e sem reduzir religião a peça eleitoral. O caminho era disputar a moralidade da política: quem protege a vida, a família real, a criança da fome, o jovem da aposta, a mãe da dívida, o trabalhador da exploração, o idoso da fila e a comunidade do crime?

Essa seria uma disputa forte porque não nega a fé do outro. Parte dela.

O mesmo vale para Minas, em outra escala. Cleitinho cresceu porque oferece uma explicação simples: governar é simples, político complica, eu falo a língua do povo. Patrus tem história, legado, densidade e experiência. Mas legado, quando vira currículo, perde para bordão. Só vence quando se transforma em resposta direta à dor presente. Lula enfrentou problema parecido. Tinha uma história imensa, mas ela precisava virar instrumento para explicar o agora.

Análises publicadas no Outras Palavras já apontavam que Lula corria o risco de disputar 2026 com armas do passado. A memória sindical, a biografia, as greves, Dona Lindu, a prisão e a reconstrução importam. Mas a vida concreta do eleitor gritava outras palavras: dívida, supermercado, aluguel, escala 6×1, aposta, medo, remédio, ônibus, segurança, igreja, cartão e juros.

Quando a esquerda não organiza essas palavras, a direita organiza. E organiza do jeito dela.

Flávio transformou a frustração em antipetismo, a carestia em culpa moral de Lula, a insegurança em defesa punitiva, a fé em identidade política, a liberdade em ressentimento contra o Estado e a família em senha de pertencimento. Seu programa é frágil, mas sua comunicação é funcional.

Lula precisava fazer o contrário: transformar o Estado em proteção concreta. Mostrar que liberdade não é deixar o povo sozinho diante do banco, da aposta, do crime, do patrão e da mentira. Liberdade é ter salário, saúde, escola, segurança, tempo, comida e paz. Família não é slogan. Família é casa protegida.

O bastidor do resultado reforça essa leitura. Segundo o GGN, Lula teria ficado chocado com a vantagem de Flávio, e a própria coordenação da campanha admitiu surpresa com as urnas. Esse choque não revela apenas uma falha de expectativa eleitoral. Revela dificuldade de perceber a força da explicação adversária.

A campanha parecia acreditar que entrega de governo, memória, comparação racional e rejeição ao bolsonarismo seriam suficientes para organizar o voto. Mas Flávio cresceu em outro terreno: o da vida cotidiana. Enquanto Lula acumulava razões, Flávio oferecia culpados. Enquanto Lula falava de reconstrução, Flávio dizia ao eleitor por que o mercado estava caro, a rua insegura e a família ameaçada.

Depois do primeiro turno, a campanha passou a falar em duas cartas na manga: a abstenção e a votação da escala 6×1 no Senado. São caminhos importantes, mas nenhum funciona sozinho.

A abstenção não é apenas um número. Foram mais de 33 milhões de eleitores ausentes. Isso expressa cansaço, descrença, desalento e distância entre a política e a vida imediata. Buscar esse eleitor exige mais do que convocação genérica. É preciso dar motivo, linguagem e urgência. Quem não foi votar precisa entender que sua ausência também decide quem vai mexer no seu domingo, no salário, no preço da comida, na fila do SUS, na escola do filho, na segurança do bairro e na dívida da família.

A escala 6×1 talvez seja a melhor chance de transformar uma pauta concreta em mensagem popular. Mas só se for tratada como vida, não como item de programa. Se aparecer apenas como votação no Senado, proposta trabalhista ou disputa parlamentar, perde força. A pergunta precisa ser outra: quem tem direito ao tempo? Quem pode descansar e ver os filhos acordados? Quem lucra quando o trabalhador passa a vida inteira cansado?

Esse tema fala com juventude, mulheres, trabalhadores do comércio, entregadores, atendentes, evangélicos de periferia, mães solo e gente que trabalha sábado, domingo e feriado. Fala também com a família. A direita diz defendê-la, mas sustenta um modelo em que o trabalhador quase não vê a própria casa.

Lula poderia dizer de forma direta: a turma do atraso quer o seu voto, mas não quer devolver o seu domingo.

A escala 6×1 precisa virar frase de campanha, conversa de ônibus, argumento de culto, vídeo curto, panfleto de porta de loja e fala de trabalhador. Não pode nascer pesada, parlamentar e explicativa. Tem que nascer simples: trabalhar seis dias por semana e não ter tempo para viver não é liberdade. É exploração.

No segundo turno, portanto, a tarefa não é apenas apresentar novas pautas, mas mudar o modo de apresentá-las. Abstenção e 6×1 só terão força se forem incorporadas à disputa pelo senso comum. O povo precisa sentir que existe uma escolha concreta: de um lado, quem quer uma vida menos pesada; do outro, quem usa família, fé e liberdade para manter o trabalhador cansado, endividado e sem tempo.

Lula tinha que dizer, com todas as letras, que Flávio não representa a família brasileira. Representa quem usa a família como escudo enquanto protege interesses que pesam sobre ela.

A turma do atraso não é uma abstração. É quem lucra com juros abusivos e bets, espalha desinformação, usa Deus para pedir voto e abandona o povo na fila do SUS, fala de segurança sem enfrentar as raízes da violência, invoca liberdade para deixar o povo sozinho diante do mercado e defende a família enquanto vota contra o tempo da mãe, o salário do pai e o futuro do filho.

Esse enquadramento permitiria atacar Flávio sem transformar a campanha numa lista de escândalos. Rachadinha, Banco Master, Dark Horse, Vorcaro, homenagens questionadas e relações políticas mal explicadas são temas importantes. Mas escândalo, quando não vira interpretação, vira barulho. O eleitor já está cansado de barulho. Precisa entender o que aquilo diz sobre sua vida.

O que esses episódios dizem? Que Flávio não é o candidato contra o sistema. Representa uma forma adaptada do sistema mais velho do Brasil: privilégio, proteção, relações opacas, família no poder, religião como escudo e povo como massa de manobra.

Quando se fala que o sistema tem cor, classe e endereço, não se trata de atacar pessoas comuns. Trata-se de lembrar que o poder brasileiro, historicamente, teve rosto de elite branca, herdeira, protegida por sobrenome, patrimônio, cargo e influência. Não tem a cara do trabalhador preto no ônibus lotado, da mulher parda trabalhando em pé, do nordestino que saiu cedo para ganhar a vida ou do mecânico com a mão suja de graxa.

Essa é a crítica que cola: Flávio não combate o sistema. Flávio é o sistema falando grosso, fazendo vídeo e fingindo revolta.

O primeiro turno deixou uma lição dura. Lula não perdeu força por falta de realizações nem de ataques. O problema foi amarrar tudo isso numa mensagem popular, simples e defensável. Flávio deu ao seu eleitor uma explicação pronta. Lula ofereceu muitas razões, mas nem sempre uma frase de combate.

No segundo turno, o caminho não pode ser apenas “explicar melhor o governo”. Tem que disputar a vida como ela é sentida.

O povo fez sua parte. Trabalhou, votou, acreditou e segurou o país de pé. Agora é preciso dizer quem está pesando nas suas costas. A campanha que conseguir nomear essa experiência com simplicidade, sem culpar o povo e sem pedir desculpa por existir, terá mais força para disputar não apenas votos, mas o senso comum.

A pergunta decisiva não é se Lula tem história. Ele tem. Também não é se Flávio tem contradições. Tem muitas.

A pergunta é quem consegue explicar melhor o Brasil que o povo sente quando abre a geladeira, olha o preço no mercado, entra no ônibus, senta no culto, recebe a fatura do cartão e tenta dormir com medo do mês seguinte.

Foi nesse terreno que Flávio cresceu.

É nesse terreno que Lula precisa vencer.

A frase-guia, no fim, é simples: sua raiva faz sentido. Só que Flávio quer que você odeie quem sofre junto com você, para você não olhar para quem lucra com isso.

Edgar Silva dos Anjos é professor de filosofia, ensaísta e consultor UNESCO.

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