Lula enquadra a Globo e cobra mea-culpa por cobertura da Lava Jato

Na tentativa de emparedar o presidente Lula (PT) com perguntas sobre suspeitas, investigações e escândalos, a TV Globo acabou enquadrada pelo próprio entrevistado. Foi durante a sabatina desta quinta-feira (27), conduzida por César Tralli e Renata Vasconcellos no padrão de um jornalismo de emboscada, que tentava reservar ao presidente o papel de suspeito. O contra-ataque de Lula trouxe de volta os abusos da Operação Lava Jato e o papel desempenhado pela grande mídia em sua legitimação.

Sempre que as perguntas voltavam às acusações contra seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, ou a pessoas próximas ao governo, o presidente evocava sua própria experiência. Por diversas vezes, ele pôs os jornalistas diante de uma cobrança que a imprensa reluta em enfrentar: quem responderá pela cobertura que ajudou a transformar em heróis nacionais Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, as figuras-chave da Lava Jato? Como juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Moro era responsável pelos processos da operação em primeira instância. Já Dallagnol coordenava a força-tarefa do Ministério Público Federal.

Em 2018, no curso da operação, Lula foi preso e impedido de disputar a eleição presidencial, na qual era favorito. Mais tarde, o STF reconheceu a parcialidade de Moro no julgamento do caso do triplex e anulou as condenações de Lula, em decisões que desmontaram juridicamente a narrativa construída pela Lava Jato. Também vieram à tona, a partir de 2019, conversas divulgadas pelo The Intercept Brasil que revelaram a promiscuidade da relação entre Moro e os procuradores da força-tarefa de Curitiba, especialmente Dallagnol. Os diálogos demoliram a imagem de uma operação imparcial e responsável.

A mesma dinâmica de acusações infundadas que vitimou o presidente agora se repete contra seu filho. Por isso, na Globo, o alvo de Lula era também a imprensa que, segundo ele, ajudou a construir e a disseminar a narrativa da Lava Jato. “Tralli, você é jornalista e você conhece isso melhor do que ninguém. Eu fui vítima disso na Lava Jato, da maior mentira montada neste país para evitar que eu fosse presidente da República”, afirmou.

Lula lembrou que prestou mais de 20 depoimentos e passou 580 dias preso. Ele poderia ter adotado outros caminhos, mas decidiu enfrentar o processo porque estava “convencido” de que a verdade apareceria. “Eu queria provar que a imprensa estava divulgando coisa mentirosa, que o Moro tinha mentido para a imprensa, que o Dallagnol tinha mentido para a imprensa.”

A referência vinha no contexto das investigações contra seu filho. Lula afirmou que Fábio deverá responder por qualquer eventual ilícito que tenha cometido, sem proteção decorrente do parentesco. Mas recusou a ideia de que acusações, vazamentos e ilações possam ser automaticamente convertidos em culpa.

Em outro momento, o presidente voltou ao tema com mais contundência: “Eu sei o que é isso porque eu já passei por isso. Eu fui vítima da maior mentira montada nesse país, que tinha como objetivo não me deixar ser candidato em 2018”. Lula disse que poderia ter deixado o Brasil, mas decidiu se entregar e cumprir a ordem de prisão para provar “que o Moro é mentiroso”, “o Dallagnol é mentiroso”.

“Quero provar que a imprensa, um dia, vai pedir desculpa, porque a imprensa brasileira comprou uma mentira, vendeu a mentira e nunca reconheceu que comprou a mentira”, disparou Lula. Foi Renata Vasconcellos que tentou conter o avanço da provocação e defender a atuação da emissora, afirmando que “o jornalismo da Globo cumpriu a sua obrigação de noticiar os fatos durante essa cobertura”.

O presidente não deixou barato. “É difícil pedir desculpa”, respondeu Lula. “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, (um monstro) chamado Dallagnol. Eu não esqueço do PowerPoint mentiroso contra mim.” A referência remetia à célebre apresentação de Dallagnol, em 2016, quando o então procurador colocou Lula no centro de um diagrama que pretendia apresentá-lo como comandante de uma organização criminosa. A cena, reproduzida à exaustão pela mídia, foi um dos símbolos da Lava Jato.

Nesse ponto, Tralli interveio, numa evidente tentativa de encerrar o desconforto, para dizer que a Globo havia feito uma “devida retratação” sobre a questão do PowerPoint. A observação, porém, se referia não à apresentação de Dallagnol – mas ao episódio mais recente do gráfico exibido pela GloboNews sobre o Banco Master e retratado por Andréia Sadi no Estúdio i. O presidente falava da Lava Jato; Tralli respondeu sobre outro caso e mudou de assunto em seguida.

Ao vivo, Lula desmascarou a hipocrisia de uma emissora que posa de magistrada da moralidade pública, mas se recusa a fazer a devida autocrítica pelo consórcio firmado com o lavajatismo. Os erros da grande mídia no caso da Lava Jato vão muito além de um PowerPoint. Lula cobrou o mea-culpa sobre um período inteiro, que transformou procuradores e magistrados em celebridades, espetacularizou processos e ajudou a legitimar a narrativa fraudulenta da força-tarefa. As violações da Lava Jato, reveladas posteriormente, jamais receberam tratamento equivalente.

Quem cobra a imprensa quando a imprensa erra? A Lava Jato produziu manchetes, capas, lives e personagens elevados à condição de salvadores da República. Anos depois, boa parte de seus mecanismos foi desmoralizada, condenações foram anuladas e a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex foi reconhecida pelo Supremo.

Para Lula, falta ainda o reconhecimento de responsabilidade daqueles que ajudaram a vender ao País uma versão que não resistiu ao tempo. Diante das câmeras da própria Globo, o presidente partiu para o ataque e transformou o interrogatório num tribunal reverso contra os abusos do lavajatismo: o réu ali era a própria imprensa. Os verdadeiros protagonistas do espetáculo midiático ainda têm contas a prestar.

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