Em uma mudança histórica, o Japão aprovou na terça-feira (21) a mudança definitiva das regras que limitavam, por décadas, a exportação de armas letais. A decisão autoriza a venda de caças, mísseis, navios de guerra e outros equipamentos militares a aliados e parceiros. A medida marca um afastamento do modelo pacifista adotado após a Segunda Guerra Mundial e reaviva históricas desconfianças da China, que vê no gesto um passo em direção a uma corrida armamentista desestabilizadora na região.
Para o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, o novo regime busca fortalecer laços de defesa e a resiliência da indústria bélica japonesa. Em nota, Takaichi afirmou que nenhum país protege sozinho sua paz e segurança, sendo necessário fortalecer as capacidades dos países aliados, numa clara referência de que pretende armar a região. O secretário-chefe do gabinete, Minoru Kihara, não se furtou em citar que a decisão considera a China e a Coreia do Norte como ameaças.
Fim do veto de 50 anos
Desde o fim do conflito mundial, o Japão manteve restrições rígidas à exportação de armas letais, alinhadas à leitura pacifista da Constituição nipônica. A mudança aprovada nesta terça-feira (21) dissolve esse veto de meio século e abre caminho para Tóquio atuar como fornecedor de equipamentos de combate para Estados Unidos, Austrália, Índia e outros parceiros. A medida acompanha um plano de expansão orçamentária para elevar os gastos militares a quase 2% do PIB, ampliando a capacidade de contra-ataque com mísseis de longo alcance, drones e sistemas de vigilância.
Para Pequim, a mudança sinaliza que o Japão volta a ser um ator militar ativo, capaz de projetar força e coordenar operações com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e aliados regionais.
China denuncia militarismo
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, manifestou por nota séria preocupação com a revisão das regras e alertou para a crescente militarização japonesa e o alinhamento com blocos ocidentais.
O governo chinês denunciou o militarismo renascente e o neofascismo, vinculando a mudança ao passado imperialista de Tóquio. A China afirma que acompanhará o caso com apreensão e resistirá a qualquer tentativa de retorno do vizinho à lógica do poder bélico. O editorial do jornal Global Times reforça o tom, descrevendo o Japão como um dos países que mais aceleram seu rearmamento e advertindo que a intensificação de acordos bélicos alimenta uma grave insegurança na Ásia-Pacífico.
Disputas territoriais e Taiwan
No centro do embate está a disputa pelas ilhas Senkaku, administradas pelo Japão, mas reivindicadas pela China como Diaoyu Dao. O arquipélago no Mar da China Oriental é ponto de alta tensão, com patrulhas navais frequentes de ambos os lados. Pequim conecta a nova política de armas de Tóquio a esse conflito, argumentando que a ampliação da capacidade de mísseis serve para consolidar o controle japonês sobre áreas marítimas sensíveis.
Ao mesmo tempo, o Japão assumiu posição explícita sobre Taiwan, declarando que a estabilidade no Estreito é essencial para a própria segurança. Para a China, isso equivale a ingerência em assuntos internos e sinaliza que Tóquio poderia participar de um eventual cenário de conflito na ilha. A possibilidade de exportação de armas e cooperação em manobras militares próximas ao território chinês amplia a percepção de cerco estratégico.
Influência regional e contenção
A escalada projetada por Tóquio atinge uma ampla rede de países vista por Pequim como parte de uma política de contenção. Entre os principais atores está a Austrália, com quem o Japão assinou acordos de cooperação tecnológica para mísseis e drones. A China enxerga um corredor de capacidades que vai do Japão à Oceania, dificultando operações chinesas. O fortalecimento dos laços com a Otan também é lido como estratégia de longo prazo para impedir a influência regional de Pequim.
O resultado para os chineses é um desequilíbrio regional onde a cooperação entre Japão, Estados Unidos, Austrália e Índia isola a China, enquanto Tóquio reforça o potencial de ataque a alvos estratégicos. Para analistas internacionais, a decisão consolida o Japão como um polo de poder militar integrado à arquitetura de segurança de Washington, como Israel no Oriente Médio, o que eleva o risco de incidentes navais e escaladas no Sudeste Asiático.