Implosão do Supremo atrapalha o mercado dos vazamentos seletivos. Por Moisés Mendes

Supremo Tribunal Federal STF
Foto: Antonio Augusto/STF

O vazamento seletivo era o osso com pelanca que uma ala da Polícia Federal jogava para algumas redações, principalmente a do Globo, para fragilizar Lula. No dia 1º de setembro, uma terça-feira, André Mendonça iniciou a implosão do Supremo com a retirada do sigilo do relatório da Polícia Federal contra Alexandre de Moraes, e os vazamentos cessaram.

A decisão de Mendonça completou uma semana nesta terça. É muito tempo. De lá até aqui, não há uma linha nos jornalões que possa ser chamada de apuração própria e que tenha resultado em conteúdo com novas informações sobre os desdobramentos da guerra entre os ministros.

É tudo notícia que todo mundo dá. São as commodities sem diferenciação de produto entre um veículo e outro. Todos vendem canjica, lentilha e guisado de segunda. Não há nada que possa ser chamado de arremedo de jornalismo investigativo.

Os jornais ditos alternativos se esforçaram, mas a grande imprensa não fez nada. E, sem surpresa, os vazamentos pararam. Malu Gaspar parou de receptar dos vazadores da Polícia Federal que cercavam o filho de Lula e Moraes.

Os vazadores se recolheram, enquanto Gilmar Mendes pede que delegados da PF se retirem dos gabinetes dos ministros. E André Mendonça determina o afastamento do diretor da PF, Andrei Rodrigues. E Flávio Dino ordena que Rodrigues não saia.

O Globo e os vazadores se assustaram. A crise no jornalismo dos jornalões está exposta. Quando param os vazamentos bem escolhidos, repórteres amordaçados pelas chefias e colunistas de notinhas, principalmente esses últimos, não têm o que publicar.

Os jornalões viraram um imenso pool de notícias iguais e de colunas de intrigas, agora envolvendo principalmente Edson Fachin. O osso com pelanca sumiu. E a reportagem em extinção se consagra como a ararinha-azul do jornalismo das corporações.

André Mendonça e Alexandre de Moraes
Os ministros do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça e Alexandre de Moraes. Foto: Antonio Augusto/STF

Do início da implosão do STF até hoje, o que tivemos de “reportagem investigativa” foram duas pautas da Folha, que foi à Espanha olhar um apartamento semelhante ao que Fábio Luís estaria ocupando e depois saiu atrás de uma mulher que havia aparecido grávida na propaganda de Lula na campanha de 2002 e que hoje não votaria no presidente.

A Folha achou um apartamento igual ou semelhante ao de Fábio Luís e se esforçou para encontrar em Maringá, no Paraná, a terra da Lava-Jato, uma ex-grávida que não votaria em Lula. É o que temos de jornalismo de investigação.

Para disfarçar, os sites dos jornalões publicaram nos cantinhos a notícia sobre Mineiro, o delator que confirmou ter feito sete pagamentos para o fundo do advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, que seriam para o filme sobre o pai dele.

Mas uma notícia como essa, quase escondida, não significa mais nada. Porque nunca será manchete. Porque os desvios de dinheiro para o filme sobre Bolsonaro não impactam mais. E porque o jornalismo das corporações não quer saber dessa história.

Os jornalões nunca investigaram os rastros da dinheirama de Vorcaro para a família, mas sabem onde encontrar uma mulher grávida que apareceu na campanha de Lula e hoje estaria do outro lado.

As corporações negociaram com a extrema direita o que restava de escrúpulos, em meio ao cansaço para criar uma alternativa ao candidato do bolsonarismo. O que importa é vencer Lula a qualquer custo, tentando informar até que “ex-mulheres grávidas” agora também são anti-Lula.

Se a propaganda de qualquer um dos candidatos da direita na TV aparecer com gente jogando dinheiro do Vorcaro para o ar, não acontecerá nada. A Folha fará, com powerpoint, uma reportagem sobre a sobrevida do dinheiro vivo.

Se um dos candidatos da Globo anunciar que usará as doações do banqueiro para abater a dívida pública, o mercado dirá que faz sentido. E o Estadão e seus especialistas irão aplaudir.

As corporações de mídia estão brincando com o fogo do fascismo. Nada mais que envolva dinheiro abala o bolsonarismo blindado como se fosse uma imensa Faria Lima.

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