
O jornal britânico The Guardian defendeu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em editorial sobre a nossa eleição presidencial. O texto afirma que a escolha dos brasileiros terá consequências que ultrapassam as fronteiras do país, principalmente para a democracia e para a preservação da Amazônia.
Segundo o texto, a eleição de domingo dificilmente poderia apresentar uma escolha mais clara e, ao mesmo tempo, uma disputa tão apertada. O jornal destaca que Lula aparece praticamente empatado nas pesquisas com Flávio, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena de 27 anos de prisão por participação na trama golpista após a derrota eleitoral de 2022.
O Brasil é a maior democracia da América Latina e teve uma ditadura militar em sua história recente. O jornal cita a promessa de Flávio de trabalhar pela libertação do pai e dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Embora o senador tenha tentado apresentar uma imagem menos agressiva e temperamental que a de Jair Bolsonaro durante a campanha, o Guardian afirma que ele “não é menos extremista”.
O Guardian destaca a extensão dos programas sociais do governo, mas aponta a desaceleração econômica e a violência como fatores que pesam na disputa. Outro ponto central é o escândalo envolvendo o Banco Master. O caso se transformou em uma crise que alcançou a política e o Judiciário brasileiros. Flávio Bolsonaro pediu ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro quase US$ 27 milhões para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.
As revelações alimentaram a percepção de corrupção generalizada na política e deram combustível à alegação da extrema-direita, classificada pelo Guardian como infundada, de que o ex-presidente teria sido vítima de uma armação judicial.
Apesar de Flávio ter afirmado que respeitará o resultado das urnas, a família Bolsonaro passou anos atacando a confiança no sistema eletrônico de votação brasileiro, reconhecido internacionalmente. Uma eventual vitória apertada de Lula no primeiro turno provavelmente seria contestada pelo bolsonarismo.

Uma nova composição da Corte também teria importância em futuras disputas eleitorais. O Guardian menciona a promessa de Flávio de implantar uma política mais agressiva de combate ao crime e alerta para experiências semelhantes que resultaram em violações de direitos humanos em países como El Salvador.
Na política externa, o jornal relaciona uma eventual vitória de Flávio ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao secretário de Estado, Marco Rubio. A chegada do senador brasileiro ao Palácio do Planalto fortaleceria a chamada “Doutrina Donroe”, expressão usada para definir a política de intervenção agressiva dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
O Guardian também critica a interferência americana na eleição brasileira. Algumas iniciativas de Washington tiveram efeito contrário ao pretendido, como as tarifas elevadas impostas ao Brasil, que permitiram a Lula assumir durante a campanha o papel de presidente que defende a soberania nacional diante da pressão estrangeira.
Para o jornal, o segundo mandato de Trump nos Estados Unidos oferece uma indicação do que poderia ocorrer no Brasil sob um novo governo Bolsonaro. O editorial lembra que, durante a Presidência de Jair Bolsonaro, a Amazônia registrou níveis históricos de desmatamento, além do crescimento da exploração ilegal de recursos naturais e de invasões de terras indígenas.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro teria efeitos negativos para mulheres, pobres e minorias e representaria risco à democracia brasileira. A democracia seria provavelmente a primeira vítima interna de uma nova Presidência Bolsonaro, mas o clima também sofreria consequências. “Pela importância da Amazônia para o equilíbrio ambiental do planeta, a decisão tomada pelos eleitores brasileiros terá impacto sobre todos”, diz a publicação.