Gramsci e a recusa de transformar prognóstico em destino

Antonio Gramsci
O filósofo marxista Antonio Gramsci. Foto: Fototeca Storica Nazionale/Getty Images

Por Washington Araújo

Antonio Gramsci conheceu o pior que a política pode fazer a um homem e recusou-se a oferecer ao pior a última palavra. Preso pelo fascismo de Mussolini, doente, vigiado, privado da liberdade, continuou pensando e escrevendo. Sua inteligência enxergava perfeitamente a brutalidade ao redor. Sua vontade se recusava a tratá-la como sentença definitiva.

“Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade.” A fórmula ficou ligada a Gramsci, embora ele próprio a atribuísse a Romain Rolland. Poucas frases atravessaram o século XX com tamanha capacidade de separar lucidez de resignação.

Pensar exige reconhecer forças adversárias, derrotas possíveis, limites concretos. Agir exige impedir que esse conhecimento seja transformado em argumento para desistir antes da luta.

Contra a rendição

O fascismo italiano não oferecia a Gramsci nenhuma razão objetiva para cultivar ilusões. Em 1926, o regime o colocou na prisão e tentou também encarcerar seu pensamento. Fracassou. Os Cadernos do cárcere nasceram daquele confronto entre um corpo progressivamente debilitado e uma mente que se negava a entregar as chaves.

Esse é o ponto decisivo. Pessimismo intelectual significa olhar a realidade sem maquiagem. Examinar fatos, calcular riscos, reconhecer que determinadas batalhas podem ser perdidas. Otimismo da vontade começa justamente depois disso. Ele não falsifica o diagnóstico. Recusa apenas transformar diagnóstico em destino.

Camus
O filósofo e escritor Albert Camus. Foto: Reprodução

Albert Camus chegou ao mesmo território por outra estrada. Na Europa devastada pela Segunda Guerra, participou da Resistência francesa e escreveu no clandestino Combat. Pouco antes publicara O mito de Sísifo, recuperando a antiga história do homem condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra montanha acima.

Quando Sísifo se aproxima do cume, a pedra despenca. Ele desce, coloca novamente as mãos sobre ela e recomeça. Camus percebeu nessa condenação uma imagem poderosa da existência humana. Perdemos, reconstruímos, fracassamos, recomeçamos. A lucidez consiste em saber que a pedra pode cair. A dignidade começa quando voltamos a empurrá-la.

Coragem lúcida

Décadas depois, Václav Havel viveria outra versão desse combate. Dramaturgo e ensaísta numa Tchecoslováquia sufocada pelo regime comunista, enfrentou censura, vigilância e prisão. Ajudou a criar a Carta 77 e continuou escrevendo quando uma página podia custar liberdade, trabalho e tranquilidade familiar.

Para Havel, esperança tinha pouco a ver com esperar bons resultados. Algumas coisas precisavam ser feitas porque eram certas, mesmo sem garantia de vitória. Em 1989, o dissidente perseguido durante anos pelo Estado tornou-se uma das principais figuras da Revolução de Veludo e, pouco depois, presidente. A história possui essas ironias magníficas.

Václav Havel
O ex-presidente da República Tcheca Václav Havel. Foto: Reprodução

Nelson Mandela acrescentou outra dimensão. Na África do Sul do apartheid, passou mais de 27 anos preso. Saiu em 1990 sem transformar sofrimento em salvo-conduto moral para o ódio. Quatro anos depois, chegava à Presidência de um país que durante décadas havia organizado por lei a humilhação da maioria negra.

Mandela conhecia perfeitamente a violência de seus adversários. Justamente por conhecê-la, recusou permitir que ela definisse o homem que seria depois da prisão. Sua vitória mais profunda aconteceu antes das urnas: o cárcere não conseguiu escolher seus valores, administrar seus sentimentos nem instalar permanentemente o inimigo dentro dele.

Profetas do desastre

É nesse ponto que aparecem os cavaleiros do Apocalipse cotidiano. Eles percorrem a vida procurando aquele um por cento de sombra que lhes permita apagar os outros noventa e nove por cento da paisagem. Farejam fracassos com extraordinária disposição e tratam qualquer possibilidade negativa como prova antecipada de sabedoria.

Quando alguma coisa finalmente dá errado, retiram do bolso suas duas medalhas favoritas: “eu avisei” e “eu não disse?”. Se anunciam dez desastres e nove não acontecem, esquecem imediatamente os nove. O único acerto restante será exibido durante anos como certificado de clarividência.

Existe algo profundamente medíocre nessa postura. Quem nunca constrói ponte alguma pode passar a vida examinando rachaduras nas pontes construídas pelos outros. Não assume o risco da engenharia, não carrega material, não enfrenta correnteza. Espera apenas uma falha para declarar que sempre soube que aquilo terminaria mal.

Esse tipo de pessimismo pouco tem de inteligência. É vaidade fantasiada de realismo cínico. Produz a agradável ilusão de superioridade sem cobrar esforço, compromisso ou responsabilidade. Destruir possibilidades verbalmente custa muito menos do que assumir a responsabilidade por alguma construção.

Gramsci, Camus, Havel e Mandela viveram épocas, regimes e tragédias diferentes. Os quatro se encontram, porém, numa fronteira moral: nenhum confundiu lucidez com capitulação. Viram grades, guerras, ditaduras, racismo institucionalizado e derrotas. Nenhum entregou a esses fatos o direito de decidir sozinho o futuro.

Cheguei a uma idade em que desconfio profundamente dos otimistas profissionais e ainda mais dos pessimistas satisfeitos. Uns vendem manhãs ensolaradas mesmo diante da tempestade. Os outros parecem torcer pela chuva apenas para provar que acertaram a previsão.

Prefiro quem olha as nuvens, mede o vento, reforça o telhado e continua trabalhando. A inteligência deve enxergar o abismo inteiro. A vontade existe para impedir que alguém transforme esse abismo em endereço.

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