
É abafada e escondida como tabu, na maioria das abordagens sobre os condenados pela tentativa de golpe, a existência de golpistas impunes que se tornaram invisíveis. Os visíveis são os chefes militares liderados por Bolsonaro. Os que ninguém enxerga e dos quais poucos se lembram são os líderes civis do golpe contra Lula.
Todos eles articulados desde a trama contra Dilma Rousseff, que completa agora 10 anos, com o aniversário da sessão de impeachment-golpe do Senado de 31 de agosto. A estrutura golpista civil nasce ali e se mantém até hoje. Enquanto o Brasil se distrai com os drones mágicos de Augusto Cury, o golpismo continua se rearticulando.
Dos 29 condenados pelo golpe contra Lula, 20 são militares. Os outros nove sem farda, enquadrados como civis, também eram na maioria integrantes da estrutura do Estado. Começando pelo chefe deles, que exercia, durante a articulação da trama, a presidência da República.
Os civis condenados eram delegados e agentes da Polícia Federal e um agente da Polícia Rodoviária. São ou eram servidores públicos, quase todos atuando com armas na cintura. Os civis de fora do Estado alcançados pelo sistema de Justiça são Felipe Martins, ex-assessor de assuntos internacionais de Bolsonaro, e Carlos César Moretson Rocha, presidente do Instituto Voto Legal.

O que há de condenados, além deles, são os manés, os invasores de Brasília no 8 de janeiro. Estão impunes os empresários civis que lideraram e patrocinaram os manés, entre os quais os que nunca foram alcançados por mandar armar barracas pelo país todo.
Não há entre eles ricaços condenados. Não há líderes dos bloqueios de estradas depois da eleição de Lula. Nada dos patrocinadores dos bloqueios, que estão dentro de grandes empresas de transporte. Não estão entre os civis condenados os mandantes dos atentados contra torres de transmissão de energia, também depois de Lula eleito.
Não existe um condenado entre os que, desde 2018, financiaram o gabinete do ódio dentro do Palácio do Planalto e continuam mantendo as mesmas estruturas, fora do governo, em suas regiões. Os grandes financiadores endinheirados do golpismo continuam por aí.
Mas ninguém fala deles na grande imprensa. É como se todos tivessem se evaporado depois da condenação de Bolsonaro e dos militares. Foi para eles, para os golpistas impunes, que Flávio jogou na entrevista ao Jornal Nacional e joga sempre que faz uma manifestação pública.
Flávio não se arrisca a investir em acenos para a velha direita. Prefere manter as tatuagens de amigo de milicianos e herdeiro do golpismo do pai, para não correr o risco de perder o que tem. É preciso manter unida a extrema direita civil organizada em redes.
Foi para essa gente que Flávio falou ao se negar a admitir, no JN, que aceitará os resultados da eleição se for derrotado. O filho ungido levanta a bola com preferência para a turma do bolsonarismo raiz.
Repete que que se elege e anistia o pai, ataca Alexandre de Moraes e nega que exista aquecimento global, para ficar bem com os grandes desmatadores do Centro-Oeste e da Amazônia. Os chefes civis do golpe, em suas paróquias, estão entre eles.

Flávio ainda sobrevive, como o escolhido pelo pai, porque sua base também está viva, mesmo com a condenação dos líderes militares e dos que estavam no entorno deles, principalmente dentro da PF. Flávio, o mais fraco dos Bolsonaros, está vivo e ainda é competitivo porque o fascismo tem base orgânica mais forte do que suas lideranças. Mais coesa, mais persistente, prática e confiável.
Os civis que empurraram os manés para Brasília estão impunes e mantêm a brasa da extrema direita no que os cientistas políticos chamam de partido digital bolsonarista. Não é preciso ter um partido próprio. Não é preciso fazer mobilização de rua e aglomeração. Isso é coisa do Malafaia.
O que interessa para o partido dos tios das redes e do zap é manter a extrema direita atuante e latejando na internet, a partir da certeza de que, se for preciso, irão se mobilizar para outro golpe. Os líderes civis do golpe, em cidades de todos os tamanhos, estão impunes, organizados e ativos.
O sistema de Justiça não chegou aos civis com poder econômico e político por achar que, pegando os líderes militares, o resto ficaria amedrontado e recuaria. O resto é todo o golpismo civil vivo. Até os drones de Cury sabem.