Os jornalões brasileiros vivem uma crise de consciência. Embora mantenham uma linha editorial crítica ao governo Lula e à candidatura do presidente à reeleição, não conseguem confiar na alternativa bolsonarista. Nesta quarta-feira (16), a 18 dias do primeiro turno, a Folha de S.Paulo se somou a seu principal concorrente, o Estadão, e pediu a cabeça de Flávio Bolsonaro (PL).
Em comum, os dois veículos questionam não apenas o frágil programa do presidenciável da extrema direita – mas também sua trajetória política e sua experiência para ocupar o cargo máximo da República. Sem a transferência do capital político do pai – o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso e inelegível –, seria difícil explicar como Flávio chegou à atual condição de candidato competitivo ao Planalto.
Com o título “Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista”, a Folha mostra hoje, em editorial, por que se recusa a chancelar o presidenciável bolsonarista. “Flávio não possui experiência em gestão relevante nem trajetória parlamentar que, por si, o credencie para a Presidência. Mais grave é o projeto político do qual se apresenta como herdeiro”, aponta o texto.
A Folha também acusa Flávio de “preservar o discurso de confronto institucional”, devotar “subserviência” ao presidente norte-americano, Donald Trump, e ter vínculos com nomes “associados a atividades criminosas”. Sem contar os diálogos constrangedores com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que levou Flávio a ser investigado por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Não fica claro, segundo o jornal, qual o ganho que o Brasil teria se elegesse um presidente com esse perfil. “Antes de postular à Presidência, Flávio precisa demonstrar que está preparado para exercê-la – e que aceita sem ambiguidades os limites que a Constituição impõe a quem ocupa o poder”.
“Dinheiro sujo”
No sábado (12), também em editorial, o Estadão já havia usado um tom duro contra Flávio Bolsonaro, “um candidato sob suspeita”. Diante das denúncias contra o senador, o tradicional jornal paulista negava qualquer respaldo ao projeto bolsonarista.
“É gravíssimo o fato de um candidato favorito, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, concorrer à Presidência da República na condição de investigado – e sob tão sérias suspeitas”, avaliou o Estadão. “Isso só reforça que Flávio Bolsonaro não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos, quanto mais para ser chefe de Estado e de governo.”
O texto é mais longo que o da Folha e se debruça sobre o caso Dark Horse – a cinebiografia de Jair Bolsonaro que contou com “dinheiro sujo” de Daniel Vorcaro. Conforme lembra o jornal, “tudo indica” que parte da verba milionária foi desviada para “o sustento da vida de playboy que o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, leva nos Estados Unidos”.
O jornal conclui: “Espera-se que um candidato à Presidência da República saiba distinguir entre o certo e o errado, o público e o privado, o lícito e o ilícito. Alguém que se perde entre essas noções elementares, evidentemente, não está qualificado para governar o Brasil”.
É importante notar que a manifestação dos dois jornalões ocorre num momento em que Flávio Bolsonaro aparece tecnicamente empatado com o presidente em algumas pesquisas de segundo turno. Nem mesmo a perspectiva de uma disputa competitiva parece ter levado os barões da imprensa paulista a abraçar o candidato bolsonarista. Estadão e Folha estão órfãos na corrida eleitoral.