
A Folha de S.Paulo publicou nesta quarta-feira (30) um editorial que repete uma velha operação da imprensa brasileira: apresentar fatos que distinguem brutalmente dois candidatos e, logo depois, tratá-los como expressões equivalentes de uma mesma degradação política. Sob o título “País pagará o preço do debate eleitoral indigente”, o jornal ressuscita, com outra embalagem, a infame tese da “escolha muito difícil” usada pelo Estadão em 2018.
Desta vez, a Folha escreve literalmente que “o país está diante de uma escolha difícil”. Sobre Lula, a grande acusação é não participar do último debate antes do primeiro turno e não assumir o ajuste fiscal desejado pelo jornal. Sobre Flávio, o próprio editorial fala em “desculpas esfarrapadas” para explicar suas “relações de afeto com o corruptor Daniel Vorcaro”. Mesmo assim, os dois acabam colocados no mesmo balaio da “indigência” eleitoral.
É uma equivalência absurda. De um lado, ausência em um programa de televisão e divergências sobre política econômica. Do outro, um candidato atingido por sucessivas revelações sobre suas relações com personagens envolvidos em escândalos. Para a Folha, porém, tudo pode ser dissolvido na palavra mágica: “polarização”.
O método é conhecido. Quando os fatos produzem diferenças incômodas demais entre os candidatos, inventa-se uma simetria moral para restaurar a aparência de neutralidade. Foi assim em 2018, quando o Estadão publicou “Uma escolha muito difícil” para explicar sua recusa em optar entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro.

Oito anos depois, após tudo o que o bolsonarismo produziu no país, a fórmula está de volta. A Folha olha para Lula e Flávio Bolsonaro e novamente encontra uma dificuldade quase filosófica para estabelecer diferenças entre os dois.
Há outra passagem reveladora. O editorial afirma que “qualquer pessoa minimamente bem informada” sabe que o Brasil precisa escolher entre um “duro ajuste dos gastos públicos” e o agravamento do “estresse financeiro”. A preferência econômica da Folha é apresentada não como opinião, mas praticamente como uma verdade objetiva. Quem discorda do receituário corre o risco de ser classificado como alguém que não é sequer “minimamente bem informado”.
O texto ainda ressuscita o suposto “estelionato eleitoral” de Dilma Rousseff em 2014 e afirma que a mudança da política econômica contribuiu “decisivamente” para o impeachment. É uma versão bastante conveniente daquela história, que deixa na sombra a ofensiva de Eduardo Cunha, a ruptura de Michel Temer e a articulação parlamentar que derrubou uma presidente eleita.
No final, sobra até para a controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida, classificada como “ridículo alarido” e “ficção”. O jornal simplesmente decreta que o assunto será esquecido em poucas semanas, embora tenha adquirido dimensão nacional e chegado ao Supremo Tribunal Federal.
Em 2018, o Estadão tinha sua “escolha muito difícil”. Em 2026, a Folha descobriu a sua. Mudaram o jornal e o candidato do bolsonarismo. O golpe continua o mesmo.