Flávio Bolsonaro planeja desmonte do Itamaraty inspirado em Marco Rubio

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pretende importar para o Itamaraty a reforma promovida pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, caso seja eleito presidente. 

O plano foi revelado pela jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, que ouviu cinco pessoas presentes em reuniões fechadas nas quais as propostas foram apresentadas.

Quem conduz as conversas sobre política internacional na campanha de Flávio é Marcos Degaut, aliado de Eduardo Bolsonaro e ex-integrante dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. 

Segundo os participantes ouvidos pela Folha, Degaut chamou o plano de “nosso projeto” e defendeu uma reestruturação do ministério das Relações Exteriores inspirada no chamado “Marco Rubio overhaul”. 

A reforma adotada nos Estados Unidos subordinou a diplomacia à agenda de Donald Trump. Cerca de 1.300 postos foram eliminados, departamentos foram fechados e critérios como a fidelidade ao governo passaram a pesar nas avaliações. 

O Departamento de Estado também substituiu diplomatas de carreira por indicações políticas: atualmente, apenas 9% dos embaixadores norte-americanos pertencem ao serviço diplomático. Nas cinco décadas anteriores, essa proporção variou de 57% a 74%.

Segundo a reportagem, o projeto apresentado em nome da candidatura de Flávio prevê metas de exportação, investimentos e inserção comercial para os diplomatas brasileiros. O sistema de promoções seria reformulado e o tempo de carreira deixaria de ser um dos principais critérios para a ocupação de postos.

Degaut também defendeu a entrega de funções no Itamaraty a pessoas de fora da carreira diplomática. 

Embora tenha dito que não haveria perseguição política, o modelo usado como referência nos Estados Unidos abriu espaço justamente para o afastamento de servidores e a ocupação de cargos por nomes alinhados a Trump.

Outro ponto do plano é concentrar a atuação brasileira em 35 países considerados prioritários, grupo chamado de “G35”. A proposta reduziria recursos destinados a parte das embaixadas e criaria postos com maior orçamento e número de funcionários. 

Na África, apenas África do Sul e Egito foram citados como possíveis centros dessa nova estrutura.

Apesar de declarar que não defende alinhamento automático com Washington, Degaut apontou como prioridade a aproximação com os Estados Unidos, por meio de acordos comerciais e parcerias no setor de minerais críticos. 

Também incluiu Israel e governos latino-americanos de direita entre os parceiros preferenciais da política externa pretendida pela candidatura.

A orientação contrasta com a política externa do governo Lula, voltada ao fortalecimento do Brics, do Mercosul, da integração latino-americana, da cooperação com a África e das relações com o Sul Global. 

A proposta bolsonarista também ameaça a tradição de autonomia do Itamaraty ao tomar como referência uma reforma feita para enquadrar a diplomacia norte-americana no programa de Trump.

Degaut foi secretário especial de Assuntos Estratégicos no governo Temer e secretário de Produtos de Defesa no governo Bolsonaro. Mais recentemente, presidiu a operação latino-americana do Edge Group, conglomerado de armamentos dos Emirados Árabes Unidos.

Também aparecem nas articulações para o ministério o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio Roberto Azevêdo, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e o ex-presidente do Banco do Brics Marcos Troyjo.

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