Flávio Bolsonaro mente. PF prova que Dark Horse tem dinheiro público

A afirmação de Flávio Bolsonaro de que o filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, não recebeu dinheiro público foi colocada em xeque pela própria investigação da Polícia Federal. A Operação Make Up, deflagrada nesta quinta-feira (10), tem entre seus principais focos justamente a suspeita de que recursos públicos oriundos de emendas parlamentares tenham chegado à produtora responsável pelo longa.

A PF identificou coincidências entre o período de movimentações financeiras da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, e o envio de emendas parlamentares destinadas pelo deputado Mario Frias (PL-SP) a entidades ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora.

O ponto central é importante: não se trata de uma suspeita genérica sobre dinheiro público circulando no entorno do filme. A investigação busca rastrear justamente o caminho de recursos públicos que passaram por empresas e entidades relacionadas à produtora.

R$ 750 mil no caminho até a produtora

Segundo a PF, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ligado a Karina Gama, recebeu R$ 700 mil em emendas parlamentares destinadas a projetos educacionais. Parte desses recursos teria sido transferida para empresas do mesmo grupo econômico e, posteriormente, R$ 750 mil chegaram à Go Up, produtora de Dark Horse.

A investigação também aponta que Mario Frias fez pagamentos diretamente à produtora. Um deles, de R$ 645,4 mil, chamou a atenção dos investigadores e foi considerado incompatível com a remuneração parlamentar do deputado.

Outro elemento levantado pela PF é a utilização, por Frias, de R$ 154 mil de sua cota parlamentar para pagar a Complexsys Soluções Integradas. A empresa recebeu milhões do ICB e aparece conectada ao conjunto empresarial investigado.

A coincidência entre o dinheiro e as filmagens

A PF encontrou ainda uma coincidência temporal que reforça a necessidade de investigação.

Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, a Go Up movimentou cerca de R$ 19 milhões, período próximo às gravações do filme. Ao mesmo tempo, recursos provenientes de emendas circulavam entre entidades e empresas ligadas à produtora.

Isso não significa, por si só, que todo o orçamento do filme seja público ou que já esteja comprovado judicialmente o desvio. A investigação ainda precisa estabelecer, com provas, a origem e o destino de cada recurso.

Mas significa algo bastante diferente da versão apresentada por Flávio Bolsonaro: há uma investigação federal específica sobre a possibilidade de dinheiro público ter sido utilizado, direta ou indiretamente, na produção.

O que Flávio Bolsonaro disse

Quando surgiram as primeiras suspeitas, Flávio Bolsonaro afirmou que havia “zero de dinheiro público” no filme. A declaração foi feita depois que veio a público que ele havia procurado o então banqueiro Daniel Vorcaro em busca de recursos para a produção.

Posteriormente, a produtora apresentou uma perícia particular segundo a qual o longa teria custado cerca de R$ 75 milhões, financiados pelo fundo Havengate, sem recursos públicos. O documento, porém, não detalhou fornecedores, notas fiscais ou a compatibilidade das despesas com os padrões do mercado cinematográfico.

Provar que o filme foi pago com dinheiro público

A PF não afirmou que os R$ 75 milhões declarados como custo do filme sejam integralmente provenientes de cofres públicos. O que está sob investigação é a possibilidade de recursos públicos, especialmente emendas parlamentares, terem sido desviados ou utilizados em benefício da estrutura empresarial ligada ao longa.

Essa distinção, contudo, não salva a declaração de Flávio Bolsonaro.

Se a afirmação foi de que não existia nenhum dinheiro público relacionado à produção, a existência de uma investigação formal sobre repasses de emendas que teriam chegado à própria produtora torna a frase, no mínimo, incompatível com os fatos revelados pela investigação até agora.

Uma operação que atinge o entorno político do filme

A Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão e investiga suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em licitações. Entre os alvos estão Mario Frias e Karina Gama.

Flávio Bolsonaro não é alvo desse inquérito específico. Ele, porém, está politicamente ligado ao episódio porque admitiu ter buscado recursos para Dark Horse e porque o filme é parte da estratégia de construção da imagem pública de Jair Bolsonaro.

A tentativa de reduzir a operação a uma suposta perseguição política, portanto, desloca o debate. A questão objetiva levantada pela PF é financeira: por onde passaram os recursos públicos, quem os recebeu e se eles acabaram beneficiando uma produção ligada ao grupo político Bolsonaro.

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