Flávio Bolsonaro (PL) mudou de posição sobre o fim da escala de trabalho 6×1 às vésperas da votação da proposta no Senado e em meio à disputa eleitoral com o presidente Lula (PT). Depois de classificar a iniciativa como “oportunista” e “eleitoreira”, o senador anunciou que votará a favor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada semanal e garante dois dias de descanso aos trabalhadores, sem redução salarial. A mudança ocorre justamente quando o fim da escala 6×1 se tornou uma das bandeiras sociais da campanha Lula e uma pressão sobre o adversário.
A guinada busca reduzir o desgaste da candidatura de Flávio que vinha sendo associada à diminuição dos direitos dos trabalhadores. Ao aderir à proposta, Flávio tenta retirar de Lula o monopólio político de uma pauta de grande apelo popular e evitar que a oposição seja marcada como contrária à ampliação dos direitos trabalhistas.
Na terça-feira (13), Flávio declarou à imprensa que votaria a favor da medida porque “a maioria dos trabalhadores brasileiros” deseja o fim da escala 6×1. A afirmação contrastou com suas declarações anteriores, quando acusou Lula de usar a proposta para conquistar votos durante o segundo turno.
Ainda assim, a mudança do hoje senador e candidato à Presidência não significará a efetiva adesão ao projeto do governo. O senador voltou a questionar os custos para os empregadores, defendeu que o governo federal deve “compensar” as empresas e sustentou que o país deveria adotar maior “flexibilidade” nas jornadas de trabalho.
Da acusação de oportunismo à tentativa de neutralizar Lula
No início de outubro, quando a PEC avançou no Senado, o PL de Flávio Bolsonaro buscou adiar a votação do Congresso e apresentou textos diferentes à proposta governista.
Mas a estratégia mudou diante do risco de que a resistência ao projeto se transformasse em um problema para a candidatura do senador. A campanha de Flávio entendeu que a dificuldade de explicar ao eleitor uma posição contrária a uma proposta popular o prejudicaria.
Enquanto isso, com a mudança de Flávio Bolsonaro, o presidente Lula destaca que a medida foi um projeto governista e que o adversário deveria se explicar por que antes criticava a iniciativa, e agora anuncia voto favorável.
“Parece que, depois da pressão da sociedade, o PL resolveu votar o fim da escala 6×1. De vez em quando fico pensando… Se todo mal que eu causar a este país for fazer a direita avançar e atender aos interesses do povo brasileiro, vou continuar a fazer isso”, disse Lula.
A aposta da campanha do PL é se mostrar favorável a ampliar o descanso dos trabalhadores, neutralizando os argumentos da campanha de Lula, mas em outro formato de trabalho, que descrevem como “liberdade” e “flexível”. O problema para o senador é que a mudança de discurso não apaga o histórico recente de críticas, nem a tentativa de postergar a discussão.
A jornada de trabalho “flexível” defendida por Flávio
Ao anunciar apoio à PEC, Flávio voltou a defender um modelo de jornada mais “flexível”, com base na negociação entre patrões e empregados para dar a “liberdade” aos trabalhadores, com as remunerações vinculadas às horas trabalhadas. O senador também sugeriu que o governo deveria compensar os empregadores pelos custos da redução da jornada, argumentando que empresas poderiam precisar contratar mais funcionários. Não detalhou, porém, como essa compensação seria financiada.
A alternativa defendida pelo PL não equivale ao texto em votação. A PEC em discussão reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, garante dois dias de descanso por semana, preferencialmente aos domingos, e proíbe redução salarial. A transição prevista é gradual: primeiro, a jornada cai para 42 horas e, depois, para 40 horas semanais.
Ao declarar voto favorável ao fim da escala 6×1, Flávio tenta se aproximar da reivindicação popular; mas ao defender expressamente outro formato, preserva uma posição mais alinhada aos empresários e setores da oposição.
Senado quer votação nesta quarta
O Senado quer começar a votação da PEC em primeiro turno nesta quarta-feira (14). A bancada governista também tenta antecipar a segunda votação, dispensando parte do intervalo previsto no regimento. Para ser aprovada, a PEC da escala 6×1 precisa de pelo menos 49 votos favoráveis, entre os 81 senadores, em dois turnos.
A postura de Flávio Bolsonaro também dificultou a articulação de uma posição única da oposição. Até então obstruindo as votações, o PL passou a admitir apoio à proposta, mas não orientou as bancadas a nenhum voto.
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