“Fim do futebol brasileiro”: clubes publicam manifesto em defesa das bets

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Foto: Rubens Cavallari/Folhapress

Os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro publicaram nesta quinta-feira (17) um mesmo manifesto em defesa do mercado de apostas e contra eventuais restrições ao setor. Intitulado “O fim do futebol brasileiro”, o texto foi divulgado, entre outros, pelo Flamengo em seu perfil oficial no X e afirma que uma mudança abrupta nas regras poderia provocar insolvência de clubes e comprometer estruturas do futebol nacional.

Em uma mobilização coordenada, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, São Paulo, Santos, Palmeiras e Cruzeiro aderiram inicialmente ao manifesto, com Remo, Mirassol, Chapecoense, Athletico, Bahia, Coritiba, Grêmio, Internacional, RB Bragantino, Vitória, Atlético-MG e Corinthians publicando depois o mesmo texto.

Além disso, a Federação Paulista de Futebol (FPF) e Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) também divulgaram a carta. Dirigentes e representantes de empresas de apostas participaram das discussões que antecederam a manifestação conjunta.

Os clubes argumentam que as bets se tornaram uma das principais fontes de financiamento do esporte e relacionam esses recursos ao atual protagonismo dos brasileiros nas competições sul-americanas. Também afirmam que equipes menores, categorias de base, futebol feminino e outras estruturas seriam atingidos. Atualmente, 13 clubes da Série A possuem uma casa de apostas como patrocinadora principal, e os contratos dessa natureza representam cerca de R$ 1 bilhão por temporada.

O alcance de uma eventual medida federal, porém, ainda não foi definido. O governo discute a proibição dos jogos de cassino on-line e novas restrições ao setor, mas o Ministério da Fazenda afirma que nenhuma decisão final foi tomada. A versão em discussão preservaria as apostas esportivas e os contratos de patrocínio com clubes e competições. A perda de receita dos cassinos poderia reduzir a capacidade de investimento das empresas, mas isso é diferente de uma proibição já anunciada dos patrocínios esportivos.

O que o povo pensa?

Os números de saúde pública ajudam a explicar por que o governo estuda regras mais duras. Dados reunidos pelo Ministério da Saúde mostram que o SUS registrou 10.553 atendimentos relacionados a jogo patológico e mania de jogo e aposta entre janeiro de 2018 e maio de 2025, uma alta de 104% no período. Em agosto, diante da procura, o sistema ampliou para até 100 mil por mês sua capacidade de teleatendimento especializado. Em setembro, mais de 1 milhão de pessoas já haviam pedido a autoexclusão de todas as plataformas licenciadas.

A resistência à presença das bets no futebol também aparece em pesquisa de opinião. Levantamento More in Common/Ipsos-Ipec realizado em julho com 2.000 pessoas de 16 anos ou mais, em 130 municípios, mostrou que 68% defendem a proibição do patrocínio de casas de apostas no futebol porque consideram que elas prejudicam torcedores e famílias. Apenas 19% preferem manter os patrocínios pelo benefício financeiro aos clubes. Outros 58% disseram acreditar que as bets aumentam muito o risco de manipulação de partidas.

Dentro da disputa eleitoral, o apoio à proibição do patrocínio de casas de aposta chegou a 65% entre eleitores de Lula e 72% entre eleitores de Flávio Bolsonaro.

A Premier League e o futebol antes das bets

A atual dependência comercial das casas de apostas é recente na história do futebol brasileiro. As apostas esportivas de quota fixa só foram legalizadas no país em 2018, e o processo de regulamentação e licenciamento foi concluído somente em 2024. Mas, antes disso, clubes brasileiros já disputavam receitas bilionárias.

Ao longo da década de 2010, antes de as bets dominarem os patrocínios, a Série A tinha uma base comercial bem mais diversificada, com empresas dos setores financeiro, imobiliário, alimentício, de saúde, varejo e telecomunicações. Em 2018, por exemplo, a Caixa era patrocinadora máster de 12 dos 20 clubes. Mesmo sem as casas de apostas no centro desse modelo, Flamengo, Corinthians e Palmeiras já estavam entre as marcas mais valiosas do futebol brasileiro, avaliadas em cerca de R$ 2 bilhões, R$ 1,7 bilhão e R$ 1,5 bilhão, respectivamente.

Ao redor do mundo, a Premier League, liga inglesa de Futebol, entrou em acordo com os clubes e decidiram em 2023 retirar voluntariamente empresas de apostas da parte frontal das camisas a partir da temporada 2026/27. A regra entrou em vigor neste ano e marcas de tecnologia, serviços financeiros e outros setores voltaram a ocupar parte dos espaços deixados pelas casas de apostas.

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