
Há uma tese picareta circulando com insistência no noticiário político: a de que Lula estaria perdendo votos por causa de sua suposta associação com Alexandre de Moraes e de que Flávio Bolsonaro estaria lucrando com isso.
É uma fabricação de consenso, totalmente divorciada da realidade. Eu desafio qualquer pessoa a sair na rua e perguntar a um transeunte se vai deixar de votar no presidente por causa do STF — ou mesmo se vai votar por causa disso.
É uma balela divulgada por quem não tem mais o que inventar para bater no governo federal. A colunista da Folha Mariliz Pereira Jorge tentou surfar nessa onda com um artigo xarope (mais um) dizendo que “a torcida dos petistas por Alexandre de Moraes custará a eleição a Lula. A cegueira da esquerda beira o suicídio político”.
“Comemorar o bate-boca no plenário como uma torcida organizada só carimba na testa do eleitor médio a certeza de que ninguém ali está preocupado com a gravidade das denúncias contra o ministro do STF”, previu a pitonisa da Barão de Limeira.
Mariliz fica devendo uma definição de “eleitor médio”, um desses clichês idiotas que não querem dizer nada.
Para devotos de pesquisas, a Quaest mediu essa temperatura. Perguntados sobre a influência da crise do STF na escolha para presidente, 67% dos brasileiros responderam que isso não tem nenhuma influência sobre seu voto. Outros 22% disseram que a crise apenas reforça uma escolha que já haviam feito. Só 7% afirmaram considerar a possibilidade de mudar de candidato.
Ou seja: 89% não estão trocando de candidato por causa do Supremo.
O próprio Felipe Nunes, CEO da Quaest, foi direto ao interpretar os dados. Segundo a avaliação apresentada por ele diante do insólito Merval Pereira, a crise do Supremo “não muda voto”. O que ela faz é mobilizar e engajar o eleitorado de direita.
A eleição continua sendo decidida por uma combinação de renda, emprego, inflação, preço dos alimentos, serviços públicos, identificação política, rejeição aos candidatos, avaliação do governo e uma série de fatores que não desaparecem porque o Supremo virou assunto dominante na mídia.
A própria Quaest vem descrevendo a eleição de 2026 como uma disputa “calcificada”, organizada em torno dos mesmos polos políticos de 2022. Em análise publicada em agosto, o instituto afirmou que as oscilações acontecem dentro de limites estreitos e que a estrutura fundamental da disputa permanece preservada.
A Quaest aponta que 73% dos entrevistados conheciam o episódio envolvendo Moraes, Mendonça e Vorcaro, mas isso não se traduziu automaticamente em mudança de voto.
A questão não é negar que o conflito no Supremo tenha importância política. Tem. O que não se pode fazer é dar um salto lógico e cravar que Lula está perdendo votos por causa de Moraes.
Aí já é torcida organizada para meia dúzia de imbecis que acham que descobriram a pólvora e falam entre si.
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