Fim da escala 6×1: por que reduzir a jornada é também uma questão de igualdade para as mulheres

Sobrecarga de trabalho, dupla jornada e desigualdade no cuidado mostram que discutir o fim da 6×1 também é discutir saúde, autonomia e igualdade de gênero

O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou força no país e coloca em discussão não apenas a quantidade de dias trabalhados, mas também o direito ao descanso, à convivência familiar, ao lazer e a uma vida com mais qualidade.

Para as mulheres, essa discussão tem uma dimensão ainda mais profunda. Isso porque a jornada de trabalho remunerado costuma ser acompanhada por uma segunda jornada dentro de casa, marcada pelas tarefas domésticas e pelo cuidado com filhos, familiares e outras pessoas que dependem de atenção.

Um artigo publicado pela Revista da PUC Minas, intitulado “Uma análise da redução da escala 6×1 sob as lentes de gênero”, chama atenção justamente para essa realidade e defende que o debate sobre a jornada precisa considerar as desigualdades existentes entre homens e mulheres.

Mulheres enfrentam uma dupla jornada

De acordo com dados do IBGE citados no artigo da PUC Minas, as mulheres dedicam, em média, 21 horas semanais ao trabalho de cuidado, enquanto os homens dedicam cerca de 11 horas.

Essa diferença ajuda a compreender por que a discussão sobre jornada de trabalho não pode ser feita de maneira neutra. Depois de cumprir uma jornada remunerada, muitas trabalhadoras continuam trabalhando dentro de casa.

São tarefas como cozinhar, limpar, organizar a casa, cuidar dos filhos, acompanhar familiares, administrar compromissos e garantir o funcionamento da rotina familiar.

Ou seja: quando uma trabalhadora encerra seu expediente, muitas vezes o trabalho ainda não terminou.

Na escala 6×1, em que existe apenas um dia de descanso semanal, o tempo disponível para recuperação física e mental, convivência familiar, lazer e cuidados pessoais fica ainda mais reduzido.

Saúde mental também está em debate

A discussão ganha importância diante do aumento dos problemas relacionados à saúde mental no mundo do trabalho.

O artigo da PUC Minas destaca dados segundo os quais o Brasil registrou, em 2024, 472 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número em uma década e um crescimento de 67% em relação ao ano anterior. As mulheres representaram 63,8% desses afastamentos, segundo os dados apresentados no texto.

Entre os fatores associados ao adoecimento estão sobrecarga de trabalho, jornadas exaustivas, assédio e ambientes profissionais tóxicos.

Esses números mostram que falar sobre redução da jornada não significa apenas discutir tempo livre. Significa também discutir saúde, prevenção do adoecimento e condições dignas de trabalho.

O trabalho de cuidado também precisa entrar na conta

Existe uma parte do trabalho realizado diariamente que, apesar de ser indispensável para o funcionamento da sociedade, permanece muitas vezes invisível: o trabalho doméstico e de cuidado.

A desigualdade nessa divisão faz com que muitas mulheres tenham pouco ou nenhum tempo para descansar depois da jornada profissional.

Essa realidade é ainda mais pesada para mulheres negras e de baixa renda, que enfrentam desigualdades salariais e estão mais concentradas em ocupações marcadas por jornadas extensas e menor proteção social.

Por isso, o fim da escala 6×1 precisa ser compreendido também como uma discussão sobre quem tem direito ao tempo e quem consegue efetivamente descansar.

Mais tempo não significa apenas mais descanso

Reduzir a jornada pode significar mais tempo para dormir, cuidar da saúde, estudar, estar com os filhos, participar da comunidade, desenvolver atividades culturais e simplesmente descansar.

Para muitas mulheres, entretanto, existe um desafio adicional: garantir que o tempo conquistado não seja automaticamente preenchido por mais tarefas domésticas.

Por isso, a discussão sobre o fim da 6×1 deve estar acompanhada de um debate sobre a divisão social do trabalho de cuidado.

Não basta diminuir a jornada no emprego se as mulheres continuarem responsáveis pela maior parte das tarefas dentro de casa.

Reduzir a jornada sem reduzir direitos

A defesa de uma jornada mais humana precisa estar acompanhada da garantia de direitos.

O debate também deve considerar a igualdade salarial entre homens e mulheres, a prevenção do assédio e das microagressões no ambiente profissional e a garantia de que mudanças na organização do trabalho não sejam utilizadas para aumentar a exploração das trabalhadoras.

Como aponta a análise publicada pela PUC Minas, a redução da jornada pode representar um avanço importante para a qualidade de vida das mulheres, mas seus efeitos precisam ser acompanhados para evitar que novas formas de desigualdade sejam criadas ou aprofundadas.

Uma luta por mais tempo para viver

O debate sobre o fim da escala 6×1 é, portanto, também uma discussão sobre qual sociedade queremos construir.

Uma sociedade em que trabalhadores tenham apenas um dia para recuperar as energias ou uma sociedade que reconheça que descanso, convivência familiar, lazer e saúde também são direitos?

Para as mulheres, essa pergunta é ainda mais urgente.

A redução da jornada pode contribuir para diminuir a sobrecarga e abrir espaço para uma vida com mais equilíbrio, mas precisa caminhar junto com políticas de igualdade, valorização profissional, combate ao assédio e distribuição mais justa das responsabilidades domésticas e de cuidado.

A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) defende o avanço dos direitos trabalhistas e a construção de condições de trabalho que garantam mais dignidade, saúde e qualidade de vida para a classe trabalhadora.

O fim da escala 6×1 não é apenas uma discussão sobre quantos dias se trabalha. É uma discussão sobre quanto tempo as pessoas têm para viver — e, para as mulheres, sobre o direito de não transformar todo o tempo fora do emprego em uma nova jornada de trabalho.

Fonte

As informações sobre a relação entre escala 6×1, divisão sexual do trabalho, saúde mental e desigualdade de gênero foram complementadas a partir do artigo “Uma análise da redução da escala 6×1 sob as lentes de gênero”, publicado pela Revista PUC Minas.

Fonte: Revista PUC Minas.

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