
Daniel Vorcaro gastou R$ 40 milhões para fechar um andar inteiro do Camarote Café de La Musique Alma Rio, na Marquês de Sapucaí, durante o Carnaval de 2025. O banqueiro também financiou festas no Parque Lage e em um casarão em Santa Teresa, segundo mensagens obtidas pela revista Piauí.
Na sexta-feira anterior à folia, em 28 de fevereiro, organizou um encontro privado em seu tríplex no Itaim Bibi, bairro nobre de São Paulo. Mensagens extraídas de um celular apreendido pela Polícia Federal mostram que Vorcaro coordenou os preparativos de uma festa que teria reunido um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e cinco garotas de programa.
A revista teve acesso a 125 mensagens trocadas entre o banqueiro e sete pessoas envolvidas na organização: dois motoristas, um chef de cozinha, o mordomo, uma agenciadora de garotas de programa, uma faxineira e um amigo arquiteto.
O caso começou a ganhar repercussão em 15 de setembro, quando os jornalistas Andreza Matais e André Shalders, do portal Metrópoles, publicaram conversas entre Vorcaro e Rayanna, responsável por agenciar garotas de programa.
Em uma das mensagens, ela escreveu: “A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né? […] Ela disse que ficou com o kassio”. Em seguida, afirmou que a mulher estava cobrando pelo encontro. Vorcaro perguntou o valor, e Rayanna respondeu “10 né!”, enviando seus dados para pagamento via Pix.
O nome Kassio, grafado com K, chamou a atenção por coincidir com o do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. Em 13 de outubro, o portal UOL publicou uma reportagem da jornalista Daniela Lima informando que cinco garotas de programa estiveram no tríplex naquela noite.
No dia do encontro, Vorcaro havia escrito ao ex-diretor jurídico do Banco Master, Luiz Rennó, que estava “fazendo graça para ministro em SP”. Às 20h56, o mordomo Michael informou ao banqueiro: “Emprestei quarto do lado para ministro com 5 menina”. Vorcaro também orientou Rayanna: “Só lembra que sem celular”.
A divulgação das primeiras mensagens coincidiu com uma sessão do STF que discutiu o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master. No início da sessão, Nunes Marques anunciou que não participaria da votação.
O ministro André Mendonça contava com seu apoio para afastar Moraes, mas Nunes Marques alegou que, na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não queria comprometer sua posição diante da eleição que se aproximava. As conversas sobre a festa não foram mencionadas durante a sessão.
O caso é inédito na história do STF, já que um ministro teria recebido favores sexuais patrocinados por um banqueiro investigado por uma gigantesca fraude bancária cujo processo tramita na própria Corte.
As mensagens também vieram à tona em meio a outras informações sobre as relações entre Vorcaro e Kassio. A defesa do Banco Master pediu três vezes que o processo da instituição ficasse sob a responsabilidade do ministro, em vez de ser encaminhado a André Mendonça.
Cinco meses antes da festa, Kassio desempatou, na Segunda Turma do STF, o caso Alcídia, relacionado a precatórios do setor sucroalcooleiro que ajudariam a recompor o balanço do banco.
Mensagens mostram Vorcaro e seus advogados comemorando a decisão. No período da festa, o Master realizou 14 transferências, que totalizaram 6,6 milhões de reais, à Consult Inteligência Tributária. Desse valor, a consultoria repassou 282 mil reais diretamente a Kevin Marques, filho do ministro. Outras mensagens indicam que Vorcaro pagava a Kevin um salário mensal de 500 mil reais.
Os preparativos para o encontro começaram em 26 de fevereiro, dois dias antes da festa. Na madrugada daquele dia, o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), pediu ao agente de viagens de Vorcaro um quarto no Hotel Fasano, unidade do Itaim Bibi da qual o banqueiro era sócio. “Essa sexta a sábado pro KN”, escreveu Ramos, mencionando as iniciais de Kassio Nunes.
No mesmo dia, Vorcaro avisou ao chef José Maria Meira: “Sexta churrasco animado”. Em seguida, enviou uma mensagem incompleta: “Com min e”. Na véspera do encontro, Meira gastou 1.772 reais em uma casa de carnes da marca deBetti. Em outro estabelecimento, comprou cinco latas de caviar por 15.100 reais, além de trufas. As compras totalizaram 21.121,90 reais. Com a equipe contratada, as despesas chegaram a aproximadamente 27 mil reais.
Vorcaro também avisou ao amigo Kiko Sobrinho que receberia um ministro na sexta-feira. Os dois se confundiram sobre o local do almoço: o banqueiro mencionou “a casa”, perguntou pela chave e pela segurança, e Kiko entendeu que o encontro ocorreria em outro imóvel.
O amigo alertou que havia obras na piscina. Às 23h07, Vorcaro esclareceu a situação ao orientar o mordomo Michael a comparecer às 13 horas do dia seguinte à “Leo”, apelido do tríplex localizado na Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi.

Na sexta-feira, às 11h14, Michael informou que já estava a caminho para ajudar a preparar o churrasco. Vorcaro enviou o endereço do encontro a Rayanna. Também informou ao chef que seriam 15 convidados e pediu reforço no serviço: “Vamos precisar garçon”. Rayanna avisou que não poderia comparecer, mas enviaria duas mulheres e acertaria o pagamento com elas posteriormente.
Na manhã da festa, Vorcaro reclamou com Kiko dos problemas na automação do tríplex. Às 10h19, escreveu: “Cara, essas automações vão me matar um dia”. Perguntou se alguém poderia ir ao imóvel consertar o sistema de controle dos ambientes, mas depois informou que resolvera o problema sozinho.
Às 12h44, enviou quatro mensagens exigindo a retirada de um sofá da varanda: “Pelo amor de Deus. Tira aquele sofá da varanda leo. Tô passando vergonha. Melhor deixar sem nada. Ele é logo na entrada, primeira coisa que a pessoa vê”.
Às 13h56, comunicou que o ar-condicionado havia parado de funcionar, e Kiko prometeu chamar uma assistência técnica. Às 14h04, um motorista informou que as garotas estavam chegando e perguntou se poderia autorizá-las a subir. Vorcaro respondeu: “Todas que chegarem. Pode subir”.
Às 14h40, avisou que os convidados chegariam em um Ford Fusion preto e pediu que fossem recebidos. Em seguida, escreveu a Rennó que estava “fazendo graça para ministro em SP”. Também reclamou que as janelas da sala estavam fechadas e ordenou ao mordomo: “Abre as janelassss!!!”. Às 14h54, Michael informou que os convidados haviam observado a localização do imóvel e demonstravam admiração pelo apartamento.
Depois da chegada dos convidados, Vorcaro passou mais de cinco horas sem enviar mensagens relacionadas à festa nas conversas. Nesse intervalo, continuou tratando dos problemas financeiros do Banco Master.
Às 16h31, um contato atribuído a Paulo Sergio Souza, ex-diretor do Banco Central, informou que a instituição estava com 800 milhões de reais em déficit no depósito compulsório e perguntou se havia algum problema grave. Vorcaro respondeu que a situação seria regularizada depois do Carnaval. Segundo ele, o banco havia fechado a venda de uma carteira de crédito e uma nova captação, que aumentariam significativamente o caixa na semana seguinte.
O depósito compulsório corresponde aos recursos que as instituições financeiras são obrigadas a manter no Banco Central. Ao utilizar esse dinheiro para garantir a liquidez do Master, o banco descumpria requisitos mínimos para operar no país. Vorcaro contava com uma operação com o Banco de Brasília (BRB), instituição estatal do Distrito Federal, destinada a injetar capital no Master e anunciada no mês seguinte.
Às 20h20, Vorcaro perguntou ao executivo Alberto Felix de Oliveira Neto quanto o banco havia utilizado do compulsório. Alberto respondeu “1.250”, ou seja, 1,25 bilhão de reais. Vorcaro reagiu: “Como assim Alberto. Estava 800. Vocês piraram”. Seis minutos depois, escreveu a Angelo Silva, outro executivo: “Demite Alberto. Vamos voltar eu e você e tentar salvar. O cara deixou o banco com -1.250”.
Enquanto discutia a situação financeira, o banqueiro continuava acompanhando os acontecimentos no tríplex. Às 20h06, havia escrito ao mordomo Michael: “Vem aqui”. Naquele período, Michael relatou que um convidado vestido de preto estava pedindo mais chocolate, mas que ele se recusara a servir porque o patrão já o havia repreendido por isso. Vorcaro respondeu: “Nunca mais faça isso”.
Era comum haver chocolate convencional e uma variedade preparada com cogumelos alucinógenos na casa do banqueiro. A repreensão foi interpretada pela publicação como uma possível referência à segunda variedade, embora as mensagens não confirmem essa hipótese.
Às 20h56, Michael informou que havia emprestado um quarto ao ministro e às cinco mulheres. Disse que tentara telefonar para pedir autorização, mas Vorcaro não atendera. Às 21h29, o banqueiro respondeu: “Claro. Qie sim”. Oito minutos depois, determinou: “Só fecha meu quarto. E mostra o outro. Se vier o terceiro coloca sala tv”. Às 22h08, Michael informou que os participantes estavam nus na piscina: “Pessoal tudo pelado na piscina”. Acrescentou que uma das mulheres havia passado mal e vomitado, mas já estava bem.
Às 22h55, Vorcaro perguntou se haviam providenciado toalhas. Michael confirmou que sim e disse que o ministro não demonstrava pressa para ir embora. Segundo o mordomo, ele havia acabado de dizer que estava “renovando para começar tudo novamente”. Às 23h15, Michael avisou que o ministro estava se preparando para sair. Às 23h17, confirmou que ele havia ido embora.
Às 23h24, Michael enviou a Vorcaro uma fotografia de três preservativos usados espalhados sobre um tapete. “Tô arrumando pra não deixar pra selma essas coisa”, escreveu, referindo-se à faxineira. Às 23h27, enviou outra imagem, desta vez de uma calcinha preta de renda encontrada entre o lençol e a fronha.
“Essas menina é artista olha onde achei embaixo do travesseiro”, comentou. Vorcaro não respondeu. Na manhã seguinte, dispensou a faxineira: “Nao precisa vir hoje”. As mensagens não esclarecem se o banqueiro permaneceu no tríplex durante toda a festa, nem estabelecem todas as circunstâncias dos eventuais pagamentos às mulheres ou a identidade de cada participante.
Em nota, o a assessoria de Kassio afirmou: “O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros”.