Falta uma palavra!, por Francisco Mateus Conceição
Presidente Lula, neste segundo turno há tanto a fazer e certamente você fará, mas o que solicito aqui é algo aparentemente singelo.
Você foi capaz de criar o Bolsa Família e o Fome Zero quando muitos na esquerda torciam o nariz para programas assistenciais. Teve a coragem de sustentar que programa assistencial é diferente de assistencialismo. Que muitas vezes é necessário “dar o peixe” enquanto se faz a inclusão de milhões de brasileiros no mercado de trabalho. Porque não se trata de “ensinar a pescar”, é necessário criar condições para essa inclusão. Você liderou essa mudança histórica e hoje os filhos do Bolsa Família mostram, com seu exemplo bem-sucedido, que você estava certo. Da mesma maneira que os filhos da política de Cotas e de vários outros programas.
Lula, você carrega a história de quem venceu a fome e se fez grande. E está agora, com bravura, enfrentando as bets. Novamente superando resistências de parcela significativa da esquerda, que preferia uma atitude mais branda. Sua intuição de líder, sua sensibilidade esculpida pelo tempo, lhe disse não haver meio-termo. Com isso deu uma demonstração de autoridade e pautou a discussão política, assumindo o protagonismo no debate e enviando a todos os brasileiros uma mensagem de força e vitalidade. Apenas quem enfrenta as bets, que estão destruindo pessoas, lares e famílias, se credencia para falar de soberania. Adquire legitimidade para falar de segurança. Para, enfim, tratar dos mais graves problemas brasileiros.
Sim, Lula, você tem enfrentado muita coisa, quebrado muitos tabus, tornando-se cada vez mais gigante. E cairia como uma luva se você dissesse que sua luta é em nome da família brasileira. Sim, porque está se tornando imprescindível, nesta eleição, resgatar, de vez, a palavra família para o discurso da esquerda. A direita sequestrou essa palavra. Como sequestrou a fala sobre a pátria e sobre a bandeira brasileira. Na prática, como sabemos, é o contrário: somos nós que defendemos a soberania nacional, é em nós que existe um sentimento profundo de nação e uma defesa concreta de sua existência: econômica, política e culturalmente. E somos nós que lutamos pelas famílias brasileiras, através de políticas sociais que garantam melhor qualidade de vida às famílias: moradia, alimentação, educação, saúde, emprego, valorização e recomposição do salário…
A família está sob muitas ameaças, pelos crimes do mundo digital e do mundo físico, pelos problemas socioeconômicos, pela falta de tempo para viver, pela baixíssima taxa de natalidade… Mas resiste como referência indispensável. Como sabemos, ela está na gênese das nossas maiores lideranças, inclusive na sua. Todos gostam de lembrá-la pessoalmente. Mas não faz parte do discurso ideológico da esquerda, onde ainda existe pudor na sua utilização. E, assim, permitimos que essa significativa palavra seja sequestrada e explorada inescrupulosamente pelos representantes da direita. Em outros tempos, quando havia presença expressiva de integrantes da igreja progressista em nossas fileiras, a conexão com as famílias era feita, em boa medida, por esse caminho. A história da militância no PT dos anos 80 e 90 não pode ser contada sem a presença da Revista Mundo Jovem. Dos belíssimos textos do Frei Betto… Mas os tempos são outros e nosso discurso se tornou mais abstrato. Necessitamos restaurar essa conexão emocional. Falar das famílias, sobre as famílias e, principalmente, para as famílias.
Por favor, Presidente, resgate essa palavra para nós, de forma aberta, afirmativa e orgulhosa. Ela combina perfeitamente com nossas raízes e trajetórias: pessoais, partidárias e ideológicas. Somos nós que podemos usá-la com propriedade e, por isso, é conosco que ela gera os melhores frutos. Façamos isso e todas as famílias agradecerão. Isso, além de reorganizar nosso discurso quanto a esse tópico, o que já é tempo, poderá fazer muita diferença neste pleito eleitoral.
Francisco Mateus Conceição é servidor público, ex-professor e doutor em Literatura
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