Relatório da Polícia Federal aponta que conteúdos do perfil oficial da governadora e de contas investigadas foram enviados a partir do mesmo endereço IP de uma autarquia estadual; apuração examina possível uso de recursos públicos numa estrutura de ataques e desinformação em meio à disputa política de Pernambuco
Da Redação
A investigação sobre uma suposta estrutura digital ligada ao governo de Pernambuco entrou numa nova e decisiva etapa às vésperas da eleição estadual. O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, determinou o envio ao Superior Tribunal de Justiça do inquérito da Polícia Federal que apura a possível existência de uma rede utilizada para disseminar desinformação e atacar adversários políticos da governadora Raquel Lyra, candidata à reeleição.
A decisão não encerra a investigação. Fachin manteve válidas as diligências realizadas e os elementos reunidos pela Polícia Federal, mas concluiu que o caso não deve continuar sob supervisão do Supremo. Na avaliação do ministro, aquilo que apareceu até agora na apuração está relacionado predominantemente à disputa política de Pernambuco e não a uma estrutura destinada especificamente a atacar as prerrogativas institucionais do STF.
Como a investigação pode alcançar a governadora, o caso segue para o STJ, tribunal competente para processar governadores por crimes comuns. Fachin acrescentou que essa competência também pode alcançar eventuais crimes eleitorais relacionados aos mesmos fatos.
O ponto mais sensível da investigação está nos rastros digitais encontrados pela Polícia Federal.
Segundo relatório policial citado na decisão de Fachin, arquivos de mídia associados ao perfil oficial da governadora Raquel Lyra e a outros dois perfis apontados numa denúncia parlamentar como integrantes da suposta rede de desinformação foram enviados para as redes a partir do mesmo endereço IP. Esse endereço, segundo a investigação, pertence a uma autarquia estadual de tecnologia da informação.
É um dado tecnicamente relevante porque cria uma conexão digital entre estruturas sob investigação e infraestrutura pertencente ao Estado.
Mas não encerra a questão.
Compartilhar um endereço IP, isoladamente, não demonstra quem produziu determinado conteúdo, quem ordenou sua publicação ou se existiu uma organização criminosa. É justamente essa cadeia de responsabilidades que a investigação terá de reconstruir.
A outra frente considerada central pela PF é financeira. Os investigadores procuram saber se perfis integrantes da suposta rede receberam recursos indiretamente por meio de contratos de publicidade da Secretaria de Comunicação do governo pernambucano.
Se essa hipótese for comprovada, o problema deixa de ser apenas a existência de páginas politicamente agressivas na internet. Passaria a envolver uma questão muito mais grave: a eventual utilização de dinheiro público para financiar conteúdo destinado à disputa político-eleitoral.
Foi justamente essa possibilidade que Fachin destacou ao determinar a remessa do caso.
Na avaliação registrada pelo ministro, os elementos investigativos apontam para possíveis condutas ilícitas dentro da estrutura estadual envolvendo eventual desvio de recursos para financiar a divulgação de informações falsas com finalidade ligada à disputa política pernambucana.
Ainda são suspeitas sob investigação.
Não existe, até agora, decisão judicial estabelecendo que Raquel Lyra comandou uma milícia digital ou determinando sua responsabilidade criminal pelos fatos.
O governo de Pernambuco nega a existência de um “gabinete do ódio” ou estrutura clandestina dessa natureza e afirma que sua atuação política é realizada de forma pública e comprometida com informações verdadeiras.
O rastro encontrado pela Polícia Federal
A investigação começou antes da reta final da campanha de 2026.
A denúncia original foi apresentada à Polícia Federal no final de 2025 pelo deputado estadual Rodrigo Farias, do PSB, aliado de João Campos, principal adversário político de Raquel Lyra na disputa pelo governo pernambucano.
A acusação descrevia uma rede de páginas e perfis que atuaria de maneira coordenada para atacar adversários da governadora e, especialmente, desgastar a imagem de João Campos.
Segundo a denúncia, parte dessa movimentação teria começado ainda durante o processo eleitoral municipal de 2024, quando Campos conquistou a reeleição para a Prefeitura do Recife.
A Polícia Federal abriu inquérito e começou a procurar elementos capazes de confirmar ou descartar a acusação.
Foi nesse trabalho que surgiu o rastro digital citado agora por Fachin.
A PF identificou uploads atribuídos ao perfil oficial da chefe do Executivo estadual e a dois perfis apontados na denúncia como integrantes da suposta rede partindo de um mesmo endereço IP vinculado a uma autarquia estadual.
O significado desse dado dependerá do restante das provas.
Os investigadores precisam determinar quais equipamentos utilizaram a conexão, quem possuía acesso a eles, quando as publicações foram realizadas e se existia coordenação entre os responsáveis pelos diferentes perfis.
Precisam também seguir o dinheiro.
A suspeita investigada é que contratos de publicidade institucional possam ter servido, direta ou indiretamente, para financiar pessoas ou estruturas responsáveis por conteúdos de natureza política.
Essa frente é particularmente importante porque estabelece a fronteira entre propaganda política e eventual utilização irregular da máquina pública.
Uma campanha pode contratar profissionais para produzir conteúdo político dentro das regras eleitorais.
Um governo pode contratar publicidade institucional dentro das normas legais.
O que não pode ocorrer é confundir deliberadamente as duas estruturas e utilizar recursos públicos para financiar clandestinamente uma campanha contra adversários.
É exatamente isso que a PF precisa determinar.
Por que o caso saiu do Supremo
A mudança de tribunal pode produzir uma interpretação equivocada de que Fachin enfraqueceu ou descartou a investigação.
Não foi isso que aconteceu.
O caso chegou ao STF porque tramitava dentro do inquérito das fake news, originalmente relatado pelo ministro Alexandre de Moraes. Uma das suspeitas investigadas era de que a suposta rede tivesse produzido ataques contra ministros do Supremo e outras autoridades.
Ao analisar o material reunido, Fachin concluiu que os elementos disponíveis não demonstravam ligação suficiente entre a estrutura investigada e uma ação destinada a enfraquecer as atribuições institucionais do STF.
Para o ministro, o núcleo da investigação está em Pernambuco.
Segundo Fachin, os elementos colhidos indicam que a utilização da rede investigada ocorreu predominantemente dentro das disputas eleitorais regionais e das articulações relacionadas ao controle político do Estado.
Essa conclusão mudou a competência judicial.
Se o centro do caso não está num ataque institucional ao Supremo, não existe justificativa para que a investigação permaneça naquela Corte. E, como uma governadora pode estar envolvida nos fatos investigados, a competência passa ao STJ.
Fachin manteve o que já havia sido produzido.
O processo muda de tribunal.
A investigação continua.
A disputa pernambucana virou também uma guerra digital
O inquérito não existe isolado do ambiente político de Pernambuco.
A campanha estadual tornou-se marcada por acusações cruzadas sobre utilização de redes de perfis, páginas anônimas, produtores de conteúdo e estruturas digitais para atingir adversários.
Aliados de João Campos acusam o governo Raquel Lyra de manter uma rede financiada com recursos públicos.
Raquel Lyra rejeita a acusação e também aponta estruturas digitais ligadas a adversários.
A governadora chegou a recorrer à Justiça para exigir que João Campos identificasse quem seriam os integrantes da suposta “milícia digital” que ele atribui ao governo estadual.
A posição de Lyra é que uma acusação dessa gravidade precisa apresentar nomes e provas.
Também houve acusações contra estruturas digitais supostamente ligadas ao campo político de João Campos. A governadora acionou a Justiça Eleitoral contra um perfil que afirma estar relacionado a um produtor de vídeos com vínculos anteriores ao PSB.
Isso mostra um cenário eleitoral no qual a disputa política passou a acontecer também por meio de redes de páginas e perfis cuja origem, financiamento e coordenação nem sempre são transparentes.
Mas existe uma diferença fundamental entre acusações de campanha e uma investigação da Polícia Federal.
No caso remetido por Fachin ao STJ, já há um inquérito formal, diligências realizadas e elementos técnicos produzidos pelos investigadores.
É isso que eleva a relevância do episódio.
O dinheiro público é a questão central
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja quantos perfis existiam nem quantas publicações foram feitas.
É saber quem pagava.
A internet tornou extremamente barato construir redes capazes de criar a impressão de apoio espontâneo ou rejeição popular. Uma estrutura relativamente pequena pode operar dezenas ou centenas de contas, republicar conteúdos de maneira coordenada e tentar fazer uma determinada narrativa aparecer como tendência orgânica.
Esse fenômeno existe em diferentes campos políticos.
A questão muda de natureza quando dinheiro público entra na equação.
Se servidores, estruturas estatais ou contratos de publicidade foram utilizados para alimentar uma operação eleitoral clandestina, o problema deixa de ser simplesmente comunicação política agressiva.
Passa a envolver patrimônio público, igualdade eleitoral e eventual abuso da máquina estatal.
Por isso o caminho financeiro da investigação será tão importante quanto o digital.
Contratos deixam documentos.
Pagamentos deixam registros.
Empresas possuem responsáveis.
Serviços contratados possuem objetos definidos.
Campanhas possuem prestações de contas.
É cruzando essas informações que os investigadores poderão descobrir se existe uma estrutura financeira por trás da rede descrita nas denúncias.
Uma investigação que chega à véspera da eleição
A decisão de Fachin tornou-se pública quando Pernambuco chega às últimas horas antes da votação deste domingo.
Isso inevitavelmente produz impacto político.
Raquel Lyra é candidata à reeleição.
João Campos é seu principal adversário.
E a denúncia que deu origem à investigação partiu do campo político ligado a Campos.
Esses fatos precisam estar todos presentes para que o eleitor compreenda o contexto completo.
A proximidade da eleição não torna a investigação menos relevante. Também não transforma suspeitas em fatos comprovados.
O que existe neste momento pode ser descrito com precisão.
A Polícia Federal investiga uma suposta rede de desinformação.
Há indícios técnicos ligando publicações de contas investigadas e o perfil oficial da governadora a um mesmo endereço IP pertencente a uma autarquia estadual.
Os investigadores apuram possível financiamento relacionado a contratos de publicidade do governo.
Fachin avaliou que os elementos disponíveis dizem respeito principalmente à disputa política pernambucana.
Por isso enviou o caso ao STJ.
E o governo Raquel Lyra nega ter mantido uma estrutura clandestina destinada a atacar adversários.
É a partir desses fatos que a investigação seguirá.
O STJ recebe agora a pergunta decisiva
A transferência do processo abre uma nova etapa.
O Superior Tribunal de Justiça passará a decidir sobre a continuidade das diligências e eventuais novas medidas investigativas relacionadas ao caso.
O trabalho agora será reconstruir uma cadeia que começa nas telas, passa pelos computadores e pode terminar nos contratos públicos.
Quem controlava os perfis?
Quem produzia os conteúdos?
Quem determinava os alvos?
Existia coordenação entre as contas?
Por que publicações diferentes utilizaram a mesma infraestrutura digital?
Quem tinha acesso a essa infraestrutura?
Houve pagamento?
De onde saiu o dinheiro?
Contratos de publicidade institucional foram utilizados?
Servidores públicos participaram?
A governadora tinha conhecimento da eventual estrutura?
São perguntas.
Ainda não respostas.
E essa distinção será fundamental num caso que emerge justamente quando os pernambucanos estão prestes a escolher seu próximo governo.
A investigação já encontrou rastros suficientes para continuar.
Agora caberá às autoridades transformar esses rastros em provas, estabelecer responsabilidades individuais ou concluir que determinadas suspeitas não se sustentam.
O eleitor fará sua escolha neste domingo.
A investigação seguirá depois das urnas.
E será no STJ que uma das questões mais graves levantadas durante a campanha pernambucana começará a ser esclarecida: se uma guerra política travada nas redes sociais permaneceu dentro dos limites da disputa eleitoral ou se recursos e estruturas pertencentes ao Estado foram utilizados para financiá-la.