Latinobarómetro mostra que 65% dos latino-americanos avaliam positivamente a influência chinesa, contra 57% dos Estados Unidos; virada histórica expõe transformação econômica de uma região que durante dois séculos foi tratada por Washington como sua área natural de influência
Da Redação
Uma mudança silenciosa, construída durante anos em portos, ferrovias, minas, redes elétricas, supermercados, celulares, automóveis e relações comerciais, acaba de aparecer com clareza na opinião pública latino-americana. Pela primeira vez na série do Latinobarómetro, a influência da China é considerada mais positiva na América Latina do que a dos Estados Unidos.
O resultado do Latinobarómetro 2026 é expressivo. Hoje, 65% dos entrevistados avaliam positivamente a influência chinesa na região, enquanto 57% fazem a mesma avaliação dos Estados Unidos. Seis anos atrás, o cenário era praticamente o inverso. Em 2020, a influência americana recebia avaliação positiva de 60% dos latino-americanos, contra apenas 48% da chinesa.
Em seis anos, portanto, a China avançou 17 pontos percentuais. Os Estados Unidos recuaram três.
Não é apenas uma oscilação estatística. É uma mudança na maneira como uma região historicamente submetida à predominância política, econômica e militar de Washington começa a enxergar a disputa entre as duas maiores potências do planeta.
A transformação não significa que os latino-americanos tenham simplesmente passado a “gostar mais” da China do que dos Estados Unidos. Quando a pergunta é sobre a imagem geral dos dois países, Washington ainda conserva vantagem. Os Estados Unidos são avaliados favoravelmente por 63% dos entrevistados, enquanto a China aparece próxima de 59%.
O dado histórico está em outro lugar.
Quando a população olha especificamente para a influência que cada potência exerce sobre a América Latina, a China passou à frente.
E isso diz muito sobre o mundo que está surgindo.
A virada aconteceu em apenas seis anos
O Latinobarómetro acompanha a opinião pública latino-americana desde 1995. A edição de 2026 ouviu mais de 19 mil pessoas em 17 países entre maio e junho, permitindo observar não apenas uma fotografia do presente, mas uma transformação ao longo do tempo.
Os números mostram duas curvas caminhando em direções opostas.
A avaliação positiva da influência chinesa passou de 48% em 2020 para 65% agora. Ao mesmo tempo, a percepção negativa sobre a China caiu de 37% para 26%.
Com os Estados Unidos ocorreu o movimento contrário. A avaliação positiva de sua influência passou de 60% para 57%, enquanto a percepção negativa cresceu de 28% para 37%.
Isso significa que a mudança não resulta apenas do desgaste americano.
Existe também uma melhora efetiva da percepção sobre a China.
E a transformação espalhou-se pelo continente. Segundo os dados divulgados, Costa Rica e República Dominicana são as exceções em que a influência americana continua sendo avaliada de maneira mais positiva que a chinesa.
Uma segunda pesquisa realizada neste ano reforça a existência dessa tendência. O Pew Research Center entrevistou mais de seis mil pessoas em Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru. Encontrou avaliações da China superiores às dos Estados Unidos em Argentina, Chile, México e Peru. No Brasil e na Colômbia, os dois países aparecem aproximadamente empatados.
São pesquisas diferentes, com perguntas e metodologias distintas. Não devem ser somadas como se fossem uma única medição.
Mas apontam para a mesma transformação estrutural: a enorme vantagem de imagem que Washington possuía sobre Pequim na América Latina diminuiu drasticamente.
A China chegou pela economia
A explicação talvez esteja menos nos grandes discursos geopolíticos do que na experiência cotidiana.
A diretora do Latinobarómetro, Marta Lagos, identifica justamente essa dimensão material. Na avaliação dela, a China ocupou um espaço deixado pela relativa ausência americana nas últimas décadas e, sobretudo, ofereceu aos latino-americanos acesso a produtos e investimentos que alteraram sua relação concreta com a potência asiática.
A presença chinesa não chegou à maioria das casas latino-americanas acompanhada por tratados militares ou discursos sobre segurança nacional.
Chegou em mercadorias.
Celulares.
Televisores.
Painéis solares.
Máquinas.
Motocicletas.
Automóveis.
Equipamentos eletrônicos.
Produtos industriais.
Ao mesmo tempo, empresas e bancos chineses passaram a financiar ou participar de projetos de infraestrutura, energia, mineração, telecomunicações e logística em diferentes países.
Essa relação está longe de ser desinteressada. A China procura mercados, matérias-primas, alimentos, energia, influência diplomática e posições estratégicas. Como qualquer grande potência, Pequim atua de acordo com seus próprios interesses nacionais.
Mas a forma pela qual esses interesses se materializaram na região produziu uma percepção diferente daquela associada historicamente aos Estados Unidos.
Para uma parcela crescente da população, a China passou a ser percebida antes de tudo como parceiro econômico.
Duas formas diferentes de exercer poder
É justamente aqui que aparece uma das dimensões mais importantes da pesquisa.
Estados Unidos e China não disputam a América Latina utilizando exatamente os mesmos instrumentos.
Washington possui uma presença histórica incomparavelmente mais profunda. Relações militares, serviços de inteligência, sistema financeiro, organismos multilaterais, empresas americanas, cultura, entretenimento, universidades e redes diplomáticas construíram durante décadas uma infraestrutura de influência que Pequim ainda não possui na mesma escala.
A China avançou por outro caminho.
Comércio.
Crédito.
Infraestrutura.
Investimentos.
Tecnologia.
Demanda por commodities.
Essa diferença não transforma automaticamente a política chinesa numa relação horizontal ou livre de contradições. Dependência de exportações primárias, impactos ambientais, condições de financiamento, competição industrial e assimetrias comerciais são questões reais que os países latino-americanos precisam discutir.
Mas a percepção popular mostra que o tipo de relação oferecido por Pequim está encontrando receptividade.
A América Latina parece distinguir cada vez mais entre uma potência que chega prioritariamente oferecendo negócios e outra cuja presença histórica na região também está associada a intervenções políticas, pressões diplomáticas e preocupações de segurança.
Essa memória histórica importa.
A sombra de dois séculos
A relação entre Washington e a América Latina sempre foi profundamente desigual.
Desde a formulação da Doutrina Monroe, em 1823, os Estados Unidos construíram progressivamente a ideia de que o hemisfério ocidental constituía uma área estratégica na qual outras grandes potências não deveriam estabelecer presença capaz de desafiar Washington.
Ao longo dos séculos XIX e XX, essa concepção assumiu diferentes formas.
Intervenções militares.
Pressões econômicas.
Apoio a governos e regimes considerados alinhados aos interesses americanos.
Operações de inteligência.
Combate a movimentos políticos vistos como ameaças durante a Guerra Fria.
Políticas de segurança hemisférica.
O mundo mudou, e seria incorreto tratar toda a política americana contemporânea como simples continuação mecânica dessas experiências. Mas a memória histórica permanece no imaginário político da região.
O retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025 adicionou uma nova camada a essa relação.
Sua administração voltou a apresentar a disputa com a China na América Latina em termos explicitamente estratégicos e passou a defender uma presença americana mais assertiva no hemisfério.
O problema revelado pelo Latinobarómetro é que Washington voltou a olhar com intensidade para uma América Latina que já não é aquela que conheceu décadas atrás.
Trump encontra outra América Latina
Um dos números mais significativos da pesquisa está diretamente relacionado ao presidente americano.
Para 55% dos latino-americanos, as políticas implementadas por Donald Trump terão impacto negativo no mundo.
Outros levantamentos realizados em 2026 também encontraram forte deterioração da imagem americana em vários países da região.
O Pew Research Center constatou que as avaliações dos Estados Unidos pioraram em cinco dos seis países latino-americanos pesquisados neste ano. Em Argentina, Chile, México e Peru, a China passou a ser vista de maneira mais favorável. Brasil e Colômbia apresentam avaliações aproximadamente equivalentes das duas potências.
Há também diferenças ideológicas importantes. No Brasil, por exemplo, pessoas que se identificam com a direita tendem a avaliar os Estados Unidos de maneira mais positiva do que aquelas identificadas com a esquerda. Com a China, ocorre o movimento inverso.
Isso mostra que a geopolítica também entrou na polarização política interna.
Mas a tendência regional ultrapassa essa divisão.
A China ganhou terreno inclusive em sociedades governadas por forças políticas muito diferentes entre si.
É justamente isso que torna a transformação relevante.
Pequim ocupou um espaço que Washington deixou aberto
Existe uma ironia histórica nesse processo.
Durante boa parte do período posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos concentraram enorme quantidade de recursos políticos, militares e diplomáticos no Oriente Médio e na Ásia Central.
Afeganistão.
Iraque.
Guerra ao terrorismo.
Oriente Médio.
Depois, a crescente disputa estratégica no Indo-Pacífico.
Enquanto Washington olhava para outras regiões, a China aprofundava silenciosamente sua presença econômica na América Latina.
Marta Lagos descreve esse período como uma fase em que os Estados Unidos estiveram relativamente ausentes do hemisfério, enquanto os países latino-americanos aprenderam a diversificar suas relações internacionais e aproximaram-se de China, União Europeia, Japão e outros parceiros.
Quando Washington voltou a tratar a América Latina como prioridade estratégica, encontrou uma região muito mais diversificada.
A China já estava instalada.
Não militarmente.
Economicamente.
E essa talvez seja a mudança fundamental.
O supermercado também é geopolítica
Existe uma tendência a imaginar geopolítica como algo restrito a presidentes, porta-aviões, embaixadas e reuniões diplomáticas.
A pesquisa mostra outra dimensão.
Geopolítica também acontece quando uma família consegue comprar um produto que antes não cabia no orçamento.
A expansão industrial chinesa colocou no mercado latino-americano enormes quantidades de produtos a preços competitivos. Para milhões de consumidores, China deixou de ser uma abstração distante e passou a estar presente no cotidiano.
Essa experiência possui consequências políticas.
Não significa que alguém que compra um celular chinês automaticamente apoie a política externa de Pequim.
Significa que relações internacionais também são julgadas por seus resultados materiais.
É nesse terreno que a estratégia chinesa demonstrou enorme capacidade de expansão.
Para o Brasil, a mudança é ainda mais estratégica
O Brasil ocupa uma posição especial nesse processo.
A China é há anos o principal parceiro comercial brasileiro e tornou-se destino fundamental para exportações de soja, minério de ferro, petróleo e diversos outros produtos. Empresas chinesas também ampliaram investimentos em energia, infraestrutura, indústria e tecnologia.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam sendo um parceiro econômico, tecnológico, financeiro e político central.
A questão brasileira, portanto, não precisa ser reduzida a uma escolha binária entre Washington e Pequim.
O interesse nacional pode estar justamente na capacidade de manter relações profundas com diferentes polos de poder sem transformar o país em satélite de nenhum deles.
Essa lógica ganha ainda mais importância num sistema internacional progressivamente multipolar.
BRICS, relações Sul-Sul, União Europeia, África, China e Estados Unidos fazem parte simultaneamente da política externa brasileira.
Autonomia significa possuir opções.
A América Latina começa a enxergar um mundo multipolar
Talvez essa seja a conclusão histórica mais importante do Latinobarómetro.
Durante grande parte do século XX, os Estados Unidos eram praticamente incontornáveis na América Latina.
Não apenas eram a potência dominante.
Para muitos países, eram a única potência externa com presença econômica, política e estratégica capaz de alterar profundamente os rumos nacionais.
Isso acabou.
Os Estados Unidos continuam extraordinariamente poderosos na região. Sua influência econômica, financeira, cultural, tecnológica, diplomática e militar permanece enorme.
Mas já não estão sozinhos.
A China tornou-se uma alternativa econômica concreta.
A União Europeia continua relevante.
Potências médias ampliam relações.
Os próprios países latino-americanos procuram diversificar parceiros.
A população percebe essa mudança.
É isso que os números revelam.
Não estamos diante de uma América Latina que simplesmente abandonou os Estados Unidos para aderir à China. A própria pesquisa impede essa simplificação, já que os americanos ainda mantêm melhor imagem geral.
O que está desaparecendo é algo diferente.
A ideia de exclusividade.
Washington já não possui o monopólio da influência externa positiva na região.
E Pequim, pela primeira vez, passou à frente justamente no indicador que mede essa influência.
A diferença entre 65% e 57% pode parecer apenas oito pontos numa pesquisa.
Historicamente, representa muito mais.
Significa que, dois séculos depois de a Doutrina Monroe transformar o hemisfério numa peça central da estratégia americana, a população latino-americana começa a enxergar com maior simpatia a influência da potência que Washington considera seu principal concorrente estratégico.
A China não conquistou a América Latina.
Os Estados Unidos não perderam a América Latina.
O que mudou é que a região passou a ter escolha.
E talvez seja justamente essa possibilidade de escolher parceiros, negociar com diferentes centros de poder e recusar a lógica de uma única potência dominante que constitua a transformação geopolítica mais importante revelada pelo Latinobarómetro 2026.