A jornalista Neide Duarte, que trabalhou por décadas na Globo e passou por alguns dos principais telejornais da emissora, criticou publicamente a condução da entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Jornal Nacional.
Em publicação nas redes sociais, Neide afirmou que a emissora estaria novamente empenhada em uma “batalha para derrubar Lula” e questionou o espaço dado durante a sabatina a informações relacionadas a uma investigação da Polícia Federal.
A manifestação foi publicada após a participação de Lula no programa Entrevista com o Candidato, conduzido pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos. O presidente foi entrevistado no contexto da cobertura eleitoral, e parte da conversa abordou suspeitas relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente.
Para Neide, entretanto, a abordagem adotada pelos entrevistadores teria privilegiado elementos ainda não comprovados em detrimento das propostas apresentadas pelo candidato. “A metade da entrevista foi sobre pedaços de frases, fotografias, suspeitas, nenhuma prova”, escreveu a jornalista.
A crítica se concentrou especialmente no uso de informações provenientes de uma investigação policial. Neide questionou se trechos de informações atribuídas à Polícia Federal poderiam ser tratados como evidências definitivas e ironizou a classificação da abordagem como “jornalismo investigativo”.
A jornalista também levantou questionamentos sobre a própria atuação das autoridades envolvidas na apuração. “Todos os policiais da Polícia Federal são incorruptíveis???? Vocês garantem???”, escreveu.
A manifestação não apresenta, contudo, evidências de que a Globo tenha adotado deliberadamente uma estratégia institucional para prejudicar Lula. A afirmação de que existiria um “plano” aparece como interpretação e acusação feita pela própria jornalista a partir da forma como ela avaliou a entrevista.

Neide questiona espaço dado às suspeitas sobre Lulinha
Um dos principais pontos levantados por Neide Duarte foi a investigação envolvendo Fábio Luís. Segundo ela, a quebra de sigilo bancário determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, não teria encontrado elementos que comprovassem as suspeitas levantadas contra o filho do presidente.
“O Mendonça quebrou o sigilo bancário do Fabio Luis em janeiro e não encontrou NADA. Mas vocês continuam nessa batalha para derrubar Lula. Descaradamente agora”, afirmou.
A jornalista também criticou a repercussão posterior da entrevista nos canais de notícias da Globo. Segundo Neide, a programação teria dedicado tempo excessivo justamente aos trechos relacionados às suspeitas, enquanto as respostas de Lula sobre questões de governo teriam recebido menos atenção.
“Tudo o que Lula tentou dizer sobre Brasil, educação, economia, segurança, parece que a maior emissora de TV do país não deu nenhuma importância”, escreveu.
Para ela, a cobertura teria deixado em segundo plano as propostas apresentadas pelo presidente e candidato à reeleição.
A questão ganha peso no caso de Lula pela trajetória da relação entre o presidente e a Globo. Ao longo de diferentes períodos eleitorais, a cobertura da emissora já foi objeto de críticas tanto de setores da esquerda quanto de outros grupos políticos.
A crítica recupera uma discussão histórica sobre o papel da imprensa brasileira em períodos eleitorais: até que ponto a cobertura jornalística deve concentrar-se na investigação de denúncias e suspeitas envolvendo candidatos, e em que momento essa abordagem pode acabar determinando a própria agenda eleitoral?
Em sua manifestação, Neide encerrou a crítica relacionando a atuação da imprensa ao risco de uma nova ascensão da extrema direita no país. “Se este país cair outra vez nas mãos da extrema direita estúpida, inimiga da educação, da cultura, dos projetos sociais, nós, brasileiros, saberemos identificar os responsáveis por isso”, escreveu.
A crítica ganha repercussão adicional pela trajetória profissional de sua autora. Neide Duarte entrou na Globo em 1980 e permaneceu na emissora até 1996. Ao longo desse período, trabalhou em programas como Jornal Nacional, Globo Rural, Bom Dia Brasil, Jornal Hoje e SPTV, além de atuar como repórter especial do Globo Repórter e do Fantástico. Ela também passou pelo SBT e pela TV Cultura antes de retornar à Globo em 2005. Permaneceu na emissora até 2022.