Ex-embaixador vê interferência indireta dos EUA

A suspensão dos serviços presenciais da Embaixada e dos consulados dos Estados Unidos no Brasil, dois dias antes do primeiro turno das eleições, pode representar uma forma indireta de interferência no processo eleitoral brasileiro, segundo o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa.

Em entrevista ao UOL News nesta sexta-feira (2), Barbosa afirmou que a decisão americana, anunciada sob a justificativa de “questões de segurança”, produz uma mensagem de insegurança em um momento politicamente sensível.

“(…) Desde o começo eu falei que acreditava que iria haver uma interferência direta ou indireta dos Estados Unidos na eleição aqui no Brasil. Não só do governo como de empresas americanas. Isso aconteceu em todos os países aqui da região e o Brasil não ia ser uma exceção. Então, acho que isso talvez seja uma maneira indireta de interferir nas eleições”, disse.

Para o ex-embaixador, o fechamento das representações diplomáticas pode contribuir para a percepção de que o Brasil atravessa uma situação de instabilidade. Barbosa, contudo, afirmou não acreditar que a medida tenha capacidade de alterar diretamente o voto dos brasileiros.

“Ela passa a ideia de que há um clima de insegurança na sociedade brasileira, o que não é verdade. (…) Essa decisão de fechar o consulado hoje é uma interferência indireta que, na minha opinião, não tem nenhuma influência na eleição, no voto dos eleitores brasileiros”, afirmou.

EUA alegam segurança, mas PF não confirma ameaça

Nesta sexta-feira, os Estados Unidos anunciaram a suspensão dos serviços consulares presenciais em sua embaixada em Brasília e nos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre. O governo americano não divulgou publicamente qual ameaça ou situação específica motivou a decisão.

Segundo a representação diplomática, a medida foi adotada devido a “preocupações com a segurança”. Cidadãos americanos foram orientados a não comparecer às instalações diplomáticas e, em casos emergenciais, a procurar os oficiais de plantão. O Departamento de Estado afirmou que trabalha em cooperação com as autoridades brasileiras.

Pouco depois do anúncio americano, a Austrália também fechou sua embaixada e consulados no Brasil por razões de segurança. Em seu alerta oficial, o governo australiano recomendou que seus cidadãos evitassem instalações diplomáticas americanas e áreas próximas.

“Em 2 de outubro, EUA emitiram um alerta de segurança para evitar instalações diplomáticas dos EUA devido a preocupações com a segurança. Também recomendamos evitar a embaixada dos EUA, os consulados e outras instalações diplomáticas dos EUA no Brasil e nas áreas adjacentes”, disse a embaixadora australiana no Brasil, Sophie Davies, em nota divulgada nas redes sociais.

Observadores internacionais e disputa pelo resultado

Na entrevista, Barbosa também relacionou o cenário à possibilidade de questionamentos sobre o resultado eleitoral. Segundo ele, uma eventual contestação poderia ser alimentada pelo ambiente de desconfiança criado em torno do processo.

“A comunidade internacional está acompanhando muito de perto, de maneira independente, o processo eleitoral. (…) O que o governo brasileiro pode fazer é invocar o testemunho dessas organizações independentes internacionais”, afirmou.

A declaração ocorre em meio a outras controvérsias envolvendo a atuação do governo dos Estados Unidos no Brasil. O governo brasileiro recebeu com preocupação e desconfiança a suspensão dos serviços consulares, enquanto a Advocacia-Geral da União solicitou investigação da Polícia Federal sobre informações de que recursos americanos teriam sido destinados a um projeto relacionado ao combate à censura e ao chamado lawfare no Brasil.

Nesta sexta, a Polícia Federal informou que cumpriu dois mandados de busca e apreensão em São Paulo e no entorno do Distrito Federal dentro de uma investigação sigilosa, realizada em cooperação com agências estrangeiras.

Até o momento, porém, a corporação não encontrou elementos que confirmem um planejamento de ataques contra instalações diplomáticas dos Estados Unidos. Também não foram identificados suspeitos ligados a organizações criminosas, conforme informações da Folha de São Paulo.

As investigações continuam com a análise de equipamentos e mídias apreendidos. A PF informou que novas providências poderão ser adotadas conforme o resultado da apuração. A proximidade entre as medidas dos dois países ocorre em meio à crescente discussão sobre possível interferência externa nas eleições brasileiras.

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