O ator Juliano Cazarré, conhecido por seus posicionamentos conservadores e pela proximidade com o bolsonarismo, anunciou a realização do evento presencial “O Farol e a Forja”, apresentado como o “maior encontro de homens do Brasil”. Previsto para acontecer no mês de julho, em São Paulo, o projeto gerou uma onda imediata de críticas de colegas de profissão, ativistas e do público nas redes sociais — e reacendeu um debate urgente sobre masculinidade, violência de gênero e os limites do discurso conservador no país.
A postagem de divulgação, publicada pelo próprio ator em suas redes sociais, adota um tom marcadamente messiânico. Em terceira pessoa, o texto afirma que Cazarré “vê homens perdidos, famílias se desfazendo” e que a sociedade “enfraqueceu os homens e está pagando o preço por isso”. A programação está organizada em três eixos: vida profissional e legado, vida pessoal — incluindo paternidade, virtudes e hábitos — e a chamada “vida interior”, com foco em espiritualidade cristã e celebração de uma missa.
Não por acaso, o evento foi rapidamente associado à ideologia red pill (“pílula vermelha”) — movimento digital que defende que os homens precisam “despertar” para um mundo que os estaria prejudicando em favor das mulheres.
Movimento Red Pill
Originado em fóruns como Reddit e 4chan nos anos 2000 a partir de uma metáfora do filme Matrix, o movimento chegou ao Brasil na década seguinte e hoje se dissemina por influenciadores que se apresentam como “coaches de masculinidade”.
Para os chamados redpillers, os homens perderam espaço e poder social diante das conquistas femininas nas últimas décadas e precisariam agir de forma estratégica para “retomar sua posição natural”. O grupo valoriza traços considerados tradicionalmente masculinos — força, liderança, controle emocional — critica o feminismo como uma ideologia que teria “ultrapassado sua função” e promove a figura do “macho-alfa” como modelo ideal de comportamento.
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Especialistas em psicologia, educação e estudos de gênero alertam que o conteúdo red pill distorce a percepção de jovens sobre relações humanas, romantiza comportamentos autoritários, retrata mulheres como manipuladoras e alimenta discursos de ódio. Além disso, sua relação com o aumento da violência contra a mulher é tema de crescente preocupação entre pesquisadores.
A indignação da classe artística
A reação ao anúncio de Cazarré foi imediata. A atriz Marjorie Estiano foi direta: “Juliano, você não criou. Você só está reproduzindo em maior ou menor grau, na verdade, um discurso que já é ampla e profundamente difundido, enraizado e que mata mulheres todos os dias.”
A atriz Claudia Abreu resumiu o problema em poucas palavras, evocando o contexto brasileiro: “Num país com recorde de feminicídios…” A frase, curta e precisa, concentra a crítica central ao evento: falar em “enfraquecimento dos homens” num país onde mulheres são assassinadas todos os dias por razões de gênero é, no mínimo, uma inversão grotesca de prioridades.
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A poeta e atriz Elisa Lucinda também se manifestou, classificando o projeto como um retrocesso. Lucinda afirmou que a proposta representa um “tamanho atraso no pensar” e que Cazarré estaria “indo na contramão dos avanços do mundo”.
O ator Paulo Betti ironizou o tom grandioso da campanha de divulgação: Betti observou que Cazarré carrega “tanto convencimento que se refere a si na terceira pessoa como se fosse uma entidade”. Álamo Facó foi além e comparou o comportamento do colega ao do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Já Betty Gofman chamou Cazarré de “criatura incompreensível”, enquanto Julia Lemmertz pediu que “Deus tenha piedade dessa nação”.
Cazarré não recua
Diante das críticas, o ator adotou um tom de enfrentamento. Em suas publicações, afirmou que “já foi cancelado várias vezes” por suas posições e indicou que não pretende recuar diante das críticas. Em entrevista, rejeitou rótulos políticos e criticou a polarização, dizendo haver uma tendência de tratar adversários como inimigos.
A postura é reveladora. Ao enquadrar a própria iniciativa como um ato de coragem contra o “cancelamento”, Cazarré utiliza um recurso comum no repertório conservador: transformar a crítica legítima em perseguição, e a contestação em censura. O discurso de que “ele sabia que ia apanhar — e criou o evento mesmo assim” está estampado nos próprios materiais de divulgação, como se a polêmica fosse parte da estratégia.
O evento de Cazarré emerge num momento em que o Brasil registra índices alarmantes de feminicídio e em que discursos que reforçam papéis rígidos de gênero encontram audiência crescente entre homens mais jovens, especialmente nas plataformas digitais. Falar em “desamparo da figura masculina” sem qualquer referência à crise de violência que atinge as mulheres brasileiras não é neutralidade — é escolha política.
O debate não foi unânime. Parte do público e algumas figuras conhecidas saíram em defesa de Cazarré, elogiando a iniciativa e interpretando as críticas como tentativas de censura. Os seguidores cristãos do ator defendem o movimento como expressão legítima de fé e valores tradicionais.
O evento segue confirmado. E o embate em torno de suas propostas — longe de ser apenas uma briga de famosos nas redes sociais — toca em questões que o Brasil ainda está longe de resolver.