O governo Donald Trump chantageou a diplomacia brasileira com a oferta de alívio no tarifaço, na época, de 50%, em troca de informações antecipadas sobre as terras raras e minerais críticos do Brasil. Como o governo Lula não se curvou a essa nova tentativa de ataque à soberania, os Estados Unidos retomaram, em julho de 2026, as tarifas comerciais sobre parte dos produtos que importam daqui.
A proposta norte-americana visava obter informações privilegiadas de negociações de ativos minerários brasileiros, cruciais para a indústria tecnológica mundial, como forma de se posicionar contra a China, que domina a experiência de processamento de minerais estratégicos. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta, somente atrás da própria China, que é o nosso maior parceiro comercial desde 2009.
De acordo com apuração do Estadão, além de condicionar a retirada do tarifaço contra o Brasil a uma oferta de concorrência desleal por meio de informações privilegiadas sobre a área de mineração, os EUA incluíram outros requisitos que passam pelo Pix e ações para atingir o governo de Pequim.
Recusa
Segundo o jornal, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, negou discutir a proposta e indicou que não fosse apresentada na reunião que teria com eles, pois seria recusada. Vieira esteve em reunião com o representante comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, e com o secretário de Estado, Marco Rubio, em outubro de 2025, nos EUA. Na ocasião, a diplomacia nacional recebeu a lista com 21 exigências, conforme o documento obtido pelo jornalista Felipe Frazão.
As condições indecentes e fora da legalidade apresentadas pela Casa Branca foram recusadas pelo Brasil, que ofereceu uma contraproposta não respondida.
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O presidente Lula tem sido enfático em dizer que as terras raras brasileiras são patrimônio nacional e que os bolsonaristas que tentam negociá-las com os EUA, colocando em risco nossas riquezas e a democracia, são traidores da pátria.
Para ter maior respaldo e proteção no setor, nesta semana o presidente sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A iniciativa prevê R$ 7 bilhões para beneficiar, separar, refinar e transformar terras raras nacionais.
Chantagem
Na lista com 21 tópicos para chantagear o Brasil, consta que o País deveria informar aos Estados Unidos, antecipadamente, “sobre potenciais transferências de ativos antes de uma venda no setor de mineração/minerais críticos e deverá proporcionar às empresas dos EUA a oportunidade de participar de um processo de licitação justo antes da concessão de aprovação regulatória brasileira.”
Para completar, indica que o Brasil também deveria “limitar investimentos de entidades estrangeiras consideradas preocupantes em seus setores de mineração e outros setores industriais”. Uma evidente movimentação para barrar países como a China de participar de processamento mineral no Brasil.
Ataque contra o Pix e imposição de produtos dos EUA
No documento, a proposta norte-americana, sem citar diretamente o Pix, ataca o sistema de pagamentos ao colocar que o Brasil deveria “abster-se de impor impostos sobre serviços digitais, ou impostos semelhantes, que discriminem empresas dos EUA”.
Ainda por cima, indica que o País deve “aderir ao princípio da neutralidade competitiva no que diz respeito ao papel do Banco Central (BC) tanto como regulador e supervisor dos arranjos de pagamento quanto como operador do sistema de pagamentos doméstico”. É importante destacar que o Pix é controlado pelo BC.
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Sobre uma tentativa de imposição de abertura irrestrita do mercado nacional aos produtos dos EUA, é colocado que o Brasil deveria eliminar as tarifas sobre etanol, produtos químicos, máquinas, produtos automotivos e bens de alta tecnologia, assim como não impor proibições à importação de bens remanufaturados.
Também é dito que o Brasil não pode restringir o acesso a produtos norte-americanos que contenham carne e queijo. Ainda é tratado sobre um possível comprometimento de compra de aeronaves da Boeing.
China
A imposição da lista de comprometimento traz em foco a China. A tentativa de intervenção nas terras raras brasileiras, para impedir o avanço do gigante asiático, não é o único ponto tratado.
O documento dos EUA (sem citar diretamente os asiáticos) ainda traz referências ao combate à pesca ilegal, na qual acusa os chineses, à estabilização do mercado mundial de soja e à regulação da produção global de aço.
Todas as situações dizem respeito à disputa China-EUA, seja pela liderança tecnológica ou pela comercialização de produtos (os chineses são os maiores importadores mundiais de soja e os maiores produtores globais de aço).
Eleições
A possibilidade de intervenção de Washington nas eleições brasileiras de 2026 é amplamente aventada não por acaso.
Sem contar as conhecidas ingerências da família Bolsonaro junto ao governo Trump e o tratamento comercial e diplomático dispensado ao Brasil, mais uma prova de que os EUA estão de olho no pleito apareceu com a lista de “exigências” exposta.
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Dentre os 21 tópicos, um chama a atenção nesse sentido: “O Brasil deverá comprometer-se com uma eleição presidencial livre e justa em 2026 e não deverá deter, prender arbitrariamente ou de outra forma limitar a participação no processo eleitoral de dissidentes políticos.”
A falsa insinuação de que há perseguição política mostra que o terreno para uma possível tentativa de desestabilização eleitoral já estava sendo semeado desde o ano passado.
Nova tentativa
Mesmo com os termos propostos recusados, os EUA não desistiram. Em janeiro de 2026, o governo Trump voltou a apresentar exigências ao Brasil nas negociações sobre o tarifaço.
Em uma segunda proposta de acordo, enviada por Greer ao chanceler Mauro Vieira, Washington voltou a pedir a retirada das tarifas brasileiras sobre o etanol americano e sobre produtos industriais dos EUA, como químicos, veículos e autopeças, produtos médicos e frutos do mar. Também exigiu medidas para limitar investimentos estrangeiros em setores considerados estratégicos, como mineração e refino.
De forma paralela, a Casa Branca cobrou a revisão da venda das operações de níquel da Anglo American no Brasil à MMG Singapore Resources, subsidiária de um grupo estatal chinês, em um negócio de US$ 500 milhões.
Volta das negociações
Mesmo com essa tentativa de chantagem, totalmente descartada pelo Brasil, os ministros brasileiros mantêm abertas as negociações para reverter o tarifaço, que chega a uma taxação acumulada de até 37,5% para alguns setores.
Neste mês de setembro, Brasil e Estados Unidos retomam as negociações. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, o chanceler Mauro Vieira e o representante comercial dos EUA terão uma reunião presencial entre 30 de setembro e 1º de outubro, às margens de uma reunião preparatória do G20, nos Estados Unidos. Será a primeira reunião presencial entre representantes dos dois países desde a retomada das negociações.