EUA e China avançam na gestão do comércio e abrem diálogo sobre IA, por Samuel Spellmann

EUA e China avançam na gestão do comércio e abrem diálogo sobre Inteligência Artificial

por Samuel Spellmann

Reunião de oito horas entre He Lifeng e Scott Bessent, em Nova York, produziu avanços institucionais para a redução seletiva de tarifas, manteve em negociação a trégua comercial e inaugurou um canal bilateral dedicado aos riscos da IA. Questões estruturais, como terras raras e controles tecnológicos, permanecem sem solução.

A rodada de consultas econômico-comerciais realizada em Nova York no domingo, 20 de setembro, entre o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng e o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, representou mais um movimento de institucionalização da complexa relação econômica entre as duas maiores economias do mundo. De maneira simbólica, o encontro ocorreu na sede global do JPMorgan Chase. Estendendo-se por cerca de oito horas, o diálogo entre as partes também contou, do lado norte-americano, com o representante de Comércio Jamieson Greer e, do lado chinês, com o principal negociador comercial para a Republica Popular da China, Li Chenggang.

A reunião procurou preparar decisões a serem submetidas aos presidentes Donald Trump e Xi Jinping e consolidar mecanismos permanentes para administrar uma relação que continua marcada simultaneamente por interdependência econômica e competição estratégica.

Os resultados na comunicação oficial são, de certa maneira, reveladores. Bessent classificou a reunião como “muito bem-sucedida”, enquanto o comunicado oficial chinês adotou fórmula mais cautelosa, registrando conversas “francas, aprofundadas e construtivas” sobre comércio, investimento e a implementação dos consensos anteriormente alcançados.

Do confronto tarifário à administração seletiva do comércio

O principal resultado propriamente econômico foi o avanço na operacionalização do chamado U.S.-China Board of Trade, mecanismo bilateral concebido pelos dois governos para administrar o comércio de produtos considerados não sensíveis. A estrutura havia sido acordada durante a visita de Trump à China, em maio deste ano, mas dependia de regulamentação e de definição concreta dos produtos abrangidos. Em Nova York, as equipes avançaram no trabalho destinado a identificar mercadorias que poderão receber reduções tarifárias recíprocas.

A concepção é significativa porque não representa um retorno ao paradigma de liberalização comercial ampla que caracterizou décadas anteriores. Trata-se, ao contrário, de uma forma de comércio administrado, permitido por entendimento mútuo entre as partes. Washington e Pequim procuram separar bens considerados economicamente negociáveis daqueles classificados como estratégicos ou relacionados à segurança nacional. O desenho divulgado pelo governo norte-americano prevê a possibilidade de modificações tarifárias sobre volumes equivalentes de importações de produtos não sensíveis, acompanhadas de monitoramento dos resultados.

Segundo autoridades norte-americanas, as categorias em exame incluem bens de consumo e outros produtos de menor sensibilidade estratégica, além de mercadorias agrícolas, produtos energéticos e equipamentos médicos. Não houve, contudo, anúncio de uma lista definitiva nem de novas alíquotas tarifárias. O que se pode ver é que o avanço ocorrido em Nova York é essencialmente institucional. O instrumento negocial passou a ter um caminho operacional mais definido, mas as concessões tarifárias concretas ainda dependem de ajustes adicionais.

Esse movimento tem relevância econômica precisamente porque procura introduzir previsibilidade em uma relação comercial submetida, desde 2025, a sucessivas rodadas de tarifas, suspensões, exceções e negociações. Para empresas norte-americanas e chinesas, um regime claramente delimitado para mercadorias não estratégicas pode reduzir parte do custo regulatório e da incerteza associados às cadeias bilaterais. Ao mesmo tempo, preserva-se a possibilidade de restrições severas nos setores que os governos consideram vinculados à segurança nacional.

A trégua tarifária continua em aberto

Um dos temas de maior importância econômica não foi resolvido. A atual trégua comercial entre Estados Unidos e China, que expira em 10 de novembro, foi discutida, mas a reunião não produziu confirmação pública de sua prorrogação. Bessent afirmou nesta segunda-feira que a matéria esteve sobre a mesa, sem anunciar novo prazo.

Esse ponto delimita o alcance dos resultados do fim de semana. A reunião diminuiu a distância entre as partes em questões procedimentais, porém não eliminou o risco de uma nova escalada tarifária caso Washington e Pequim não alcancem entendimento antes de novembro. Há, portanto, duas camadas distintas no processo: uma destinada a construir comércio seletivamente facilitado por meio do Board of Trade; outra, mais ampla, relativa à manutenção da trégua que impede o retorno imediato de medidas tarifárias mais agressivas.

Também permaneceram sem solução pública as divergências sobre terras raras e minerais críticos. O fluxo de ímãs de terras raras chineses para os Estados Unidos continua sendo uma preocupação de Washington, especialmente porque esses insumos são essenciais para indústrias automobilística, eletrônica, energética e de defesa. A questão estava na agenda da reunião, mas nenhuma nova garantia de fornecimento ou mudança no sistema chinês de licenciamento foi anunciada ao seu término.

Nesse aspecto, a reunião confirma uma característica mais ampla das atuais negociações: produtos de alta relevância estratégica permanecem fora da zona de liberalização mais simples. O diálogo econômico avançou justamente onde a separação entre comércio ordinário e segurança nacional é mais tangível. O entendimento mútuo a respeito de mercadorias estratégicas segue, portanto, para negociações posteriores.

Compras agrícolas, Boeing e investimento: continuidade, não novo pacote

Neste domingo também não foi anunciado um novo grande pacote de compras chinesas de produtos norte-americanos. Isto difere do fórum realizado em maio em Pequim, ocasião em que o governo chinês havia assumido compromissos relacionados a produtos agrícolas e à aquisição inicial de 200 aeronaves Boeing, além de medidas referentes ao acesso de carne bovina e aves norte-americanas ao mercado chinês.

Após a reunião de Nova York, o representante de Comércio Jamieson Greer afirmou que a China vinha avançando na finalização do compromisso referente às 200 aeronaves, mas não indicou a proximidade de pedidos adicionais. A Reuters informou igualmente que as negociações do fim de semana não produziram novo avanço substancial em compras adicionais de produtos agrícolas ou aeronaves.

O investimento bilateral também integrou a discussão mais ampla. Pequim afirmou oficialmente que as delegações trataram de formas de promover comércio e investimento entre os dois países, mas não foi divulgado um novo acordo específico nessa matéria. 

Inteligência Artificial entra formalmente na mesa bilateral

A novidade de maior alcance estratégico foi a abertura de um diálogo específico entre Estados Unidos e China sobre Inteligência Artificial. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos Scott Bessent anunciou que as partes concordaram em estruturar o Diálogo China-EUA sobre IA (U.S.-China AI Dialogue), destinado inicialmente a identificar riscos compartilhados e estabelecer mecanismos de comunicação para incidentes de IA que possam alcançar dimensão de segurança nacional.

Washington propôs um sistema bilateral de notificação mútuo – uma linha para comunicar incidentes graves –, e as partes já concordaram em realizar nova rodada de discussões em aproximadamente dois meses, em Shenzhen. A intenção declarada é começar a definir percepções comuns sobre perigos como agentes de IA e a utilização da tecnologia por agentes cibernéticos não estatais.

É igualmente importante observar os limites da iniciativa. O representante de Comércio Jamieson Greer afirmou que os controles norte-americanos de exportação de chips avançados e equipamentos para fabricação de semicondutores não fizeram parte desse diálogo, de modo que a competição tecnológica central entre os dois países permanece intacta.

A criação desse canal é economicamente relevante porque a IA já não aparece apenas como questão tecnológica ou militar. Ela afeta produtividade, investimentos em infraestrutura, semicondutores, energia, serviços financeiros, computação em nuvem e a organização futura das cadeias globais de valor.

Ao inaugurar uma negociação específica sobre riscos sem, ao mesmo tempo, incorporar os controles de exportação de chips, Washington e Pequim parecem ensaiar uma separação entre dois planos: cooperação limitada na administração de riscos sistêmicos e competição preservada pelo domínio tecnológico.

Esse arranjo também evidencia uma transformação na diplomacia econômica. Os mecanismos clássicos de comércio bilateral já não são suficientes para administrar relações entre economias nas quais tecnologia, segurança nacional e atividade privada se confundem cada vez mais. A inclusão formal da IA no diálogo conduz a relação econômica sino-americana para uma área que, até recentemente, permanecia predominantemente submetida à competição unilateral e às restrições nacionais.

Uma estabilização seletiva, não uma normalização plena

O resultado agregado da reunião deve, portanto, ser lido com atenção. Houve avanço nas negociações estratégicas entre China e EUA. Este avanço, entretanto, ocorreu sobretudo na arquitetura de gestão da relação, e não na resolução das divergências estruturais.

De um lado, Estados Unidos e China deram continuidade à operacionalização de um espaço para redução recíproca de tarifas sobre bens não estratégicos; mantiveram canais técnicos de negociação; ampliaram a discussão sobre comércio e investimento; e criaram um canal inédito para Inteligência Artificial. De outro, não houve acordo anunciado sobre a prorrogação da trégua tarifária, tampouco solução pública para as tensões envolvendo terras raras, controles tecnológicos ou novas compras agrícolas em grande escala.

O desenho que emerge é, assim, de estabilização seletiva. As duas potências procuram reduzir o risco de choques econômicos sem eliminar os instrumentos empregados na competição estratégica.

A reunião também funcionou como preparação imediata para a próxima etapa diplomática. Quase de passagem, mas com evidente significado político, Pequim confirmou nesta segunda-feira que Xi Jinping realizará visita de Estado aos Estados Unidos de 23 a 25 de setembro, a convite de Donald Trump. A expectativa é que vários dos pontos amadurecidos pelas equipes de He Lifeng e Bessent sejam agora elevados ao nível presidencial.

Samuel Spellmann – Programa de Pós-Graduação em Economia – Universidade Federal do Pará

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