“Estou do lado certo da história”: palestina sancionada por Trump que vive no Brasil fala ao DCM

Rawa Alsagheer

O DCM conversou com Rawa Alsagheer, cineasta, ativista e militante palestina que vive no Brasil e atua na defesa da causa palestina e dos direitos dos presos políticos palestinos e que recentemente foi alvo de sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos.

O governo Trump a classificou como “terrorista” e adotou medidas contra ela em razão de sua atuação na coordenação da Samidoun e de sua participação no comitê executivo do Masar Badil. Zaid Abdulnasser, outro dirigente do movimento que vive na Alemanha, também foi sancionado.

A Samidoun (Rede de Solidariedade aos Prisioneiros Palestinos) é uma organização internacional fundada em 2011 que atua em prol de prisioneiros palestinos em prisões israelenses. Masar Badil, ou Movimento Palestino pelo Caminho Revolucionário Alternativo, é um movimento internacional pró-Palestina criado em 2021.

Filha de um refugiado palestino expulso de Haifa durante a Nakba, entre 1947 e 1948, Rawa nasceu em um campo de refugiados na Síria. Sua trajetória pessoal é marcada pelo deslocamento forçado de sua família e, posteriormente, pela guerra civil síria.

As medidas contra Rawa foram anunciadas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), órgão vinculado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, com base na legislação norte-americana de combate ao terrorismo. Com isso, eventuais bens ou recursos dos sancionados sob jurisdição dos Estados Unidos podem ser bloqueados, e cidadãos e empresas norte-americanas ficam sujeitos a restrições para realizar transações com os alvos das sanções.

Rawa reagiu à decisão afirmando estar “do lado certo da história”. Para ela, as classificações impostas pelo governo norte-americano fazem parte de uma ofensiva contra movimentos e vozes que desafiam o imperialismo e defendem a libertação palestina.

“Essas classificações estão sendo utilizadas pelos imperialistas contra as vozes e os movimentos que estão realmente incomodando, que estão trabalhando para uma revolução e uma unificação popular”, afirma. “Eles podem colocar sanções e considerar o que quiserem, mas no final sabemos que estamos corretos e do lado certo da história.”

A ativista afirma não possuir vínculos financeiros com os Estados Unidos ou outros países e diz trabalhar de forma autônoma no Brasil, utilizando instituições bancárias brasileiras. Após ser demitida do Museu da Imigração do Estado de São Paulo, em novembro de 2023, passou a dar aulas de árabe.

Ela também relatou ter sofrido tentativas de invasão de seu computador e afirmou ter sido banida de redes sociais, o que, segundo ela, afetou sua principal fonte de renda. Para Rawa, as sanções e outras medidas representam uma tentativa de atingir sua atuação política e sua militância em defesa da Palestina.

AS SANÇÕES DOS ESTADOS UNIDOS

Primeiramente, agradeço por abrir essa oportunidade para eu conseguir também explicar a situação e falar sobre o que está acontecendo. Na quarta-feira eu recebi pelo grupo do movimento que isso (a sanção) saiu no Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Então, eu estou tendo uma crise de riso até hoje, até agora, na verdade, porque não estou entendendo o objetivo disso, nem estou entendendo o que eles querem, porque eu moro no Brasil há 11 anos, eu trabalho no Brasil, não tenho nenhum vínculo relacionado aos Estados Unidos.

PERSEGUIÇÃO POLÍTICA E REDES SOCIAIS

Comecei a receber e-mails me acusando de terrorismo e antissemitismo. Depois disso, houve uma grande campanha da extrema direita no Brasil, me difamando, caluniando, expondo a minha foto e o meu trabalho nas suas redes. E isso levou a que, depois de um mês, exatamente no dia 7 de novembro de 2023, eu estivesse na sala do RH sendo demitida do meu trabalho. Depois disso, em abril deste ano, também aconteceu a coisa mais recente: eu fui banida das redes sociais. Hoje em dia, eu vivo sem redes sociais, sou banida, não consigo nem ter redes sociais.

Durante esses três anos eu sofri muita perseguição da extrema direita, muita exposição também nas redes sociais, muita difamação, muita calúnia. Ficam falando coisas aleatórias sobre mim e tentando o máximo possível me calar como uma ativista palestina, como uma mulher palestina. E também isso gera o fato de que eu acho que incomodo um pouquinho mais, porque eles gostam de explorar a ideia e a imagem sobre uma pessoa palestina, que seria um homem com uma barba.

A VINDA PARA O BRASIL

Na verdade, até colocaram a data errada. Eu cheguei aqui em 2015, não em 2014, e depois de um mês começou o golpe contra Dilma. Então, o governo Dilma já não estava no auge para aceitar ou não, mas o Brasil fez um acordo pelo qual recebe refugiados palestinos e refugiados sírios depois da revolução síria.

Eu, como uma pessoa palestina refugiada, nascida na Síria, sou filha de sobrevivente da Nakba. Meu pai nasceu em Haifa, em 1940, e foi refugiado para a Síria. Pela lei da Síria, pela lei da ONU, eu nasci como refugiada da Palestina para ter o meu direito de retornar para a minha terra, porque esse direito é reconhecido pela ONU, que é a Resolução 194, de 1948.

Então, em 2014, eu saí da Síria para a Turquia, tentando ir nos barcos da morte para a Europa, sozinha. Meus irmãos estavam cada um em um lugar diferente pelo mundo e nós decidimos nos encontrar no Brasil porque foi o único lugar que aceita o nosso passaporte, que é o documento de viagem para palestinos sírios.

O Brasil sempre foi um país aberto para as migrações e o refúgio. E quem está falando isso? Eu só queria lembrar a eles que eles vieram e colonizaram o Brasil em primeiro lugar. Então, não fui eu. Eu estou aqui como refugiada. O Brasil todo é construído em cima da colonização, em cima do massacre dos indígenas. E todos nós somos migrantes no momento em que os indígenas não têm as suas dignidades e os seus direitos resguardados pelo governo brasileiro. Então, ninguém aqui é legal ou foi recebido ou aceito por um governo, porque o Brasil é construído em cima da colonização.

ATUAÇÃO POLÍTICA E THIAGO ÁVILA

Eu estou aqui como uma refugiada, torcendo para que o presidente Lula ganhe de novo, porque a gente sabe que, se a extrema direita assumir, não só nós, refugiados, vamos ser afetados, mas também toda a população brasileira, porque a gente viu, durante o mandato do Bolsonaro, o que aconteceu no Brasil, né?

E o meu nome estar relacionado a essas três pessoas, com muito orgulho: eu conheço o Zaid e o Thiago e, ultimamente, também assumi a missão de eleger o Thiago Ávila e trabalho na campanha dele com muito orgulho, com muita honra, porque eu vejo que ele é uma pessoa que precisa realmente entrar no Congresso. Ele é uma pessoa corajosa, uma pessoa que colocou a sua vida nas suas mãos e foi até Gaza.

Não uma vez, não duas vezes, mas três vezes. Ele foi preso pelo sistema carcerário israelense. Ele foi torturado, ameaçado de morte e caluniado, foi muito difamado aqui no Brasil também pela extrema direita. Então, com muito orgulho, eu trabalho com Thiago Ávila. Essa é a minha contribuição para que a gente consiga fazer uma mudança neste Brasil e mantenha a esquerda no poder, porque, no momento em que eu não tenho direito ao voto como refugiada, eu posso fazer essa mudança mobilizando para a campanha do Thiago Ávila.

PALESTINA LIVRE DO RIO AO MAR

Não existe uma luta específica sobre um grupo de pessoas ou outro, porque, no final, o causador é o mesmo e quem está fazendo isso é o mesmo. Quem está assassinando, criando problemas, quem está deixando a gente amarrados em trabalhos, trabalhando como máquinas no 6 por 1?

Quem está deixando a gente preocupados apenas com como vamos conseguir garantir um pouquinho de comida para nossos filhos e como vamos conseguir pagar as nossas contas e os nossos aluguéis? Isso é o que eles querem. Eles querem nos deixar preocupados. Eles querem nos deixar afastados uns dos outros. E esse é o capitalismo, é o individualismo.

Mas a gente tem que voltar para as nossas raízes, que são a comunidade e a unificação. E assim a gente consegue avançar. Palestina livre do rio ao mar.

 

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