Escudo das Américas é fachada antiterrorismo dos EUA para ampliar hegemonia na região

Na abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada nesta terça-feira (22), o contraste de projetos para o mundo ficou evidente. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o multilateralismo, a paz e a soberania, a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avançou com uma agenda de belicismo e intervencionismo. O ponto central dessa ofensiva foi a articulação do chamado “Escudo das Américas”, uma aliança de 14 países que classifica 24 organizações criminosas da América Latina, como PCC e Comando Vermelho, como grupos terroristas.

Em entrevista ao Entrelinhas Vermelhas desta quinta-feira (24), o cientista político Thiago Rodrigues, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisou os desdobramentos desse encontro e o contraponto apresentado pelo governo brasileiro.

Assista a íntegra da entrevista:

Criminalização como pretexto para intervenção

Segundo Rodrigues, a equiparação entre crime organizado e terrorismo, oficializada no primeiro dia do atual governo Trump, vai muito além do combate ao crime. Ao transferir essas organizações para a lista de grupos terroristas, os Estados Unidos ampliam drasticamente suas possibilidades de ação. “Isso abre possibilidades muito maiores de intervenções militares e de prisões de forma extrajudicial e extraterritorial”, alertou o pesquisador.

Ele citou como exemplo a recente operação conjunta, pela primeira vez na história, de militares dos EUA em solo colombiano, autorizada pelo novo governo de ultradireita do país. Para Rodrigues, o termo “apoiadores” usado na declaração do Escudo é perigosamente amplo, permitindo que qualquer crítico da política econômica ou militar dos EUA seja alvo de sanções financeiras, cancelamento de vistos ou até perseguição penal.

Soberania versus submissão na segurança pública

O cientista político destacou que o pano de fundo real da iniciativa não é o terrorismo, mas a retomada da hegemonia indiscutível dos Estados Unidos no continente, garantindo acesso livre a minerais críticos e ao mercado digital sem a concorrência de potências como a China. O documento exige “fornecedores confiáveis”, o que, na prática, significa governos submissos, como o de Javier Milei, na Argentina, em oposição a governos que regulam e defendem a soberania nacional, como os do Brasil e do México.

Em seu discurso na ONU, Lula fez uma demarcação clara: o Brasil não terceirizará a responsabilidade de defender suas fronteiras. Classificar o crime organizado como terrorismo, além de ser um erro estratégico que prejudica canais consagrados de cooperação policial internacional, como a Interpol, representa uma ameaça à própria democracia brasileira.

O projeto de Lula contra o crime organizado

Thiago Rodrigues enfatizou que o governo Lula assimilou a complexidade do que chamou de “policriminalidade”. O crime organizado hoje não atua apenas em economias ilícitas, mas infiltra instituições, ocupa territórios de forma autoritária e explora economias lícitas (como a venda de gás e serviços de internet) em comunidades vulneráveis.

Para enfrentar esse cenário, o presidente Lula tem proposto uma nova arquitetura constitucional de segurança pública, que inclui a iniciativa “Brasil Contra o Crime Organizado”, a lei antifacção e uma PEC da Segurança Pública. O plano prevê a criação de um Ministério da Segurança Pública robusto e com orçamento real, capaz de coordenar ações federais, ampliar o efetivo da Polícia Federal e promover a retomada qualificada de territórios, integrando-os social e economicamente à cidade.

“Existem dois modelos de pensar o Brasil no mundo”, concluiu Rodrigues. Enquanto o modelo da ultradireita, representado por figuras como Flávio Bolsonaro, tende a uma adesão imediata ao Escudo das Américas, o projeto soberano defendido por Lula oferece um caminho eficaz, que combate o crime sem abrir mão da autonomia nacional e dos direitos democráticos.

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