
Por Flávia Schiochet
De O Joio e o Trigo
O Brasil chega às eleições presidenciais de 2026 após sair, pela segunda vez, do Mapa da Fome. A melhora dos indicadores recoloca no debate eleitoral as políticas relacionadas à produção, à distribuição e ao acesso a alimentos adequados e saudáveis – e as medidas necessárias para evitar um novo retrocesso.
Em 2025, 12 milhões de pessoas deixaram a insegurança alimentar. O resultado está associado a um conjunto de políticas que inclui a transferência de renda pelo Bolsa Família, a valorização do salário mínimo, as compras públicas realizadas por programas como o PAA e o Pnae e a queda do desemprego. Ainda assim, o Brasil tem 21 milhões de pessoas, o equivalente a 10% de sua população, em algum grau de insegurança alimentar e nutricional, o que mostra que a pauta não está superada.
No entanto, a maior parte dos candidatos à presidência não coloca essa agenda em destaque em seus planos. O Joio analisou os programas de governo dos cinco presidenciáveis com maior intenção de voto: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD). A comparação considerou as propostas para segurança alimentar, produção e abastecimento interno de alimentos, agricultura familiar e agronegócio exportador.
Os documentos mostram níveis bastante diferentes de atenção ao tema. Embora todos apresentem propostas detalhadas para o agronegócio, a maioria trata de forma genérica as políticas de produção e acesso aos alimentos. Promessas de reduzir preços, por exemplo, aparecem sem a indicação dos instrumentos que seriam usados para atingir esse objetivo. As propostas, entretanto, são em sua maioria genéricas.
Lula, Cury e Caiado usam a expressão “agricultura familiar” em seus planos de governo. Os demais falam em “pequeno produtor” e não diferenciam quem produz alimentos de quem produz commodities – um aceno para o agronegocinho. Flávio Bolsonaro reforça a questão da propriedade da terra e da ampliação do acesso ao crédito por meio da titulação. Cury enquadra a agricultura familiar como atividade produtiva a ser “modernizada”, em uma proposta de transformar esse produtor em “microempreendedor rural”. Caiado menciona a agricultura familiar nos indicadores de acompanhamento do plano, mas não desdobra nenhuma política específica no corpo do seu projeto. Santos cita apenas aumento de produtividade e expansão das cadeias do agronegócio, sem tratar de agricultura familiar.
Ao mesmo tempo, o agronegócio aparece como peça importante nos planos dos cinco presidenciáveis. Isso acende um alerta: a expansão da fronteira agrícola e o aumento de produção das commodities diminuíram o cultivo de alimentos que são a base da dieta brasileira – como arroz, feijão e mandioca – enfraquecendo a segurança alimentar e nutricional nestes territórios.
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A produção de commodities e a de alimentos destinados ao mercado interno disputam recursos como terra, crédito e incentivos públicos. Por isso, o peso dado por cada candidato à agricultura familiar e à agricultura comercial ajuda a revelar quais cadeias produtivas seriam priorizadas em seu governo.
Se há incentivos claros para o cultivo de commodities, mas pouca ou nenhuma política que estimule a agricultura familiar voltada à produção de alimentos, a balança pesa para o lado com maior poder econômico – o agronegócio. E a produção de commodities agrícolas serve tanto para ração animal quanto para produção de energia – Cury, Santos e Caiado falam em integrar a cadeia do agronegócio com a produção de biocombustíveis. Ou seja: aumentar a produção de cultivos como milho e soja para gerar etanol e biodiesel. No entanto, não detalham onde, nem como, ampliariam essas lavouras.
Não há nenhuma referência às expressões “fome” e “segurança alimentar e nutricional” nos programas de Bolsonaro e Santos. Já os de Cury e de Caiado repetem a falácia que o aumento da produção do agronegócio diminuiria o preço dos alimentos. Lula, por sua vez, lista uma série de políticas complementares que, juntas, garantiram que o Brasil saísse do Mapa da Fome duas vezes (em 2014 e 2025), colocando a agricultura familiar no centro da proposta para o campo e articulando o setor com a segurança alimentar.
Semelhanças e divergências
Ainda que o programa de Lula apresente diferenças relevantes em comparação com os outros candidatos, há propostas semelhantes. Todos defendem, em alguma medida, aumento da produtividade agropecuária, ampliação do seguro rural, desenvolvimento de projetos de irrigação, diminuição da dependência de fertilizantes importados investindo na produção nacional, investimento em logística e armazenamento, e criação de agroindústrias para agregar valor às commodities e, assim, diversificar a pauta de exportação.
As divergências se tornam palpáveis quando se analisa quais são as prioridades do candidato e que setores ele propõe desenvolver considerando as mazelas do país. Se o combate à fome está ligado à manutenção de políticas e estruturas de segurança social, alimentar e nutricional, a ausência dessas estruturas nos programas deixa sem resposta como os candidatos pretendem evitar que o país volte a registrar aumento da fome.
Compare as propostas dos candidatos à presidência no site do O Joio e O Trigo