Novos documentos da investigação sobre o Banco Master colocam Eduardo Bolsonaro no centro da movimentação financeira relacionada a Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Segundo reportagem publicada pelo Valor Econômico nesta sexta-feira (11), a Polícia Federal aponta que o ex-deputado participou da estruturação de como os recursos destinados à produção seriam administrados nos Estados Unidos.
O Havengate Development Fund, sediado no Texas, poderia receber até US$ 24 milhões de Daniel Vorcaro para financiar o filme. O fundo é administrado pelo advogado Paulo Calixto, próximo de Eduardo Bolsonaro, e havia sido criado em 2020 para um empreendimento imobiliário de US$ 21 milhões.
Segundo a PF, porém, o Havengate permaneceu “operacionalmente inerte” por quase quatro anos antes de começar a receber recursos relacionados ao filme.
Fundo parado reapareceu no financiamento do filme
A movimentação do Havengate reapareceu em 13 de fevereiro de 2025, quando recebeu US$ 2 milhões da Entre Investimentos, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro.
Como mostrou o Vermelho, Mineiro afirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) ter realizado sete transferências para o fundo, a pedido de Vorcaro, que totalizaram US$ 12,3 milhões.
A PF e a PGR investigam se os recursos foram destinados exclusivamente à produção de Dark Horse ou se tiveram outras finalidades. Entre as hipóteses está a possibilidade de parte do dinheiro ter financiado a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Eduardo tratou diretamente da movimentação
Os novos documentos acrescentam um elemento que até então não havia sido exposto: a participação de Eduardo nas tratativas sobre o dinheiro.
Segundo a PF, o publicitário Thiago Miranda encaminhou a Daniel Vorcaro uma captura de tela de uma conversa atribuída a Eduardo. Em março de 2025, Miranda havia informado que Flávio e Eduardo Bolsonaro pretendiam se reunir com Vorcaro para tratar do filme.
Na mensagem, Eduardo afirma que seria melhor que os recursos já estivessem nos Estados Unidos e discute as dificuldades para uma empresa brasileira fazer as remessas. Ele sugere enviar o máximo possível pelo sistema disponível e coloca Altieris Santana, ligado ao Havengate, à disposição para participar das tratativas, inclusive presencialmente.
“O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos.”
A Procuradoria-Geral da República também considerou a mensagem ao analisar o pedido de investigação. Segundo a PGR, Eduardo teria colocado à disposição a estrutura ligada ao Havengate para viabilizar a operação.
Não se trata, portanto, apenas de dinheiro destinado a um filme. Os documentos mostram Eduardo discutindo como os recursos seriam movimentados nos Estados Unidos e indicando uma estrutura ligada a pessoas próximas para receber e administrar o dinheiro.
Uma segunda investigação envolve dinheiro público
O financiamento de Dark Horse já era alvo de outra investigação.
Como mostrou o Vermelho, a Operação Make Up apura se recursos de emendas parlamentares destinadas por Mário Frias chegaram à produtora Go Up Entertainment, ligada à empresária Karina Ferreira da Gama.
Entre os elementos investigados estão R$ 700 mil em emendas destinados ao Instituto Conhecer Brasil e R$ 750 mil que posteriormente chegaram à produtora, além de pagamentos feitos diretamente por Frias à Go Up.
Flávio Bolsonaro afirmou que Dark Horse não recebeu dinheiro público.
São, porém, investigações diferentes. No caso das emendas, a PF apura a possível utilização de recursos públicos na cadeia relacionada à produção. No caso Master, investiga os recursos enviados por Vorcaro ao Havengate e a participação de Eduardo na estruturação da operação nos Estados Unidos.
O que ainda precisa ser esclarecido
Segundo a PF, o Havengate poderia receber até US$ 24 milhões de Vorcaro. O valor efetivamente transferido, segundo a delação de Mineiro, foi de US$ 12,3 milhões.
A investigação ainda busca saber se esse dinheiro foi integralmente utilizado na produção de Dark Horse ou se teve outras destinações. Entre elas, a possibilidade de ter financiado a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Os documentos da PF e da PGR foram tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na noite de quinta-feira (10), depois que André Mendonça retirou parcialmente o sigilo do caso, a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin. A investigação específica sobre o financiamento de Dark Horse e as diligências ainda em andamento permanecem sob sigilo.
Dark Horse foi concebido para construir uma versão cinematográfica da trajetória de Jair Bolsonaro. Antes mesmo de chegar às telas, porém, o filme passou a acumular perguntas sobre dinheiro, fundos nos Estados Unidos e a atuação de seus principais articuladores.
Agora, os documentos da PF acrescentam uma delas: por que Eduardo Bolsonaro estava orientando como os recursos destinados ao filme deveriam ser movimentados nos Estados Unidos?