No dia 28 de maio, a Operação Carbono Oculto completou um ano. Marco no combate ao crime organizado, a ação poderá ser replicada a cada dois meses, com o uso otimizado da inteligência artificial. Tal possibilidade foi anunciada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, nesta segunda-feira (31), durante evento do banco BTG Pactual.
A fala de Durigan indica que, além dos efeitos imediatos e de seus desdobramentos mais diretos, um dos legados da operação é a utilização das informações levantadas em ações futuras, com o uso de ferramentas tecnológicas, de maneira a tornar novas investidas ainda mais certeiras. “Pedi para a Receita (Federal): ‘se debruce sobre o que aprendemos na Carbono Oculto porque vamos ter de apresentar novas ações enquanto legado dessa operação’”, disse o ministro.
Na sequência, explicou: “Conseguimos colocar de pé um sistema de inteligência artificial que vai usar essas informações olhando para os fundos deste país, para o mercado de postos de combustíveis e outros e vamos conseguir otimizar e fazer uma Carbono Oculto a cada dois meses, se tivermos o compromisso político de avançar contra o crime organizado e especialmente a lavagem de dinheiro no andar de cima”.
Como exemplo recente, ele citou a Operação Bomba Oculta, deflagrada na sexta (28) — quando se completou um ano da Carbono Oculto — com o objetivo de interditar postos de combustíveis clandestinos que estavam operando sem autorização da ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). Além dessa ação, cerca de 1,3 mil CNPJs e Inscrições Estaduais foram tornados inaptos, bloqueando assim as contas bancárias e impedindo a emissão eletrônica de documentos fiscais.
Durigan também lembrou de operações que vêm sendo feitas pelo atual focadas nas bets. É o caso da Jogo de Sombras, deflagrada com o objetivo de apurar crimes de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro relacionados à exploração desse tipo de jogo. A investigação focou um grupo empresarial responsável pela exploração de plataforma de apostas esportivas — incluindo a NSX Brasil, controladora da marca Betnacional — que movimentou mais de R$ 5 bilhões apenas em 2025.
O ministro ressaltou, ainda, que “o combate ao crime organizado e a segurança pública estão na ordem do dia” e têm sido uma das prioridades do governo Lula. “Estamos convencidos de que a União precisa ter uma competência firme para que a gente consiga se engajar na segurança pública e fazer o que acho mais fundamental, que é atuar com inteligência, com a troca de informações, com bons sistemas para combater o crime organizado e dar suporte aos estados e municípios”.
Para ampliar a participação do governo federal no combate à violência e ao crime organizado, o governo Lula mandou ao Congresso Nacional propostas como a PEC da Segurança Pública, que estabelecerá os instrumentos necessários para possibilitar uma atuação mais efetiva da União por meio do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), já que hoje a Constituição limita essa atuação ao atribuir aos estados a gestão da segurança pública.
A PEC havia sido aprovada na Câmara e estava parada no Senado. Após reatar suas relações com Lula, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP) finalmente destravou a pauta da Casa e a previsão é de que a PEC seja votada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) nesta quarta-feira (2).
Exemplo de operação
Considerada um exemplo de operação de combate ao crime organizado por trabalhar com planejamento e inteligência ao invés de truculência e mirar o andar de cima dessas organizações, a Carbono Oculto foi deflagrada em 28 de agosto de 2025.
Coordenada de forma conjunta pela Receita Federal, Ministério Público de São Paulo (MPSP/GAECO), Polícia Federal, Agência Nacional do Petróleo (ANP) e forças policiais, ela se tornou a maior operação contra o crime organizado no setor de combustíveis da história do país e a primeira a explicitar a participação direta de instituições do coração do sistema financeiro brasileiro.
O foco central foi o desmonte de um sofisticado esquema bilionário de fraude fiscal, adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro comandado pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC).
No dia em que foi colocada em prática, a ação mobilizou mais de 1,4 mil agentes para o cumprimento de 200 mandados em dez estados e teve mais de 350 alvos (entre pessoas físicas e jurídicas). Foram expedidos 14 mandados de prisão e identificados 42 alvos somente na região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, incluindo fundos de investimento e corretoras. Não houve troca de tiros ou morte.
Estimativas apontaram que cerca de mil empresas e postos ligados à facção movimentaram aproximadamente R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. O “banco paralelo” usado pelo esquema chegou a operar mais de R$ 46 bilhões não rastreáveis.
Uma série de outras operações e medidas foram tomadas após sua realização. Por exemplo, em resposta às brechas exploradas pelo crime, a Receita Federal editou normas para enrijecer o monitoramento de CNPJs e combater a lavagem de dinheiro de forma preventiva.
Além disso, o Congresso Nacional acelerou e aprovou o projeto de lei do Devedor Contumaz, para combater os “profissionais da sonegação” — empresas que se valem desse expediente para obter lucros e servir para as operações de interesse do crime organizado.