Do Red Pill ao Congresso: as novas faces do machismo no Brasil

O machismo assume novas manifestações ao longo da História, mas sua essência permanece inalterada. As desigualdades salariais enfrentadas por mulheres nas fábricas desde os primórdios do capitalismo, a sobrecarga de trabalho e a alarmante taxa de suicídios entre mulheres – incluindo aquelas da classe alta, como mencionado no texto Sobre o Suicídio, de Marx – ainda perduram. Contudo, as justificativas para estas opressões e a retórica ideológica que as sustenta estão em constante transformação.

Embora o machismo e a misoginia tenham raízes anteriores ao capitalismo, nunca foram tão profundamente utilizados para sustentar um sistema econômico. As novas abordagens, como a popularidade das “trad wifes” nas redes sociais e a ideologia Red Pill, evidenciam a deterioração desse sistema e a necessidade de superar a opressão das mulheres, que só poderá ser alcançada por meio da mudança nas estruturas de produção e organização social capitalista.

A revolução socialista não se limita à conquista do poder pelo proletariado; ela busca, acima de tudo, a eliminação das classes, das opressões e do Estado em si. Como Lenin afirmou em Estado e Revolução, o Estado é um instrumento destinado a perpetuar a opressão de uma classe sobre outra. É inaceitável desvincular a exploração da classe trabalhadora das opressões, pois, embora mulheres da classe alta também enfrentem machismo, elas o vivenciam de forma distinta das trabalhadoras, que estão em situações de vida muito mais vulneráveis, onde a exploração se entrelaça com a opressão.

Diante disso, o arquivamento da Lei da Misoginia e a celebração por parte de deputados de direita, como o deplorável Nikolas Ferreira (PL), é um evento profundamente prejudicial e absurdo para a nossa sociedade e para as mulheres da classe trabalhadora. No entanto, não se pode ignorar o silêncio e a indiferença do governo Lula, autodenominado “de esquerda”, em relação a esse retrocesso. O governo federal mais uma vez se mostra conivente com o machismo.

O que é a Lei da Misoginia

No dia 27 de março deste ano, o Senado aprovou o projeto de lei PL 896/2023, que classifica o crime de aversão às mulheres como equivalente ao crime de racismo, prevendo penas que variam de dois a cinco anos de prisão, além de multa.

A proposta faz parte de um conjunto de iniciativas para combater o feminicídio, buscando garantir a dignidade e a vida das mulheres. A misoginia é definida pela própria Agência do Senado como “o ódio, aversão, desprezo ou preconceito arraigado contra mulheres e meninas, frequentemente manifestado por meio de violência, discriminação, objetificação sexual e hostilidade. Baseia-se na ideia de inferioridade feminina e reforça o machismo, podendo resultar em agressões físicas, psicológicas, morais e até feminicídio.”

O feminicídio representa o estágio extremo dessa problemática, que se inicia com o ódio às mulheres. A Lei da Misoginia é um passo importante na luta contra a opressão feminina. O projeto de lei foi aceito em resposta ao aumento alarmante da violência doméstica e dos homicídios de mulheres.

O arquivamento do projeto revela a atitude de deputados como Nikolas Ferreira, que desconsideram as mulheres, mesmo que tentem disfarçar isso com argumentos como “qualquer coisa poderá ser interpretada como assédio” ou “as contratações de mulheres serão reduzidas por conta disso”.

O projeto de lei foi retirado da pauta e arquivado em 8 de abril no Senado. Foi adiado para depois das eleições. O deputado Hugo Motta argumenta que essa é uma questão que provoca divisões na casa. Os bolsonaristas celebram, mas, enquanto isso, quatro mulheres são assassinadas diariamente e treze escapam de tentativas de feminicídio por dia. Tudo isso em nome de um discurso distorcido da direita que clama por “liberdade de expressão”, ignorando as mulheres que são vítimas dessa violência cotidiana.

A juventude

Um estudo recente da King’s College London indica que homens da geração Z, nascidos entre 1997 e 2012, concordam duas vezes mais com afirmações machistas do que homens da geração baby boomer, que nasceu entre 1946 e 1964, evidenciando o crescimento do machismo e um retrocesso em nossa sociedade. Esse aumento entre os homens das gerações atuais é alimentado pelo conteúdo Red Pill.

As novas formas de opressão contra as mulheres repercutem em toda a sociedade capitalista, afetando tanto a estrutura (classes sociais, Estado, economia, política) quanto a superestrutura (instituições, organizações, movimentos e partidos). Assim, isso se reflete até mesmo dentro da própria esquerda, em nossas fileiras. As formas contemporâneas de disseminar o machismo e a misoginia se tornam cada vez mais disfarçadas, apresentando-se sob a justificativa de “defender a família tradicional e os bons costumes” ou alegando que as mulheres são “privilegiadas” pela sociedade e pelas leis, por exemplo. É como um parasita que lentamente se apropria de seu hospedeiro, influenciando seu comportamento ou prejudicando-o a médio e longo prazo, causando doenças, especialmente entre os mais jovens. A ideologia Red Pill, por exemplo, se propagou pela internet e se infiltrou na vida real. O resultado é a mais alta taxa de feminicídios já registrada no Brasil.

A lei sobre gênero em Santa Catarina

Além disso, como uma ironia de 1º de abril, o governador Jorginho Mello (PL) sancionou em Santa Catarina a Lei nº 19.776, que permite que os pais proíbam seus filhos de participar de atividades escolares relacionadas ao gênero.

Isso não é “liberdade”, mas sim censura. Esta lei cria um ambiente propício para a perseguição de professores, silencia debates e impede que temas cruciais como machismo, LGBTfobia e desigualdade sejam abordados nas escolas. Na prática, representa um ataque direto à educação crítica e à liberdade pedagógica, semelhante ao PL Anti-cotas.

A falta de atenção e a política exclud

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