Diretor da Atlantic vê “possibilidade real” de Trump interferir na eleição brasileira

Jeffrey Goldberg Athlantic
Jeffrey Goldberg, diretor da revista estadunidense The Atlantic. Foto: Justin T. Gellerson/The New York Times

O diretor da revista The Atlantic, Jeffrey Goldberg, considera “uma possibilidade real” uma interferência do governo de Donald Trump na eleição presidencial brasileira. Em entrevista a Mariana Sanches, do UOL, o jornalista afirmou que o histórico recente da administração estadunidense impede descartar uma ação sobre o processo eleitoral no Brasil.

Goldberg diz ser impossível prever quais decisões Trump tomará e considera enganoso tratar a Casa Branca como uma estrutura coerente, com todos os seus setores executando uma estratégia única. Ainda assim, ao falar especificamente da eleição brasileira, afirmou que integrantes do governo são “capazes de interferir”. Para ele, a questão é saber quando a retórica e a provocação política deixam o ambiente das redes e se transformam em ação de Estado.

“Os Bolsonaro são favoritos da facção de Trump”, afirmou Goldberg. O diretor da Atlantic reconhece que ao menos uma parte da administração estadunidense está comprometida com a candidatura de Flávio Bolsonaro, embora ressalve que isso não significa o envolvimento de toda a máquina do governo. Na visão dele, uma volta dos Bolsonaro ao poder deixaria a América Latina mais favorável aos interesses políticos da Casa Branca.

A preocupação ganhou peso nos últimos meses após Trump comemorar publicamente o avanço eleitoral da direita na América do Sul e, ao comentar o Brasil, disse manter uma boa relação com o país. A declaração ocorreu três dias depois da entrevista de Goldberg e reforçou a percepção do jornalista de que a orientação política dos governos latino-americanos ocupa espaço na agenda de Washington.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Patrick B. Ruddy/Casa Branca

Outro episódio que vêm chamando atenção é o da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti. O governo Trump revogou o visto da diplomata em meio à pressão para que o Brasil aceitasse Daniel Perez como embaixador dos EUA. Perez, próximo ao secretário de Estado Marco Rubio, havia declarado em sabatina no Senado estadunidense que trabalharia por condições para eleições “livres e justas” no Brasil. A fala provocou preocupação em Brasília. Posteriormente, ele afirmou que não pretendia se envolver na escolha dos brasileiros.

Trump aparentemente não sabia da revogação do visto de Viotti quando conversou com Lula. Para interlocutores em Washington, a medida teria partido de quadros de extrema-direita em escalões intermediários do governo. Goldberg vê esse funcionamento como uma característica da administração: diferentes grupos tomam iniciativas, tentam antecipar os desejos do presidente e nem sempre sabem se Trump concordará com elas.

O próprio Goldberg conhece de perto a dinâmica da Casa Branca. Em 2025, ele foi incluído por engano em um grupo do Signal no qual integrantes do alto escalão discutiam uma operação militar. O jornalista afirma que o episódio expôs disputas internas, decisões pouco coordenadas e o poder de auxiliares como Stephen Miller. Por isso, ele evita prever que haverá intervenção no Brasil, mas também rejeita tratar a hipótese como improvável: para Goldberg, diante do comportamento recente de Washington, os brasileiros preocupados com a independência da eleição precisam considerar a possibilidade de uma interferência direta.

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