Da Redação
O Nordeste reduziu de forma expressiva os índices de pobreza e extrema pobreza nas últimas décadas, mas continua enfrentando uma distância significativa em relação às demais regiões brasileiras. Dados apresentados pelo Jornal do Commercio mostram que 39,6% da população nordestina vivia abaixo da linha da pobreza em 2024, contra 56,6% em 2012. No mesmo período, a extrema pobreza caiu de 14,3% para 6,6%. Ainda assim, a proporção de pobres na região permanece quase 70% acima da média nacional.
O avanço social convive com dificuldades no mercado de trabalho, na infraestrutura, na educação e na distribuição de renda. A renda domiciliar per capita nordestina passou de R$ 1.088 em 2012 para R$ 1.470 em 2025, crescimento de 35%, acima dos 27% registrados nacionalmente. Mesmo assim, o rendimento médio da região corresponde a apenas 65% da média brasileira. Além disso, mais da metade dos trabalhadores nordestinos está na informalidade.
Pobreza caiu mais rápido que a desigualdade
A redução da pobreza não veio acompanhada de uma queda proporcional na concentração de renda. O índice de Gini do Nordeste passou de 0,546 em 2012 para 0,502 em 2024. Apesar da melhora, a região continua apresentando o maior nível de desigualdade entre as grandes regiões brasileiras, enquanto todas as demais já registram índices inferiores a 0,500.
A economista Tania Bacelar, citada pelo JC, diferencia os dois processos ao observar que a região conseguiu reduzir a pobreza em ritmo mais acelerado, mas ainda enfrenta dificuldades para distribuir de forma mais ampla os ganhos econômicos. O resultado aparece também no mercado de trabalho: sete dos dez estados brasileiros com menor renda do trabalho são nordestinos.
O Nordeste ainda responde por uma parcela pequena do PIB
O Nordeste concentra aproximadamente 27% da população brasileira, mas responde por 13,8% do Produto Interno Bruto nacional. A participação é próxima da registrada quando o economista Celso Furtado estudava a região, na década de 1950.
Segundo o economista Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos para Desenvolvimento do Nordeste do FGV Ibre, parte da melhora do PIB por habitante ocorreu em razão da redução da participação do Nordeste na população brasileira, associada à queda da natalidade e à migração para o Centro-Sul. O crescimento econômico regional, portanto, não foi suficiente para eliminar a distância histórica.
Educação e ciência avançam de forma desigual
O desempenho educacional também apresenta diferenças importantes dentro da própria região. O Ceará se tornou referência nacional no ensino fundamental, enquanto Pernambuco obteve resultados expressivos no ensino médio. Os avanços, contudo, não se espalharam na mesma intensidade pelos demais estados.
Na área científica, a desigualdade de investimentos é ainda mais evidente. Segundo dados reunidos na Carta Nordeste, documento coordenado pelo FGV Ibre, a região recebeu apenas 1,2% dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em 2024, enquanto o Sudeste concentrou 82,6%. O dado chama atenção porque o Nordeste possui parques tecnológicos e instituições de ensino e pesquisa capazes de ampliar a produção científica e tecnológica regional.
Infraestrutura limita crescimento
A deficiência de infraestrutura permanece como outro obstáculo. Apenas 33,8% do esgoto produzido no Nordeste é coletado, contra 79,8% no Sudeste. A malha ferroviária também apresenta limitações, com projetos importantes ainda em construção ou incompletos.
Na geração de energia, a região possui uma das maiores concentrações brasileiras de parques eólicos e solares e já produz mais energia limpa do que consome. A falta de linhas de transmissão e de estruturas de armazenamento, contudo, impede o aproveitamento integral dessa capacidade, levando ao corte de parte da geração em determinados períodos.
A Reforma Tributária acrescenta outra questão ao planejamento econômico regional. Com o fim progressivo da chamada guerra fiscal do ICMS, os estados perderão parte do principal instrumento utilizado durante décadas para atrair investimentos. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional deverá compensar parcialmente essa mudança, mas a Carta Nordeste estima que ele comece com cerca de R$ 3,6 bilhões para toda a região, valor inferior aos R$ 4,6 bilhões em incentivos concedidos somente pelo Ceará em 2024.
Falta de articulação entre os estados
Para os especialistas ouvidos pelo JC, um dos principais problemas do Nordeste está na dificuldade de construir uma estratégia comum para os nove estados. O Consórcio Nordeste ganhou protagonismo durante a pandemia, mas não consolidou uma agenda regional permanente capaz de coordenar investimentos e projetos de longo prazo.
A falta de coordenação também aparece na atuação das instituições federais. Sudene, Banco do Nordeste, Dnocs e universidades desenvolvem políticas e projetos próprios, enquanto os governos estaduais frequentemente disputam investimentos que poderiam ser articulados regionalmente.
A Transnordestina é um exemplo dessa dificuldade. A ferrovia interessa diretamente a diferentes estados e poderia integrar produção, logística e exportação, mas sua implantação permanece marcada por trechos incompletos e disputas sobre prioridades. Para os economistas ouvidos pelo JC, uma estratégia regional permitiria ampliar o poder de negociação dos estados diante do governo federal e organizar investimentos em torno de objetivos comuns.
Um Nordeste com potencial econômico ainda subaproveitado
O debate apresentado pelo levantamento mostra que a redução da pobreza modificou profundamente as condições sociais da região, mas não resolveu a desigualdade histórica entre o Nordeste e o restante do país. A questão agora envolve transformar avanços sociais em capacidade permanente de geração de renda, emprego qualificado, ciência, infraestrutura e produção.
Uma das propostas apresentadas por Flávio Ataliba é transformar o Nordeste em uma plataforma de exportação, aproveitando sua posição geográfica em relação à Europa, África e Estados Unidos, além dos portos e da capacidade de geração de energia renovável. Para isso, seria necessário coordenar investimentos, infraestrutura, qualificação profissional e uma estratégia de internacionalização que envolvesse os estados e o governo federal.
Os números mostram duas realidades simultâneas. O Nordeste avançou na redução da pobreza e aumentou sua renda, mas ainda mantém indicadores de desigualdade, informalidade, infraestrutura e participação econômica que revelam a permanência de um problema de desenvolvimento regional. A construção de uma agenda conjunta entre os estados aparece como uma das questões centrais para transformar os avanços sociais das últimas décadas em crescimento econômico mais distribuído dentro da própria região.