
A espera de mais de um ano para que os pais do estudante de medicina Marco Aurélio, que perdeu a vida em 2024 devido a um policial militar, sejam ouvidos, revela a crise de liderança na Segurança Pública de São Paulo e intensifica a pressão sobre o secretário Guilherme Derrite (PP), que é pré-candidato ao Senado. Conforme Marcelo Godoy, do Estadão, incidentes como esse se tornaram emblemáticos das críticas à gestão da secretaria sob o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
No dia 16, os médicos Júlio César Navarro e Silvia Mónica Cárdenas finalmente conseguiram se reunir com Oswaldo Nico Gonçalves, atual secretário da Segurança. Este encontro ocorreu após um extenso período de silêncio institucional. Marco Aurélio, com apenas 22 anos, foi morto após agredir o retrovisor de uma viatura. Desarmado, ele levou um tiro à queima-roupa. Durante a reunião, Silvia ficou emocionada ao lado de Nico, evidenciando o peso da espera por respostas.
A lentidão no atendimento à família levanta indagações dentro do Ministério Público. Membros da instituição afirmam que a administração de Derrite ainda precisa prestar esclarecimentos não apenas sobre este caso, mas também sobre uma série de ocorrências envolvendo a Polícia Militar. No círculo do governador Tarcísio de Freitas, a percepção é de que houve um erro ao designar alguém com aspirações políticas para liderar a Segurança.
Derrite também é alvo de críticas de coronéis da própria corporação. Ele é acusado de ter promovido uma seleção de oficiais próximos, ignorando a hierarquia tradicional e debilitando a estrutura de comando.

Dentre os nomes mencionados está o coronel José Augusto Coutinho, associado à Rota, que, segundo o promotor Lincoln Gakiya, teria sido negligente em relação a denúncias envolvendo o PCC, incluindo vazamentos de investigações e a atuação de policiais na segurança de uma empresa ligada à facção.
O clima dentro da PM, conforme relatos, foi deteriorado por discursos que promovem uma mentalidade de confronto. Um comandante chegou a afirmar à tropa que estavam em “uma guerra”, uma expressão considerada como um fator que incentiva ações violentas. Esse cenário ajuda a entender uma série de casos recentes, como policiais que mataram suspeitos ou civis em circunstâncias questionáveis, além de episódios de abuso e violência nas ruas.
A lista de incidentes inclui desde a morte de um empresário com um tiro na nuca até a execução de um homem em situação de rua e o assassinato de Thawanna Salmázio. Há também relatos de agentes que se divertem agredindo pessoas ou atuando de forma imprudente com viaturas. Para oficiais mais experientes, a realidade atual se distancia do padrão de comando de coronéis como Nilton Viana, Francisco Profício, Rui César Melo e Nivaldo Restivo.
Além das denúncias operacionais, existem questionamentos sobre a administração. Licitações suspeitas no Centro Integrado de Comando e Controle e alegações de irregularidades em exames psicotécnicos aumentam a pressão. Enquanto isso, a corporação enfrenta um déficit de efetivo, com cerca de 13 mil vagas em aberto.
Para críticos internos, o problema principal reside na perda de comando e controle. A avaliação é que a política partidária passou a ter uma influência direta na estrutura da PM. Derrite, afirmam, sequer recebeu os pais de Marco Aurélio durante um ano, o que intensifica a percepção de distanciamento e falta de sensibilidade em relação a um caso tão emblemático.