Corrida armamentista bate recorde e chega a quase US$ 3 tri

O mundo nunca gastou tanto com guerras. Os gastos militares globais atingiram US$ 2,887 trilhões em 2025 — o maior nível já registrado pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês), em relatório divulgado nesta segunda-feira (27). É o 11º ano consecutivo de crescimento, com alta de 2,9% em termos reais em relação a 2024, e um salto de 41% na última década.

A carga militar global — proporção do PIB mundial destinada a armamentos — subiu de 2,4% para 2,5%, o nível mais alto desde 2009. Em termos per capita, cada habitante do planeta “contribuiu”, em média, com US$ 352 para o complexo militar mundial no ano passado. Veja a íntegra do relatório aqui.

“Os gastos militares globais aumentaram novamente em 2025, à medida que os Estados responderam a mais um ano de guerras, incertezas e convulsões geopolíticas com grandes investimentos em armamentos”, afirmou Xiao Liang, pesquisador do Sipri.

A tendência, segundo o instituto, é de continuidade. “Considerando a variedade de crises atuais, bem como as metas de gastos militares de longo prazo de muitos Estados, esse crescimento provavelmente continuará até 2026 e além”, completou Liang.

Europa e Ásia puxam alta; EUA recuam

O principal motor do crescimento em 2025 foi a Europa, com aumento de 14% nos gastos, chegando a US$ 864 bilhões — recorde histórico para o continente, o dobro do que gastava em 2016. O crescimento foi impulsionado pela guerra na Ucrânia e pela pressão dos Estados Unidos para que os aliados da Otan ampliem seus orçamentos de defesa.

Os EUA, ainda o maior gastador militar do planeta, reduziram seus gastos em 7,5%, para US$ 954 bilhões. A queda se explica pela não renovação dos repasses extraordinários ao Pentágono para apoio à Ucrânia — entre 2022 e 2025, foram US$ 127 bilhões aprovados nessa rubrica. Mas a trégua nos números americanos pode ser curta: o Congresso dos EUA já aprovou mais de US$ 1 trilhão para 2026, e propostas em discussão falam em US$ 1,5 trilhão para 2027.

Na Ásia e Oceania, os gastos somaram US$ 681 bilhões, alta de 8,1% — o maior crescimento anual da região desde 2009. China, Japão, Taiwan e Coreia do Sul lideram a corrida armamentista no continente, em meio a tensões no Estreito de Taiwan e à pressão da administração Trump sobre aliados.

Os cinco maiores: concentração de poder

Os cinco maiores gastadores em 2025 foram EUA (US$ 954 bi), China (US$ 336 bi), Rússia (US$ 190 bi), Alemanha (US$ 114 bi) e Índia (US$ 92,1 bi), que juntos responderam por 58% de todo o gasto militar mundial. Os 15 maiores, juntos, respondem por 80% do total.

A China registrou seu 31º aumento anual consecutivo em gastos militares — o maior histórico de qualquer país na base de dados do SIPRI. A Alemanha ultrapassou a barreira de 2% do PIB em gastos militares pela primeira vez desde 1990 e já prometeu chegar a 3,5% até 2029, financiando o aumento com endividamento público, após reformar sua regra do “freio da dívida”.

Guerra na Ucrânia: o país que mais gasta proporcionalmente

A Ucrânia é o caso mais extremo do relatório. Com US$ 84,1 bilhões em gastos militares em 2025 — alta de 20% —, o país destinou 40% do seu PIB e 63% de todo o gasto governamental às forças armadas, o maior percentual do mundo pelo quarto ano seguido. Para financiar a guerra, recebeu US$ 52,2 bilhões de parceiros internacionais, além de empréstimos do G7 lastreados em ativos russos congelados.

A Rússia, por sua vez, gastou US$ 190 bilhões, alta de 5,9%, comprometendo 7,5% do PIB e 20% de todo o gasto público — o maior percentual governamental já registrado pelo SIPRI para o país. Cerca de 79% do orçamento de defesa russo está classificado como secreto.

Otan mira 5% do PIB

Em junho de 2025, os membros da Otan elevaram sua meta de gastos militares de 2% para 5% do PIB até 2035. Desse total, ao menos 3,5% devem ir para gastos militares diretos; os outros 1,5% podem cobrir itens como “infraestrutura crítica” e “resiliência civil”.

O Sipri alerta para o risco de “contabilidade criativa”: sem critérios claros, países podem reclassificar gastos civis como militares para bater metas políticas. O instituto cita o caso da Itália, que em 2025 tentou incluir a construção de uma ponte na Sicília como gasto militar. Além disso, a Otan não publica dados desagregados de seus cálculos, tornando a verificação independente cada vez mais difícil.

Oriente Médio: Israel recua, região segue armada

No Oriente Médio, os gastos ficaram praticamente estáveis, chegando a US$ 218 bilhões (+0,1%). Israel reduziu seus gastos em 4,9%, para US$ 48,3 bilhões, após o cessar-fogo com o Hamas em janeiro de 2025 — mas ainda gasta 120% mais do que em 2016 e enfrentou uma guerra de 12 dias com o Irã em junho de 2025. A Turquia aumentou 7,2% seus gastos, chegando a US$ 30 bilhões, em parte pelo fundo especial de apoio à sua indústria bélica doméstica.

África e América Latina: o peso do canhão

Na África, os gastos chegaram a US$ 58,2 bilhões, alta de 8,5%. A Argélia é o maior gastador do continente (US$ 25,4 bi), com 8,8% do PIB destinados ao setor militar — o segundo maior percentual do mundo, atrás apenas da Ucrânia. A Nigéria aumentou seus gastos em 55% (para US$ 2,1 bi) em meio à escalada de violência extremista no país.

Já o Brasil gastou US$ 23,9 bilhões em defesa em 2025, um crescimento de 13% em relação a 2024 — o maior salto percentual do país em anos recentes. O aumento foi impulsionado principalmente por investimentos em desenvolvimento tecnológico naval e aumento dos custos de pessoal militar. O país ocupa a 21ª posição no ranking mundial, com gastos equivalentes a 1,1% do PIB, mantendo-se abaixo da média global de 2,5%. A América do Sul como um todo gastou US$ 56,3 bilhões, alta de 3,4%.

Corrida armamentista e pressões sobre o orçamento público

O relatório do Sipri evidencia que o mundo vive uma corrida armamentista sem precedentes no pós-Guerra Fria. O crescimento de gastos militares ocorre simultaneamente à pressão por cortes em áreas sociais em diversos países — o Reino Unido, por exemplo, financia parte do rearme cortando sua assistência ao desenvolvimento (AOD).

Para o Sipri, a combinação entre metas mais agressivas da Otan e critérios pouco claros de contabilização amplia os riscos à transparência e à governança democrática dos orçamentos públicos, além de dificultar a avaliação real das capacidades militares globais.

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