A crise liderada por André Mendonça no STF abriu uma nova conjuntura no Brasil, com a extrema-direita na ofensiva, em momento decisivo da disputa eleitoral. Faltando menos de trinta dias para a votação que decidirá se o país preservará sua soberania ou sucumbirá diante do imperialismo, o bolsonarismo conseguiu emplacar uma manobra para desviar as atenções da sociedade sobre os projetos em disputa, e direcioná-las a um mal-estar generalizado com as instituições. Mesmo sendo eles os principais envolvidos no escândalo do Banco Master, são eles quem se beneficia do ambiente de caos e desmoralização institucional, como é típico do fascismo. Seu objetivo é tumultuar o processo eleitoral, deslocar a pauta da política para a corrupção, incendiar a base bolsonarista e preparar o caminho para o perdão aos golpistas e a retomada do poder central. Caracterizar corretamente a operação política liderada por André Mendonça é decisivo para a correta definição das táticas a serem adotadas daqui em diante.
Não há nenhum motivo para a esquerda sair em defesa de qualquer dos envolvidos, por mais importante que tenha sido o papel de Moraes na condenação dos golpistas. Todos os citados no caso Master devem ser investigados: Alexandre de Moraes, Flavio Bolsonaro, André Mendonça, Paulo Gonet. A reivindicação de uma reforma e um código de ética no judiciário é justa e necessária.
Que fique claro: o caso Master é uma crise da direita e extrema-direita, do mercado financeiro e do rentismo, e não da esquerda. Lula não tem nenhuma relação com o escândalo – ao contrário, foi no seu governo que o banco foi investigado e liquidado, e Daniel Vorcaro preso. As relações de juízes com Vorcaro são expressão dos vínculos podres entre o capital privado e as instituições do Estado. Não há nenhum motivo para a esquerda sair em defesa de qualquer dos envolvidos, por mais importante que tenha sido o papel de Moraes na condenação dos golpistas. Todos os citados no caso Master devem ser investigados: Alexandre de Moraes, Flavio Bolsonaro, André Mendonça, Paulo Gonet. A reivindicação de uma reforma e um código de ética no judiciário é justa e necessária.
Mas esta é apenas a superfície da luta política em curso. O que interessa à luta contra o fascismo é compreender seus movimentos para impedir sua vitória.
Mendonça e o método do lavajatismo
Antes das revelações feitas por Mendonça na semana passada, já era visível o retorno da velha arma preferida da burguesia no Brasil: a redução da política à corrupção. As tentativas diárias de fazer colar em Fabio Luis, filho de Lula, denúncias relacionadas ao escândalo do INSS já sinalizavam a volta da metodologia que definiu o movimento golpista que derrubou o governo Dilma em 2016. Acusações sem provas, espetáculo midiático e atribuição de vínculos ao estilo do famoso powerpoint vinham se repetindo à exaustão. A unidade entre a fração dita liberal da burguesia e a ala bolsonarista tinha como objetivo equiparar Lula, que não tem nenhuma relação com o Banco Master, a Flavio Bolsonaro, que tratava Daniel Vorcaro como um “irmão” para cobrar as doações oriundas de suas fraudes bancárias.
Mas a operação de André Mendonça representa um salto. Numa movimentação digna de Sergio Moro, assumiu o papel ilegal de juiz e investigador, e passou aos vazamentos seletivos – nunca sobre Flavio Bolsonaro, apenas sobre Alexandre de Moraes – em articulação direta com a imprensa. Agora, apoiado nos atos bolsonaristas, afastou da Polícia Federal justamente quem respondeu pela investigação e prisão de Vorcaro. Se é verdade que as suspeitas sobre Moraes exigem uma apuração rigorosa, também é fato que Mendonça não tem mais condições de se manter como relator do caso Master. Seu afastamento do caso deve ser imediato.
A tática da sobrecarga
A operação de Mendonça repete uma tática consagrada da extrema-direita. Trata-se de sobrecarregar o debate público com escândalos e informações explosivas, por vezes contraditórias entre si, de modo a tentar impedir que seus oponentes consigam responder à salva ininterrupta de artilharia. Buscam, assim, definir a agenda e confundir as defesas do adversário, que passa a travar a disputa na defensiva e no terreno escolhido pelo bolsonarismo. Em outras palavras, a tática é desestabilizar o processo eleitoral e abrir caminho para a ofensiva neofascista. É por isso que a tendência são novos vazamentos e escândalos.
Embora Lula não tenha nada a ver com o escândalo do Master, diferentemente de Flavio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Tarcísio de Freitas e todo o entorno bolsonarista, é sabido que a corrupção é o terreno preferido da extrema-direita. O caos generalizado e induzido já conseguiu, ao menos até aqui, deslocar o debate político sobre o projeto de país, os interesses populares, a resistência ao imperialismo, para a pauta única da corrupção. A base bolsonarista é impermeável aos escândalos envolvendo seu candidato, e se eletriza com a conquista do terreno em que estão se dando as eleições. Fica evidente que a operação de Mendonça, apoiada pelas alas bolsonaristas no interior do aparato de Estado, obedece à estratégia de reconduzir a extrema-direita ao poder, anistiar os golpistas do 8 de janeiro e submeter o destino do Brasil aos interesses de Donald Trump.
Nunca é demais recordar que nossas eleições estão em curso sob intervenção direta do imperialismo. Como já alertamos, os métodos usados por Trump para favorecer seus candidatos na Argentina, Colômbia e Peru no último ano têm se repetido por aqui – chantagem econômica, favorecimento algorítmico de aliados, questionamento à legitimidade institucional, desestabilização política. A crise atual é parte da tática dos EUA: induzir a instabilidade e o caos políticos para colapsar o país por dentro, favorecendo que seus aliados locais emerjam “contra tudo que está aí”. Já vimos o mesmo filme nas eleições de 2018. Subestimar o perigo uma segunda vez pode ser fatal para o Brasil e o povo brasileiro.
É hora de mobilização total
O presidente Lula reagiu bem à ofensiva bolsonarista ao exigir investigações de todos os envolvidos no caso Master. Tem tentado manter o debate eleitoral no terreno da política, pautando o fim da escala 6×1, o marco legal dos minerais críticos, o combate ao feminicídio, a crítica à política de juros e a defesa da soberania nacional. Mas o cenário mudou, e as dificuldades têm crescido. A reeleição não está garantida, e o bolsonarismo buscará manter a ofensiva por quanto tempo for possível – faltando menos de um mês para a eleição, o perigo é real.
O presidente Lula reagiu bem à ofensiva bolsonarista ao exigir investigações de todos os envolvidos no caso Master. Tem tentado manter o debate eleitoral no terreno da política, pautando o fim da escala 6×1, o marco legal dos minerais críticos, o combate ao feminicídio, a crítica à política de juros e a defesa da soberania nacional. Mas o cenário mudou, e as dificuldades têm crescido. A reeleição não está garantida, e o bolsonarismo buscará manter a ofensiva por quanto tempo for possível – faltando menos de um mês para a eleição, o perigo é real.
A esquerda brasileira tem acertado ao responder à operação de Mendonça com a denúncia das relações do bolsonarismo com Vorcaro. Se não o fizesse, deixaria o terreno – e a pauta – sob monopólio da extrema-direita. Mas é necessário também reforçar a relocalização do debate para a política. Para a base bolsonarista, pouco importa a verdade: corrupção sempre será sinônimo de ataques a Lula e à esquerda. Há pouco ou quase nada de votos a serem ganhos para nós neste terreno.
Nossa primeira tarefa é chamar as coisas pelo seu nome, e denunciar a operação de desestabilização golpista em curso. É preciso relembrar a todos os setores da sociedade o que significa a hipótese de vitória do bolsonarismo – submissão do país aos EUA, anistia aos golpistas, destruição da saúde pública e retorno de doenças erradicadas, aumento da violência contra as mulheres, fim da valorização do salário mínimo e das aposentadorias, escala 7×0. Se o bolsonarismo vencer, a relação entre poder público, milícias, crime organizado e sistema financeiro, que culminou no caso Master, irá apenas se fortalecer, como ocorreu no governo Bolsonaro.
Ainda, é preciso recuperar a iniciativa e a agenda: devemos retomar o debate sobre o que interessa ao país e ao povo brasileiro. Para isso, todos os setores da esquerda devem ser consequentes com a importância da unidade do nosso campo. Exigir de Davi Alcolumbre a aprovação definitiva do fim da escala 6×1, ainda antes do primeiro turno, porque a pauta consolida perante a classe trabalhadora quem é quem na disputa eleitoral – nós defendemos a conquista de direitos, enquanto Flavio Bolsonaro atuou diretamente para impedir a votação em plenário. Insistir nas pautas que interessam ao povo, como tem feito Lula, e afirmar um futuro soberano para o país são deveres de toda a esquerda brasileira.
Também é preciso que o presidente Lula garanta alívio imediato ao mal-estar difuso promovido pelo endividamento. Além da denúncia aos juros abusivos ditados pelo mercado financeiro, é preciso atacar as bets, que estão entre as principais responsáveis pelo comprometimento da renda das famílias. Há mecanismos legais para proibir seu funcionamento e devolver ao povo o que lhe foi pilhado pelas casas de apostas, ademais envolvidas em lavagem de dinheiro para o crime organizado – o ponto de encontro mais nítido da comunhão de interesses entre a Faria Lima e organizações criminosas. A renda de quem trabalha não pode mais ser corroída por quem, não à toa, apoia a família Bolsonaro.
Mas há algo ainda mais importante, e que está exclusivamente em nossas mãos: a esquerda brasileira deve manter a confiança em suas próprias forças, mas precisa romper com a ilusão do facilismo. Enfrentamos inimigos poderosos dentro e fora do país. À fração liberal da burguesia já não importam as ameaças ao regime democrático, como tem demonstrado seu lavajatismo. É hora da máxima unidade, mobilização e engajamento para garantir a reeleição de Lula e a preservação da soberania nacional. Nas próximas semanas, aqueles e aquelas que defendem o Brasil precisam dedicar o máximo de suas energias, nas ruas e nas redes, com familiares e vizinhos, colegas de trabalho e grupos de amigos, para multiplicar as nossas forças, interromper a movimentação golpista em curso e cumprir com nossa tarefa histórica de derrotar o fascismo.
Bolsonaros: nunca mais!