Como os EUA monitoraram JK durante a ditadura, segundo documentos

Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Foto: Reprodução

Documentos confidenciais do Departamento de Estado dos Estados Unidos revelam que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi acompanhado de perto por diplomatas estadunidenses durante a ditadura militar. Um relatório assinado pelo embaixador William Manning Rountree, em 5 de janeiro de 1971, registrou uma conversa com JK no Rio de Janeiro e suas críticas ao governo de Emílio Garrastazu Médici.

No encontro, realizado em dezembro de 1970, Kubitschek reconheceu o que chamou de “excelente histórico econômico” do governo Médici, mas afirmou que era “fortemente contrário à revolução de 1964”. Rountree anotou que o ex-presidente temia a atuação da linha-dura e não via perspectiva de fim para o regime militar.

JK apontou como sua maior preocupação a “sistemática destruição da escassa e frágil liderança democrática brasileira”. Na avaliação atribuída a ele pelo embaixador, as cassações permitiam que os militares alegassem não haver lideranças civis capazes de governar e, assim, justificassem a permanência no poder.

O relatório descreve Kubitschek como pessimista em relação ao futuro das relações entre a Igreja e o Estado. O ex-presidente também criticou a política de Richard Nixon para a América Latina e classificou como um “erro” a decisão dos Estados Unidos de “armarem ditaduras militares latino-americanas”.

Emílio Médici, ex-ditador do Brasil. Foto: reprodução

Ex-presidente era visto como liderança relevante

Os papéis integram um conjunto de milhares de páginas fotografadas em Washington pelo historiador Rodrigo Patto Sá Motta, professor da Universidade Federal de Minas Gerais. O acervo reúne telegramas, análises e relatos sobre a atuação de figuras políticas brasileiras durante o período ditatorial.

Para a historiadora Bruna Gomes dos Reis, os Estados Unidos tratavam JK como um “termômetro da ditadura”, por sua influência política e por suas tentativas de voltar à Presidência. Cassado pelo regime após manifestar interesse em disputar a eleição de 1965, ele também participou da articulação da Frente Ampla contra a ditadura em 1967.

O cientista político Paulo Nicolli Ramirez avalia que Washington enxergava Kubitschek como um político populista e próximo de ideias consideradas de esquerda no ambiente da Guerra Fria. O historiador Victor Missiato, por sua vez, afirma que os diplomatas também o viam como um interlocutor civil estável, capaz de dialogar com grupos distintos da política brasileira.

Kubitschek morreu em 22 de agosto de 1976, em um acidente de carro na Via Dutra, em Resende (RJ). A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aprovou o entendimento de que sua morte resultou de uma emboscada organizada por agentes da ditadura, conclusão que contrasta com a versão de acidente mantida por décadas.

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