
O Instituto Conhecer Brasil (ICB), comandado por Karina Gama, passou de ações culturais, educacionais e religiosas para um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar e manter 5 mil pontos de Wi-Fi público em comunidades, segundo a coluna de Mirelle Pinheiro no Metrópoles. A Polícia Civil investiga possíveis irregularidades na contratação, nos pagamentos e na execução do programa WiFi Livre SP.
Fundado em 1990, o instituto atuava principalmente em feiras, eventos literários e atividades ligadas ao segmento gospel. Ao pedir à Justiça autorização para buscas, os investigadores destacaram que a entidade não tinha experiência anterior em telecomunicações e que foi a única participante do chamamento público que levou ao acordo com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
Entre os projetos associados à trajetória do ICB está o encontro literário IDE, realizado em 2018 na Vila Brasilândia, na Zona Norte da capital. O evento reunia autores e nomes da literatura cristã, e Karina já assinava contratos em nome da entidade.
Em 2023, Karina participou de uma reunião no gabinete do prefeito Ricardo Nunes (MDB). No mês seguinte, foi apresentado à Secretaria Municipal de Cultura um pedido de parceria para o Mega Dance Musical, ligado à Força Jovem Universal, braço jovem da Igreja Universal. O projeto previa R$ 1,084 milhão e tinha recursos relacionados a emendas dos vereadores Atílio Francisco e Rinaldi Digilio.

Polícia compara custos e apura pagamentos do programa
Outra empresa ligada a Karina, a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, obteve em 2021 autorização para captar R$ 4,9 milhões para uma série sobre atletas cristãos. O projeto, autorizado quando Mario Frias chefiava a Secretaria Especial da Cultura do governo federal, foi cancelado antes de receber os recursos.
Em 2025, o deputado federal Mario Frias destinou duas emendas de R$ 1 milhão ao ICB, para ações esportivas e de letramento digital. O instituto afirmou que esses projetos tinham destinação própria e não se relacionavam ao WiFi Livre SP. A Academia Nacional de Cultura, também dirigida por Karina desde 2020, recebeu R$ 2,6 milhões em emendas Pix de deputados federais do PL e mais R$ 200 mil do deputado estadual Gil Diniz em 2024.
O termo de colaboração assinado em junho de 2024 previa a implantação, operação e manutenção dos 5 mil pontos até junho de 2025. A representação policial registra que 3,2 mil pontos haviam sido instalados e que três termos aditivos prorrogaram obrigações. Os investigadores apontaram suspeita de R$ 26 milhões pagos sem a entrega correspondente e citaram mais de R$ 11 milhões repassados em julho e agosto de 2024 por 3,2 mil pontos, dos quais apenas seis funcionariam naquele momento.
A polícia também comparou os custos do contrato com acordos anteriores da Prefeitura com a Prodam e classificou a nova contratação como “substancialmente mais onerosa para os cofres públicos”. A administração municipal contesta a comparação e afirma que o contrato com o ICB inclui equipamentos, infraestrutura, obras civis e elétricas, mapeamento e projetos executivos.
Na Operação WiFi Livre, agentes apreenderam documentos e equipamentos e receberam ainda papéis sobre outros quatro termos de colaboração entre o ICB e a secretaria; a Prefeitura nega uso de recursos municipais no filme sobre Jair Bolsonaro, produzido por empresa ligada a Karina e que tem Mario Frias como produtor executivo.