Como as democracias morrem pelas mãos do fascismo ‘amigável’
Cientista político alertou, já nos anos 1980, que líderes autoritários dos tempos modernos se instalam subvertendo polícia, Judiciário e as instituições, corroendo a democracia por dentro
“A próxima leva de fascistas não chegará em vagões de comboio com prisioneiros ou campos de concentração, mas sim com um sorriso e talvez um programa de televisão. Será assim que os fascistas do século 21 tomarão o poder”. Essa constatação preocupante é uma fala final do livro “Friendly Fascism” (Fascismo amigável ou sorridente, na tradução livre – não há original em português), do cientista político norte-americano Bertram Gross, que foi publicado em 1981.
Mais do que uma abordagem teórica sobre remodelagens do fascismo, Gross discute uma mentalidade fascista de governo, uma nova face do poder autocrático e como ele se impõe corroendo as democracias.
O livro se constrói a partir de uma análise da realidade norte-americana à época, na década de 1980, mas é muito abrangente e de uma atualidade incômoda. Poderia, facilmente, estar falando da realidade brasileira neste exato momento. Segundo Gross, há um estreitamento da ligação de governos com as grandes corporações, e para ele, o objetivo econômico é a acumulação de capital, e o objetivo político é a “manutenção de um sistema que explora e ludibria os cidadãos”.
Nessa parceria entre os sistemas de poder e os governos, o autor afirma que eles seguem caminhando com “patas de gato da tirania”. No livro, Gross deixa muito evidente a perspectiva de que o fascismo, nos tempos modernos, não vai se anunciar de modo violento explícito, com brutalidade e tanques nas ruas, mas vai se instalar usando as vias democráticas.
A leitura leva inevitavelmente a um paralelo com outro livro, “Como as democracias morrem”, dos professores de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, publicado em 2018. Os autores discutem, entre outros aspectos, como se dá a corrosão da democracia, mesmo num funcionamento aparentemente normal. Como pano de fundo, a experiência do primeiro governo Donald Trump.
O livro mostra como ocorre a subversão das regras pelos líderes autoritários legitimamente eleitos, com diversas táticas e estratégias que capturam e subvertem os chamados “árbitros da democracia” – a polícia, o Judiciário, instituições de fiscalização, órgãos de investigação – e os transformam em verdadeiras armas contra a oposição. Os autores também ressaltam, entre outros tópicos, o modo como o desmonte – que eu prefiro chamar de corrosão – da democracia vai ocorrendo de maneira lenta, gradual e silenciosa.
Segundo Levitsky e Ziblatt, o líder autoritário não vai simplesmente fechar o Congresso, ele vai intimidar os críticos, propor mudanças em leis já consagradas, desmoralizar a imprensa para calar oponentes… de repente, não mais que de repente, a democracia se foi. E não nos demos conta.
Há um ponto que eu destaco como particularmente importante no livro que se refere ao modo como esses “líderes” atuam para destruir a legitimidade de instituições, como a imprensa, o Judiciário e as universidades. Eu destaco essa abordagem porque o tópico dialoga profundamente com o aparato do ecossistema de desinformação, mesmo que o tema não tenha sido tratado pelos autores. A produção sistemática de desinformação, de mentiras, é um elemento crucial para afundar reputações e deslegitimar, perante a opinião pública, instituições de referência, como imprensa e universidades. Alguma semelhança entre nós?
Essas duas leituras, que mostram cenários muito inquietantes, imediatamente encontraram respaldo na realidade brasileira atual da disputa eleitoral. E três conjuntos de ameaças – duas que apareceram fortuitamente no noticiário e uma mensagem recebida pelo estilista Ronaldo Fraga – chamaram a atenção pelo teor bélico, pela ideia de eliminação violenta e pela corrosão do tecido democrático – tudo aparentemente no jogo democrático.
A primeira delas está numa chamada do jornal Folha de S. Paulo: “Indígenas recebem áudios com ameaça de invasão a território se Flávio Bolsonaro ganhar eleições”. A segunda foi estampada pelo jornal O Globo: “‘Incendiar a UFF de madrugada’: após manifestações pró-Lula em Niterói, estudantes recebem ameaças; reitor aciona Polícia Federal”. E a terceira foi a mensagem recebida no X por Ronaldo Fraga: “Vai ser o fim definitivo dessa petralhada. Quero ver você passando fome, fazendo suas roupas para circo mambembe de estrada”.
Esses recortes vocês podem confirmar pelas reproduções abaixo.
O discurso violento da eliminação do outro
Todos esses ataques são legitimados pelo discurso violento e de eliminação do outro que o bolsonarismo sempre colocou em curso, desde 2018, a despeito da face aparentemente amigável e democrática de seus líderes.
Neste contexto da eleição disputadíssima, os seguidores e apoiadores do bolsonarismo já se sentem autorizados, pelo resultado do primeiro turno, ao ataque violento, sem qualquer respeito pela convivência democrática. Esses agrupamentos autoritários aparentemente amigáveis agem dessa forma: solapam por dentro as instituições para derrubá-las, tirando delas a legitimidade representativa; organizam uma frente sem limites de produção e disseminação de desinformação e mentiras; e promovem ataques diretos e intimidadores para espalhar medo.
Estamos presenciando exatamente esse conjunto de coisas se desenrolar no Brasil pelas mãos do fascismo amigável, que é pleno de muitas estratégias diversionistas. Mas também estamos presenciando uma intensa mobilização para preservar nossa combalida democracia.
Eliara Santana – Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “


