Cerimedo e as velhas e potentes táticas de desinformação sob as barbas da República

O argentino Fernando Cerimedo foi detido no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, no dia 18 de agosto, por agentes da Força Especial de Combate ao Crime (FELCC). Ele é acusado de planejar um ataque armado contra a ex-mulher, a advogada e analista política boliviana Nadia Beller, que foi atingida por três disparos feitos  por dois homens disfarçados de entregadores. 

Cerimedo coordena o portal La Derecha Diario e tem negócios no ramo do marketing político e da produção de conteúdo digital. Tornou-se bastante conhecido por coordenar a comunicação da campanha de Javier Milei ao governo argentino.

 Ele é costumeiramente chamado de “consultor político”, “estrategista digital”, “influencer”. Mas, para além da maquiagem midiática, a especialidade de Cerimedo é mesmo a desinformação como arma de guerra e estratégia política.

Com altíssimo refinamento e larguíssimo alcance, ele foi espalhando suas estratégias pela América Latina e ajudando a consolidar a extrema direita com a disseminação de desinformação, impactando várias eleições. As credenciais do argentino são inquietantes, sem dúvida, mas não são elas exatamente que ampliam nosso interesse em relação a essa figura midiática.

O que nos interessa em Fernando Cerimedo é seu rol de amizades no Brasil e suas ações por aqui, desde 2022. O argentino preso na Bolívia é amigo muito próximo da família Bolsonaro, mais especificamente de Eduardo e de Jair. 

Em 2022, em plena campanha eleitoral, Eduardo Bolsonaro viajou a Buenos Aires para se encontrar com o “estrategista”. Oficialmente, Eduardo, então deputado federal, participou de reuniões com Milei e expoentes da extrema direita argentina para articular apoio a Jair Bolsonaro, tudo organizado por Cerimedo. Também oficialmente, sob as barbas da República, o então deputado gravou vídeos para a campanha de Jair – entre os conteúdos que circularam, muita desinformação associando a vitória de Lula a uma possível crise econômica. 

Fora da agenda oficial, logo após a visitinha de Eduardo, Cerimedo e seu portal passaram a disseminar mentiras sobre as eleições brasileiras. E no dia 4 de novembro de 2022, poucos dias após o resultado final das eleições, o La Derecha Diario transmitiu a live “Brazil Was Stolen”, com mentiras sobre as urnas eletrônicas e o resultado das eleições. A transmissão foi vista por mais de 400 mil pessoas.

Na live, Cerimedo usou um documento apócrifo, uma análise estatística fake para dizer que determinados modelos de urnas eletrônicas, fabricados depois de 2020, direcionavam mais votos a Luiz Inácio Lula da Silva.

À época, o já vociferante deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), além de outros bolsonaristas, retransmitiu a live e fez alarde do conteúdo, que imputava falsidades ao funcionamento das urnas eletrônicas brasileiras. A desinformação espalhada naquele momento não se restringiu ao dia da transmissão da live. Ela circulou, circulou muito e alimentou a militância bolsonarista para se insurgir contra o resultado das eleições.

Além disso, como informou o jornalista Leandro Demori, no canal “A grande guerra”, a mentira divulgada pela transmissão de Cerimedo, “apareceu de forma idêntica na petição que o PL, partido do então presidente Jair Bolsonaro, levou ao tribunal para tentar anular votos.

Segundo a investigação da Polícia Federal, a petição do PL pedia a anulação de 59,18% dos votos do segundo turno, alegando falha nos modelos de urna anteriores a 2020 (UE2009, UE2010, UE2011, UE2013, UE2015): um suposto problema na identificação individual dos logs das urnas, que exibiam um número genérico (“67305985”) em vez de identificador único, o que supostamente impediria vincular o equipamento físico ao registro de votação”.

Ou seja, a mentira contada por um influenciador argentino estrategista da extrema direita foi o que serviu de base a uma interpelação do partido de Jair Bolsonaro, o PL, para questionar o processo eleitoral brasileiro e o resultado daquela eleição.

Pela cronologia aqui exposta, vocês podem observar que nada disso é coincidência ou aleatório. Tratou-se, à época, desde a suposta agenda oficial de Eduardo Bolsonaro, de campanha coordenada e articulada de desinformação, com agentes e temas muito específicos e objetivos cristalinos: incutir sérias dúvidas na população sobre a eleição e desestabilizar as instituições.

A mentira espalhada alimentou bolsonaristas que se recusavam a aceitar o resultado das eleições, com a derrota de Jair Bolsonaro, e que ficaram acampados nos quartéis Brasil afora pedindo intervenção estrangeira no país. 

O problema, quando se trata de um ecossistema de desinformação tão bem organizado, é que a produção e a disseminação não se interrompem com as eleições, e o perigo continua a ameaçar processos eleitorais e a estabilidade institucional.

Importante lembrar que a Polícia Federal, em 2024, indiciou Cerimedo no contexto dos inquéritos que investigaram a tentativa de golpe de Estado no Brasil, acusando-o de integrar o chamado “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”, que foi responsável por disseminar mentiras e  propor ações para desacreditar as instituições brasileiras.

Campanha coordenada e permanente

Esse conjunto de informações e ações mostra muito claramente a robustez da campanha desinformativa. E mais: o tema do ataque às urnas e à lisura do processo eleitoral  permanece e se fortalece a cada eleição, como vemos agora.  

Apesar dos desmentidos do TSE, apesar da punição a Nikolas Ferreira por retransmitir a live em 2022, apesar de Cerimedo ter sido indiciado pela PF em 2024, apesar de tudo, todos eles mantiveram suas ações e os ataques.

Cerimedo, por exemplo, continuou com suas conexões no Brasil e atuante no país com a família Bolsonaro. Em 24 de julho deste ano, ele participou de uma transmissão ao lado de Eduardo Bolsonaro, oportunidade em que voltaram a fazer alegações mentirosas sobre irregularidades nas urnas eletrônicas.

O evento se deu apenas dois dias depois de Flávio Bolsonaro, num evento com diplomatas, colocar em dúvida a lisura das urnas eletrônicas e apresentar várias ilações. De novo: nada disso é coincidência. Trata-se de ação coordenada de desinformação, com muitas conexões e vários estrategistas criando narrativas falsas.

Portanto, é também uma preparação de reação violenta em caso de derrota, com o enredo já pronto: vão falar em fraude nas urnas e mobilizar as piores reações dos simpatizantes.

Estamos em um novo ciclo eleitoral, mas lidando com as velhas e potentes táticas de desinformação da extrema direita, sob as barbas da República. 

 

(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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