“O governo de Rodrigo Paz anulou de forma completamente arbitrária nos últimos dias seis frequências da Rádio Kawsachun Coca, reconhecida como uma voz de referência nacional, de defesa do interesse do povo boliviano contra os estrangeiros”, denunciou a comunicadora Dolores Arce, ex-chefe das Rádios dos Povos Originários (RPOs) durante o mandato do presidente Evo Morales.
Conforme Dolores, embora estabelecida no Trópico de Cochabamba e pertencente aos sindicatos camponeses desta estratégica região da Bolívia, “pelo peso das suas palavras, o seu alcance chegou a todos os recantos do país”. “Esta é mais uma entre tantas agressões deste governo à liberdade de expressão”, afirmou.
Não é a primeira vez que a rádio é alvo da insanidade ditatorial, recordou a renomada comunicadora, apontando os abusos praticados durante o golpe de Estado de Jeanine Áñez (novembro de 2019 a novembro de 2020). “Com o golpe de Áñez, houve não apenas censura, mas também episódios de queima e destruição de estações de rádio — entre elas a própria Rádio Kawsachun Coca (RKC), na cidade de Cochabamba, além da Rádio Soberania — naquele período de grande convulsão”, lembrou.
“RKC foi agredida por ser o principal canal de comunicação do ex-presidente Evo Morales”
“Agora, sob Rodrigo Paz, ocorre uma nova investida para silenciar vozes críticas. No caso da RKC, trata-se, evidentemente, do principal canal de comunicação utilizado pelo ex-presidente Evo Morales. Foi agredida, portanto, por tornar-se o principal inimigo deste governo no campo midiático”, declarou.
Dolores Arce explicou que isso ocorre “porque a emissora pertence às seis federações cocaleiras e conta com um sistema via satélite consolidado, por meio do qual muitíssimas emissoras em todo o país, especialmente em áreas rurais, captam o sinal”. “Esta é uma forma covarde de silenciar — ou de tentar calar a oposição. Digo ‘tentar’, porque, embora tenham concretizado o golpe recorrendo a artimanhas técnico-legais para cassar as frequências, a tecnologia atual impede que a comunicação seja interrompida nas redes”, assinalou.
Neste momento estão silenciadas seis das 15 emissoras da RKC: 99,1 FM – Cochabamba; 90,7 FM – Villa Tunari; 95,9 FM – Ivirgarzama; 91,5 FM – Valle Alto e San Benito; 95,1 FM – Montero; e 91,5 FM – Buena Vista.
“Eles podem, sim, impedir a transmissão via rádio FM e limitar o alcance, mas não conseguirão silenciar. Portanto, é um equívoco deste governo acreditar que, ao calar a emissora ou promover sabotagens, conseguirá tirar esta emissora do ar. Não será assim”, registrou.
A comunicadora acredita que, “na verdade, a medida terá o efeito contrário, pois com ela o governo está revelando sua verdadeira face”. “Rodrigo Paz não possui vocação democrática; ele governa contra o povo e, por isso, não tolera vozes dissidentes, críticas ou aquelas que o lembram de suas mentiras. Nesse sentido, a rede de rádios Kawsachun Coca torna-se uma vítima”, condenou Dolores, advertindo que neste ritmo “não será a única”.
“Temos certeza de que este é um caminho traçado — que começa com a RKC e pode se estender a outras rádios comunitárias e meios de comunicação alternativos. Meios que difundem informação em regiões rurais, ampliando o debate e convocando a organização popular. Quando as frequências são anuladas, não se apaga apenas um sinal, mas o canal pelo qual milhares de pessoas falam e são ouvidas”, enfatizou.
RÁDIO KAWSACHUN COCA ACUSA INTERFERÊNCIA EM SEU SINAL E “BOICOTE TÉCNICO”
A direção executiva da Rádio Kawsachun Coca acusou publicamente neste sábado (17) a existência de um “boicote técnico” e uma interferência sistemática contra seu sinal de transmissão no departamento de Cochabamba.
Segundo o pronunciamento institucional emitido pela emissora, a frequência 99.1 FM vem apresentando graves anomalias operacionais há cinco dias em diversos setores da capital de Cochabamba, onde ouvintes relataram que a programação habitual do veículo foi deslocada e substituída, de forma abrupta, por músicas em língua estrangeira.
A administração da rádio sustentou categoricamente que essa alteração ilegal do espectro radioelétrico constitui um atentado direto à liberdade de expressão e viola o direito constitucional da população de se manter informada por meio do veículo de comunicação de sua preferência.
Nesse sentido, a direção do veículo criticou duramente o silêncio e a inação da Autoridade de Regulação e Fiscalização de Telecomunicações e Transportes (ATT), alertando que a falta de fiscalização adequada e no prazo torna o órgão regulador cúmplice dessa irregularidade técnica. Por isso, exigiu uma intervenção imediata para identificar a origem do sinal interferente e restabelecer a transmissão normal.
“Paz obriga as emissoras a se alinharem ao mandato imperial de Trump”
Para o cientista social e pesquisador Porfirio Cochi, de El Alto, a política implementada por Paz “atenta contra a liberdade de expressão”, pois “força as emissoras a aplicarem a linha editorial dos donos do grande capital publicitário, via de regra vinculados ao mandato imperial de Trump”.
“Alguns dos meios de comunicação — que deveriam ser independentes e livres —, fortemente influenciados pela atual crise econômica que o país atravessa, acabaram praticando a autocensura. Isso ocorre porque, caso publiquem denúncias ou opiniões contrárias ao governo, sofrem represálias imediatas: perdem o acesso a verbas publicitárias e passam a ser alvo de perseguição por parte do fisco, tudo com o objetivo de silenciá-los de vez. Por outro lado, existem organizações alternativas que vêm denunciando arbitrariedades e o autoritarismo contra diversos grupos sociais; contudo, elas acabam sendo censuradas pelo próprio governo”, anotou Cochi.

De acordo com o cientista social altenho, “esses veículos não contam com as mesmas vantagens que outros meios de comunicação para obter verbas publicitárias”. “Ou seja, estão sendo sufocados, tendo suas oportunidades de competir na transmissão de informações drasticamente reduzidas em comparação aos meios oficiais — especialmente aqueles alinhados ao governo. Acredito que essas sejam as duas formas de autocensura. Além disso, alguns meios de comunicação vinculados a organizações sociais tiveram suas licenças de funcionamento cassadas, numa tentativa de torná-los ilegais caso continuem operando”, acrescentou.
“Veja bem, este governo é um governo de privatização, desnacionalização e retirada de direitos. Eles não deveriam estar na presidência; tiveram que realizar várias manobras para legitimar esse acidente político”, asseverou Cochi.
“Um governo que responde aos interesses estrangeiros está fadado à queda”
O pesquisador boliviano reiterou que “Paz não tem partido, não tem programa nem plano de governo, é, na verdade, um governo fadado à queda — e que, aliás, está caindo, não é?”. Portanto, salientou, “digo que este é um governo que surgiu como um acidente na história política boliviana”.
“Justamente por não ter um plano de governo nem um partido político, ele atende, em primeiro lugar, a interesses transnacionais — ou melhor, nem sequer a interesses transnacionais em geral, mas especificamente aos interesses do governo norte-americano. Trata-se de uma lógica de controle — no âmbito do ‘Escudo das Américas’ — e de submissão, na qual se perde toda a autoridade, toda a dignidade e toda a soberania política e econômica. É uma relação de dependência em relação a um governo estrangeiro que deseja controlar tudo o que compõe a América Latina”, concluiu Porfirio Cochi.